Produtora
de café há mais de 150 anos, a Fazenda
Tozan, também conhecida como Fazenda Monte
d´Deste, localizada a 12 quilômetros de
Campinas (SP), acompanha a trajetória do café
brasileiro, vivenciando ciclos de adversidade e tempos
de prosperidade. Fundada em 1798, com 6.400 hectares
de terra, e denominada Fazenda Ponte Alta, guarda
passagens marcantes no fortalecimento da cafeicultura
paulista e participação ativa na imigração
e colonização japonesa. Desde 1927,
pertence à família Iwasaki, fundadora
do Grupo Mitsubishi.
| Do
mirante, em construção japonesa
de onde é possível vislumbrar toda
a propriedade de 830 hectares, o diretor presidente
do Grupo Tozan do Brasil e membro da quarta geração
da família, Toru Iwasaki, acompanha a produção
de um milhão e 350 mil pés de café.
Deste local, acompanha as transformações
que a fazenda teve que passar nos últimos
anos para se adequar às tendências
do mercado de café. Da colheita manual
à mecanizada, do terreiro de alvenaria
à lama asfáltica, dos secadores
a lenha ao aquecimento a gás, todos os
processos visam a melhoria da qualidade e maior
competitividade no agronegócio. |
Toru
Iwasaki: primeiro membro da
família na gerência da fazenda |
Tecnologia
para novos tempos
Embora a tradição seja o ponto forte
da propriedade bicentenária, os avanços
tecnológicos podem ser vistos em cada etapa
da produção. Hoje está completa
a renovação das lavouras, iniciada em
1992, para se adequar ao espaçamento mais adensado
e à colheita e tratos mecanizados. O uso de
novas cultivares, como Obatã e Tupi, também
foi implementado para o escalonamento da colheita
e otimização da estrutura de preparo
e beneficiamento. Na última safra a fazenda
colheu oito mil sacas de café beneficiado,
grande parte destinada à exportação.
Para atender às exigências de qualidade,
cerca de 30% da produção são
de cereja descascado (CD), que recebem preços
diferenciados no mercado. O café natural de
terreiro também recebe cuidados especiais,
com orientação técnica para o
preparo de um café de melhor qualidade. Na
época de colheita, mesmo sendo mecanizada,
a fazenda emprega cerca de 60 trabalhadores temporários,
além de 50 famílias residentes. A movimentação
vai de maio a agosto, quando as visitações
agendadas são intensificadas.
Práticas
sustentáveis
Seguindo orientação técnica especializada,
os tratos culturais da lavoura cafeeira primam pela
sustentabilidade, com uso controlado de produtos químicos
e crescente utilização de adubação
orgânica. Para facilitar este processo, a fazenda
criou um ciclo diversificado de atividades. O confinamento
de 100 cabeças de Nelore contribui para a produção
de mil toneladas de compostagem orgânica, que
também utiliza a casca do café para
retorno às lavouras. Para facilitar a criação
do gado, a fazenda optou pela produção
de milho para silagem e grãos.
A idéia de Toru Iwasaki é diversificar
ainda mais a propriedade com atividades hortícolas
e frutíferas, visando a oferecer produtos frescos
e orgânicos aos visitantes. Desde 1929, o reflorestamento
é outro ponto de destaque, seja com espécies
nativas ou plantio de eucalipto. Seguindo a organização
japonesa, as diferentes espécies que ornamentam
a sede colonial recebem placas indicativas com nome
e origem.
Incentivos
à Ciência
O primeiro administrador enviado pela família
Iwasaki foi Kiyoshi Yamamoto, que diversificou a área
com algodão, cereais, adotou a prática
do reflorestamento e introduziu pesquisas e experiências
com citros. Mas a grande inovação que
trouxe ao Brasil foi o método de controle biológico,
com a utilização da “Vespa de
Uganda” no combate à “broca do
café”, uma das piores pragas desde aquele
período, e objeto de sua tese de doutorado
pela Universidade de Ciências Agronômicas
de Tóquio (Japão).
| O
incentivo à ciência se manteve nas
administrações seguintes. É
notória a parceria com o Instituto Agronômico
(IAC), com a manutenção de área
experimental de quatro hectares para avaliação
de cultivares. Linhagens que se destacam nesta
área são usadas em novos plantios.
Por sua diversidade e adequação
tecnológica, a Fazenda Tozan será
um dos locais de visitação durante
a 22ª International Conference on Coffee
Science, organizada pela International Association
on Coffee Science (ASIC), a ser realizada no Brasil,
de 14 a 19 de setembro de 2008, em Campinas/SP. |
O
café está presente em cada detalhe |
Tempero
Japonês
Outra particularidade da Fazenda Tozan é que
ela possui a única fábrica da América
Latina destinada à produção de
saquê (bebida típica japonesa obtida
da fermentação do arroz). Em funcionamento
desde 1934, a fábrica também produz
o tempero shoyo. A linha de produtos está à
venda na loja próxima à sede da fazenda,
aberta para atender aos visitantes que querem uma
lembrança dos eventos gastronômicos oferecidos
no local. O roteiro turístico cultural inclui
opções de almoço típico
ou churrasco com tempero japonês.
Da
lavoura à xícara
Desde 1994, a Fazenda Tozan passou a integrar o roteiro
turístico rural e cultural de Campinas, com
média anual de cinco mil visitantes. De estudantes
a empresários, os grupos são acompanhados
por guias que apresentam todas as etapas do cultivo
do café. Há grande interesse também
de grupos estrangeiros, das mais variadas nacionalidades,
que descobrem na Tozan os segredos da história
e cultivo de tão apreciada bebida.
No museu dedicado ao café, organizado na antiga
serraria e tulha de beneficiamento, grandes murais
retratam a história da Fazenda, os desafios
enfrentados pela família Iwasaki e a persistência
no desenvolvimento tecnológico que a tornaram
referência no mercado. De onde o visitante sai
com uma aula sobre a trajetória do café,
e conhece das diferenças entre os tipos de
grãos ao maquinário usado para beneficiamento
na década de 50. A visita continua na lavoura,
ainda mais interessante durante a época da
colheita, quando é possível acompanhar
o caminho dos grãos, dos pés de café
ao terreiro, seguido pela preparação,
seleção e beneficiamento.
História
Compartilhada
Alguns
fatos são destacados na história da
Fazenda. Dois anos após a compra pela família
Iwasaki, a economia mundial é abalada pela
quebra da Bolsa de Nova Yorque, em 1929, quando muitos
barões do café não suportaram
o prejuízo e a Fazenda Tozan sobrevive graças
ao capital japonês, diversificação
das atividades e empenho de seus trabalhadores. Durante
o período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945),
por pertencer a uma família japonesa, a Fazenda
foi confiscada pelo governo brasileiro durante 10
anos (1942-1951) e ocupada pelo exército. Tempo
de opressão injustiçada e abandono das
lavouras. Quando a família retomou o comando
da Fazenda, as dificuldades culminaram na venda de
grande parte de suas terras, passando de 3.700 hectares
para 830.
Mas também há passagens memoráveis.
Serviu de cenário para gravação
de uma mini-série japonesa “Haru e Natsu”,
pela NHK, maior emissora de televisão do Japão,
que narra a história das condições
da colonização no Brasil. A mini-série
deverá ser reapresentada na TV brasileira em
2008. As lavouras de café da Tozan também
foram escolhidas para filmagens das telenovelas brasileiras
Sinhá Moça e Cidadão Brasileiro.
A Fazenda Tozan figura entre as pioneiras do ciclo
de ouro do café, já que em 1886 era
responsável por cerca de 12% da produção
da província de São Paulo, o maior centro
produtor de café durante o século XIX
e grande parte do século XX. De 60 mil cafeeiros
desse período, aos mais de um milhão
de pés cultivados atualmente, há realmente
muita história para contar. Uma história
que se confunde com a própria trajetória
do café no Brasil, marcada pela perseverança
e progresso.
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