Em
julho de 1982, na Espanha, a seleção
brasileira de futebol entrou para a história
como o melhor time que não ganhou a Copa do
Mundo. Ocorrera duas vezes antes: com a seleção
húngara de 1954 e com a seleção
holandesa de 1974.
A seleção do técnico Telê
Santana encantou o mundo com o talento de craques
do quilate de Zico, Falcão, Júnior,
Sócrates, Toninho Cerezo. E, na camisa daquele
grande time, entrou para a história o lançamento
mundial do Símbolo de Qualidade do Café
do Brasil, o famoso “Raminho do Café”.
Dois anos antes, o presidente João Baptista
Figueiredo havia determinado que o Instituto Brasileiro
do Café patrocinasse o time da CBF, presidida,
então, por um velho amigo seu, o empresário
Giulite Coutinho. Começava a nascer o Raminho,
que rapidamente se tornou popularíssimo e hoje,
25 anos depois, continua a adornar a sacaria do nosso
café, e a valorizar as embalagens das marcas
que o usam.
Mas, quem inventou o Raminho?
| Por
ter tido o privilégio de lidar com o assunto
desde o primeiro momento, rememoro, a seguir,
uma parte dessa bela história e seus personagens.
O primeiro nome que me vem à lembrança
é o da saudosa artista plástica
Donatella Berlendis, autora do desenho, e que
morreu prematuramente em 2002. O segundo, o embaixador
Octavio Rainho Neves, presidente do IBC, que fez
a escolha final da peça, entre a meia-dúzia
de desenhos que Donatella criou, por encomenda
de Mauro Salles, cuja agência de publicidade
tinha a conta do IBC. |
Nilo
Dante |
Aqui,
cabe lembrar Sigurd Schindler, diretor de Exportação,
que deu a idéia de trazer a agência do
Mauro para o IBC. Ótima idéia que, como
Coordenador de Comunicação Social, e
com a aquiescência do Rainho, acolhi com entusiasmo.
Eu conhecia Mauro Salles desde o tempo em que trabalhávamos
no O Globo, eu como simples repórter, ele como
subsecretário de Redação e homem
de confiança do grande Alves Pinheiro, o chefe
dos chefes, e do próprio doutor Roberto.
Em vários níveis e sob múltiplos
aspectos, muitos outros se envolveram de alguma forma
com a idealização, a criação
e o lançamento do Raminho. Antes de fazer a
justiça de lembrá-los, explique-se que
símbolos de qualidade constituem a única
forma de se promover matéria-prima, isto é,
algo que não se encontra ostensivamente à
disposição do consumidor na loja da
esquina.
O café do Brasil acha-se em centenas de marcas
de café mundo a fora. Mas não nas embalagens.
Ao contrário da Colômbia, que por várias
décadas se dedicou a promover a marca da origem,
o Brasil nunca se preocupou muito com publicidade
daquele que, por mais de um século, foi o seu
principal produto de exportação. Preferiu
manter o café em um cone de sombras. Até
o dia em que Octavio Rainho se deparou com a oportunidade
de promovê-lo, ante a determinação
do Palácio do Planalto de o IBC prover apoio
financeiro à seleção de futebol
à Copa de 1982. Por ser o Coordenador de Comunicação
Social do IBC, recebi a incumbência de tocar
o assunto, longe de saber que aquilo seria a missão
de uma vida...
Com a preciosa ajuda do Mauro Salles, e a orientação
do Rainho, esculpiu-se um Plano Promocional do Café
do Brasil no Exterior, baseado no lançamento
de um símbolo de qualidade, a exemplo de outras
matérias-primas que já usavam essa poderosa
ferramenta de marketing, como o ouro, a lã,
a platina e o diamante. Os torrefadores que incluíssem
em seus blends uma quantidade substancial de café
do Brasil teriam o direito de usar, em suas embalagens,
o nosso Raminho, então valorizado por uma campanha
de publicidade de alcance mundial, estrelada por ninguém
menos que Pelé. Algo semelhante à célebre
franchise da Coroa Britânica, “By Appointment
to Her Majesty, The Queen”.
Além da Salles Interamericana, participaram
do lançamento a Oghilvy & Mather, de Londres,
e três agências de relações
públicas: Stavisky & Associates, de Washington,
Francis Schuster Ltd, de Londres, e a S.A.E., de Barcelona.
A esta última, sob o comando do incansável
Joaquim Maestre Morata, caberia a grande operação
de campo que inundou a Espanha de ações
promocionais-publicitárias em torno do Raminho,
nos meses que antecederam a Copa do Mundo de 82.
Barcelona, Madri e Sevilha centralizaram a maior parte
dessas ações. Nas principais concentrações
populares dessas cidades, nas ruas, avenidas e estádios,
viam-se enormes outdoors com a figura de Pelé
apontando o café do Brasil como “campeão
mundial de qualidade”. Serviços móveis
de degustação do nosso cafezinho produziam
filas quilométricas. Amostras de 100 gramas
eram distribuídas em massa, como outros brindes
baseados no Raminho. Mas, nada se compara ao sucesso
que faziam as camisetas amarelas da seleção,
distribuídas Espanha a fora.
Entre as inumeráveis manifestações
de carinho à seleção brasileira,
a mais impressionante terá sido a “invasão”
do Estádio Sarriá pela tripulação
do navio “Custódio de Mello”, da
Marinha, todos vestidos com a camiseta amarela, para
uma tarde inesquecível de futebol-arte em que
o time brasileiro deu um baile na seleção
soviética.
Mas, nem sempre os ventos sopraram a favor, na jornada
inicial do Raminho. Ainda em 1981, enquanto se planejava
o lançamento, recebemos a péssima notícia
de que o presidente da Fifa, João Havelange,
havia negado à CBF permissão para exibir
o Raminho na camisa da seleção, em jogos
oficiais.
Shakira
Caine |
Estávamos
fora da Copa, não fosse a corajosa decisão
de Giulite Coutinho de mudar o próprio
escudo da entidade, para nele inserir o Raminho
do Café. Outra decepção foi
a recusa da belíssima sra. Chella Safra
em posar para uma das peças publicitárias
da campanha de lançamento criadas pela
Oghilvy. Além de belíssima, ela
era o retrato da morena sofisticada que se desejava
associar ao Café do Brasil. A campanha
acabou estrelada por outra celebridade, igualmente
morena e belíssima, a modelo indiana Shakira
Caine, mulher do ator Michael Caine. O sucesso
foi enorme. |
Quando o Raminho foi lançado, nos idos de 82,
pode-se dizer que o café vivia um momento especial.
Provavelmente, uma das últimas fases da grande
importância econômica internacional. Forte
presença diplomática e uma eficiente
política de exportação produziam
os sucessivos recordes de volume e divisas cambiais
que marcaram a administração Octavio
Rainho no IBC. Ele havia escalado uma diretoria de
notáveis especialistas em café, com
os quais muito aprendo. Cito o Sigurd Schindler, na
Exportação, o José de Paula Motta
Filho, na Produção, o João Roberto
Puliti, no Consumo Interno, o Maurício Palmeiro,
na Coordenadoria Técnica, o Bernando Roma,
na Coordenadoria Econômica e o Guilherme Braga,
na chefia do Gabinete. O IBC chegava aos 30 anos.
A OIC, então no auge do prestígio, sob
a direção de Alex Beltrão, completava
20 anos.
O meio empresarial assistia à chegada de Sergio
Coimbra, Sérgio Tristão e tantos outros,
a nova geração que se preparava para
receber o bastão de Horácio Coimbra,
Jônice Tristão, Carlos Calmon, Paulo
Motta, Pepe Esteves e tantos outros que deixaram o
nome na fascinante jornada do café.
O Raminho do Café, com todos os seus encantos,
pertence a todos eles. Foi o símbolo de um
momento mágico que o tempo levou.
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