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Março 2007 - Ano 86 - Nº 821

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Produtora de café há mais de 150 anos, a Fazenda Tozan, também conhecida como Fazenda Monte d´Deste, localizada a 12 quilômetros de Campinas (SP), acompanha a trajetória do café brasileiro, vivenciando ciclos de adversidade e tempos de prosperidade. Fundada em 1798, com 6.400 hectares de terra, e denominada Fazenda Ponte Alta, guarda passagens marcantes no fortalecimento da cafeicultura paulista e participação ativa na imigração e colonização japonesa. Desde 1927, pertence à família Iwasaki, fundadora do Grupo Mitsubishi.

Do mirante, em construção japonesa de onde é possível vislumbrar toda a propriedade de 830 hectares, o diretor presidente do Grupo Tozan do Brasil e membro da quarta geração da família, Toru Iwasaki, acompanha a produção de um milhão e 350 mil pés de café. Deste local, acompanha as transformações que a fazenda teve que passar nos últimos anos para se adequar às tendências do mercado de café. Da colheita manual à mecanizada, do terreiro de alvenaria à lama asfáltica, dos secadores a lenha ao aquecimento a gás, todos os processos visam a melhoria da qualidade e maior competitividade no agronegócio.

Toru Iwasaki: primeiro membro da
família na gerência da fazenda

Tecnologia para novos tempos

Embora a tradição seja o ponto forte da propriedade bicentenária, os avanços tecnológicos podem ser vistos em cada etapa da produção. Hoje está completa a renovação das lavouras, iniciada em 1992, para se adequar ao espaçamento mais adensado e à colheita e tratos mecanizados. O uso de novas cultivares, como Obatã e Tupi, também foi implementado para o escalonamento da colheita e otimização da estrutura de preparo e beneficiamento. Na última safra a fazenda colheu oito mil sacas de café beneficiado, grande parte destinada à exportação.
Para atender às exigências de qualidade, cerca de 30% da produção são de cereja descascado (CD), que recebem preços diferenciados no mercado. O café natural de terreiro também recebe cuidados especiais, com orientação técnica para o preparo de um café de melhor qualidade. Na época de colheita, mesmo sendo mecanizada, a fazenda emprega cerca de 60 trabalhadores temporários, além de 50 famílias residentes. A movimentação vai de maio a agosto, quando as visitações agendadas são intensificadas.

Práticas sustentáveis

Seguindo orientação técnica especializada, os tratos culturais da lavoura cafeeira primam pela sustentabilidade, com uso controlado de produtos químicos e crescente utilização de adubação orgânica. Para facilitar este processo, a fazenda criou um ciclo diversificado de atividades. O confinamento de 100 cabeças de Nelore contribui para a produção de mil toneladas de compostagem orgânica, que também utiliza a casca do café para retorno às lavouras. Para facilitar a criação do gado, a fazenda optou pela produção de milho para silagem e grãos.
A idéia de Toru Iwasaki é diversificar ainda mais a propriedade com atividades hortícolas e frutíferas, visando a oferecer produtos frescos e orgânicos aos visitantes. Desde 1929, o reflorestamento é outro ponto de destaque, seja com espécies nativas ou plantio de eucalipto. Seguindo a organização japonesa, as diferentes espécies que ornamentam a sede colonial recebem placas indicativas com nome e origem.

Incentivos à Ciência

O primeiro administrador enviado pela família Iwasaki foi Kiyoshi Yamamoto, que diversificou a área com algodão, cereais, adotou a prática do reflorestamento e introduziu pesquisas e experiências com citros. Mas a grande inovação que trouxe ao Brasil foi o método de controle biológico, com a utilização da “Vespa de Uganda” no combate à “broca do café”, uma das piores pragas desde aquele período, e objeto de sua tese de doutorado pela Universidade de Ciências Agronômicas de Tóquio (Japão).

O incentivo à ciência se manteve nas administrações seguintes. É notória a parceria com o Instituto Agronômico (IAC), com a manutenção de área experimental de quatro hectares para avaliação de cultivares. Linhagens que se destacam nesta área são usadas em novos plantios. Por sua diversidade e adequação tecnológica, a Fazenda Tozan será um dos locais de visitação durante a 22ª International Conference on Coffee Science, organizada pela International Association on Coffee Science (ASIC), a ser realizada no Brasil, de 14 a 19 de setembro de 2008, em Campinas/SP.

O café está presente em cada detalhe

Tempero Japonês

Outra particularidade da Fazenda Tozan é que ela possui a única fábrica da América Latina destinada à produção de saquê (bebida típica japonesa obtida da fermentação do arroz). Em funcionamento desde 1934, a fábrica também produz o tempero shoyo. A linha de produtos está à venda na loja próxima à sede da fazenda, aberta para atender aos visitantes que querem uma lembrança dos eventos gastronômicos oferecidos no local. O roteiro turístico cultural inclui opções de almoço típico ou churrasco com tempero japonês.

Da lavoura à xícara

Desde 1994, a Fazenda Tozan passou a integrar o roteiro turístico rural e cultural de Campinas, com média anual de cinco mil visitantes. De estudantes a empresários, os grupos são acompanhados por guias que apresentam todas as etapas do cultivo do café. Há grande interesse também de grupos estrangeiros, das mais variadas nacionalidades, que descobrem na Tozan os segredos da história e cultivo de tão apreciada bebida.

No museu dedicado ao café, organizado na antiga serraria e tulha de beneficiamento, grandes murais retratam a história da Fazenda, os desafios enfrentados pela família Iwasaki e a persistência no desenvolvimento tecnológico que a tornaram referência no mercado. De onde o visitante sai com uma aula sobre a trajetória do café, e conhece das diferenças entre os tipos de grãos ao maquinário usado para beneficiamento na década de 50. A visita continua na lavoura, ainda mais interessante durante a época da colheita, quando é possível acompanhar o caminho dos grãos, dos pés de café ao terreiro, seguido pela preparação, seleção e beneficiamento.

História Compartilhada

Alguns fatos são destacados na história da Fazenda. Dois anos após a compra pela família Iwasaki, a economia mundial é abalada pela quebra da Bolsa de Nova Yorque, em 1929, quando muitos barões do café não suportaram o prejuízo e a Fazenda Tozan sobrevive graças ao capital japonês, diversificação das atividades e empenho de seus trabalhadores. Durante o período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), por pertencer a uma família japonesa, a Fazenda foi confiscada pelo governo brasileiro durante 10 anos (1942-1951) e ocupada pelo exército. Tempo de opressão injustiçada e abandono das lavouras. Quando a família retomou o comando da Fazenda, as dificuldades culminaram na venda de grande parte de suas terras, passando de 3.700 hectares para 830.

Mas também há passagens memoráveis. Serviu de cenário para gravação de uma mini-série japonesa “Haru e Natsu”, pela NHK, maior emissora de televisão do Japão, que narra a história das condições da colonização no Brasil. A mini-série deverá ser reapresentada na TV brasileira em 2008. As lavouras de café da Tozan também foram escolhidas para filmagens das telenovelas brasileiras Sinhá Moça e Cidadão Brasileiro.

A Fazenda Tozan figura entre as pioneiras do ciclo de ouro do café, já que em 1886 era responsável por cerca de 12% da produção da província de São Paulo, o maior centro produtor de café durante o século XIX e grande parte do século XX. De 60 mil cafeeiros desse período, aos mais de um milhão de pés cultivados atualmente, há realmente muita história para contar. Uma história que se confunde com a própria trajetória do café no Brasil, marcada pela perseverança e progresso.

 
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