Recentemente
o governador de São Paulo, José Serra,
em audiência com o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, fez uma solicitação formal
para que fosse realizada a transferência (regionalização)
do Porto de Santos para o Estado. Com o pleito, algumas
questões estruturais atuais daquela importante
área vieram à tona, como a dragagem
insuficiente, o déficit financeiro da usina
que abastece o Porto (Itatinga), o local inadequado
do retroporto — o que dificulta o carregamento
de navios, entre outros problemas.
O governo federal não sinalizou se vai ou não
efetuar a regionalização, mas a observação
nos meios de comunicação das dificuldades
estruturais do principal escoadouro da produção
brasileira de café suscita reflexões.
Santos vem registrando recordes de embarques, não
só de café, como também de produtos
estratégicos, como açúcar, carne
e álcool. Segundo dados da assessoria de comunicação
social do Porto, em janeiro, a movimentação
da unidade foi a maior da história, com 5.610.159
toneladas, crescimento de 23,67%, sendo que apenas
as exportações no período tiveram
aumento da ordem de 35,67%. A projeção
para o ano de 2007 é de uma movimentação
total de 79 milhões de toneladas.
No café, os números de Santos também
impressionam. Os embarques por esse Porto estão
em um crescente. Em 2002, 52,2% do café exportado
pelo Brasil — 13,36 milhões de sacas
— foi remetido por Santos, ao passo que em 2006
esse volume atingiu 65,9% (16,06 milhões de
sacas), segundo dados do Cecafé (Conselho dos
Exportadores de Café do Brasil). Entre janeiro
e fevereiro deste ano, o Porto paulista embarcou 2,81
milhões de sacas, o que significa 71,0% do
total do país.
Números tão significativos apenas evidenciam
a preferência logística por Santos, dada
sua localização, vias de acesso, entre
outros fatores. No entanto, não é segredo
para exportadores e operadores que os chamados “gargalos”
atrapalham negócios e fazem com que muitos
planejamentos estratégicos para exportação
tenham de ser revistos, o que significa maior custo
e até mesmo atraso nas entregas dos produtos
a seus compradores.
Gargalos
— Em artigo publicado na revista “Hoje”,
do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de
São Paulo), a pesquisadora Thais Sigolo e o
diretor da empresa Eatom, Antônio Carlos Meduna,
apontam para os problemas dos “gargalos”
em Santos, destacando que esses entraves podem corresponder
de 30% a 35% do preço final do produto exportado,
ao passo que na Europa ou nos Estados Unidos fatores
logísticos embutem um custo de 10% a 12% no
artigo embarcado.
Para os autores, o Porto de Santos não comporta
um volume tão grande de mercadorias, sendo
que os terminais lotados levam, inevitavelmente, a
atrasos e isso faz com que as empresas tenham de arcar
com custos em terminais alfandegários que estão
localizados distantes do Porto.
O
sócio-diretor da Five Star Service Comércio
Exterior, Ronaldo Jamar Taboada, trilha um caminho
concordante com os autores do artigo. Ele lembra
que a dinâmica operacional leva as empresas
a procurarem efetuar seus embarques através
de Santos. No entanto, apontou, a concentração
de cargas fez com que problemas como atrasos de
navios, cargas deixadas, filas nas portas de terminais,
custos extras, entre outros, passassem a ser verificados.
A procura por Santos ocorre também devido
ao calado do canal, que permite a recepção
de grandes navios. Contudo, mesmo com esse diferencial
existe um problema de grande repercussão.
“Continuamos necessitando da dragagem que,
no entanto, por diversas vezes foi interrompida”,
apontou Taboada. |
Ronaldo
Jamar Taboada |
De acordo com o empresário, uma carga é
carregada quando é feita a retirada do contêiner
vazio para se proceder a ovação. O transporte,
desse modo, será processado apenas quando o
“gate” do terminal, que havia sido indicado
e contratado pelo armador, efetuar a autorização
do recebimento. Essa autorização ocorre
com a comunicação de ambas as partes,
com o armador informando a data em que o navio deverá
atracar.
“O que observamos é que o navio não
atraca no dia combinado com o terminal. A carga já
está depositada e aí decorrem os custos
de armazenagem. Às vezes, o caminhão
está na porta do terminal e recebe a informação
de que o navio não chegará e que não
poderá descarregar tal carga. Somos obrigados
a depositar em outro local, com custos extras para
o exportador”, sustentou.
Taboada apontou que após se ter a confirmação
de que o navio irá atracar, há de se
fazer outra contratação de transportadora.
O empresário lembrou que em muitas dessas ocorrências
o armador declara que o atraso ocorre devido ao congestionamento
no porto de origem. “Nesse conflito de informações
é o exportador quem fica com os custos extraordinários”,
disse.
Segundo Carlos Alberto Lopes, operador de café
em Santos da exportadora Unicafé, alguns problemas
de logística realmente são verificados
no porto paulista. “Temos esses ‘gargalos’
com burocracia e também problemas com armadores,
falta de contêineres, que realmente dificultam
o trabalho a ser realizado”, sustentou.
Lopes, no entanto, também recorre à
logística para apontar a razão pela
qual os exportadores concentram seus embarques em
Santos. Segundo ele, a proximidade com as zonas produtoras
é um fator de extrema importância. Além
disso, a localização de Santos é
ideal para o preparo dos blends de café e isso
faz com que as empresas, mesmo diante dos problemas
observados, continuem escolhendo esse local para a
realização de suas remessas internacionais.
Infra-estrutura
— Ronaldo Jamar Taboada apontou que vários
terminais estão fazendo investimento em suas
infra-estruturas e na administração,
buscando efetuar um atendimento mais abalizado. Contudo,
ainda são verificados casos em que a carga
chega a ficar mais que sete dias livre, como normalmente
é previsto. O empresário apontou que
há armadores que não cumprem com a programação,
o conhecido “dead line”.
“O armador criou o ‘dead line’ para
cargas e documentos com o intuito de, ao atracar,
não ficar mais que algumas horas em operação
e, assim, reduzir seus custos. Os exportadores cumprem
o ‘dead line’, porém, o armador
não cumpre sua parte. Quando cumpre ficamos
surpresos em saber que não poderemos embarcar,
já que o navio está lotado (overbooking)”,
relatou.
Para Edson Tellaroli, responsável pelo setor
de café da Aliança Navegação
e Logística (Grupo Hamburg Süd), os problemas
estruturais de Santos existem e são conhecidos
dos operadores. No entanto, o Porto é estratégico
para as ações de embarque de café
e de uma gama de outros produtos. “Esses problemas,
evidentemente, tornam o nosso dia a dia muito mais
agitado”, ressaltou.
Tellaroli sustentou que, mesmo com as dificuldades
observadas com os armadores, o Porto ainda é
aquele mais procurado por conta de características
que não são encontradas em outros locais.
“Aqui temos uma concentração de
contêineres e um espaço maior. Além
disso, no caso específico do café, possuímos
uma proximidade com o sul de Minas Gerais, com o cerrado
mineiro, com o interior paulista e tal fator conta
muito”, sustentou.

Demanda
de escala — Arildo Dantas, despachante
alfandegário e operador de café da 3K
Sister Brasil, declarou que a preferência por
Santos reside na demanda de escala. “O Porto
tem proximidade com as regiões produtoras,
algo muito importante. Além disso, temos três
saídas semanais, o que é extremamente
relevante no planejamento de qualquer exportador”,
dispôs.
O operador da 3K Sister reconheceu que alguns entraves
logísticos trazem dificuldades adicionais.
Para ele, os portos secos são uma alternativa
que têm registrado resultados expressivos, uma
vez que o trânsito é iniciado na origem
e em Santos apenas o processo final é executado.
A EADI de Varginha e a REDEX de Guaxupé e de
Poços de Caldas registraram em 2006 o embarque
de 1,530 milhão de sacas de café, montante
menor que o observado em 2004, quando 1,865 milhão
de sacas do grão foram remetidas ao exterior,
de acordo com dados fornecidos pelo Cecafé.
Percentualmente, em 2006, essas unidades exportaram
6,2% do volume global, ao passo que em 2004 haviam
sido responsáveis por 8,1%. Entre janeiro e
fevereiro deste ano, as unidades exportaram 896 mil
sacas (4,9% do total).
“As EADIs e REDEX facilitam, especialmente para
aquelas empresas próximas a essas estruturas.
No entanto, elas não aliviam os problemas portuários”,
comentou Ronaldo Taboada.
Efetivamente, esses problemas estruturais representam
um custo extra para as operações do
Porto de Santos. “Temos uma das capatazias mais
caras do mundo, mesmo assim as empresas continuam
aqui pela questão do número de navios,
número de saídas”, declarou Edson
Tellaroli, da Aliança.
Já o sócio-diretor da Five Star questionou
as cobranças mais altas, lembrando que a lógica
da oferta e da demanda está sendo claramente
subvertida. Ou seja, Santos deveria ter preços
mais competitivos, uma vez que movimenta muito mais
cargas que qualquer outro porto do Brasil, observou
Taboada.
O Porto de Santos é hoje a principal porta
de saída para os produtos brasileiros. O seu
bom funcionamento é estratégico, garantindo
que os produtos nacionais cheguem ao seu destino e
que os prazos acordados com compradores sejam respeitados.
Governo e iniciativa privada concordam que a otimização
logística é o caminho para que boa parte
dos problemas seja solucionada, garantindo às
empresas que utilizam esse Porto a tranqüilidade
para que o seu café, ou outro produto, chegue
ao importador da forma devida, preservando o market
share brasileiro.
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