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Março 2007 - Ano 86 - Nº 821

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Não estranhem o título. Estressar vem da palavra “stress”, ou cansaço, desgaste, colocar em falta e outros mais significados que são mais conhecidos no uso para nós humanos, na maioria estressados pela vida corrida e pelos problemas diários.

Na lavoura de café empregamos o stress para 2 situações principais. A primeira quando a lavoura se esgota, se estraga, ou se desgasta, ficando menos vegetada e mais sentida, com pouca folhagem e com ramos secos. Essa é a condição freqüente após uma safra alta. A segunda usamos, de forma semelhante, quando ocorre a falta de água, conhecida como stress hídrico da lavoura.

Nas condições usuais de manejo dos cafezais, a pleno sol, como são praticadas aqui no Brasil, ocorre na maioria das regiões cafeeiras um período frio e seco de maio a setembro, ocorrendo assim, um “stress” hídrico também natural.

Nas áreas irrigadas, que têm crescido em nossa cafeicultura, pode-se ou não parar a irrigação no período em que se desejar. Existem controvérsias sobre a necessidade ou conveniência do stress hídrico em cafezais.

As pesquisas têm ainda poucos resultados e algumas mostram dados conflitantes. Deste modo, os técnicos e os cafeicultores estão hoje em dúvida. Por isso a pergunta título de nossa análise neste artigo.

Vamos tentar colocar nossas observações para ajudar na tomada de decisão.

Frutificação mais uniforme devido a um stress hídrico
pela redução da quantidade de água irrigada

Fases fenológicas do cafeeiro

No quadro aqui incluído pode-se observar as diferentes fases fenológicas do cafeeiro, recorrendo aos ensinamentos de nosso eterno Mestre Ângelo Paes de Camargo.
Como se pode observar, na fase de colheita e logo após essa operação o cafeeiro apresenta, nas regiões normais, uma fase de pouco desenvolvimento vegetativo, quase uma dormência.
As regiões de inverno mais quente, hoje constituindo novas áreas cafeeiras, como o Oeste da Bahia e a região de Pirapora em Minas, possuem inverno quente e sob irrigação os cafeeiros continuam seu crescimento normal.

O efeito do stress hídrico

As gemas florais do cafeeiro são seriadas, se desenvolvendo e chegando à maturação em épocas distintas, o que, sob condições normais, leva à ocorrência de floradas também em série, ou seja, em períodos sucessivos, sendo normal 2-3 floradas principais,que ocorrem de outubro a dezembro.

Quando o período de pós colheita é bem seco, vários grupos (séries) de gemas florais chegam à maturação e logo entram em dormência de forma mais uniforme, levando a floradas e, conseqüente frutificação e maturação também mais homogêneas, o que facilita a colheita e a qualidade do café.

Trabalhos de pesquisa mais antigos na África mostram que o stress hídrico pode até aumentar o nº de gemas e flores no cafeeiro. Outros trabalhos de pesquisa, no Brasil, mostram, ao contrário, que o stress, apesar de uniformizar a floração, acaba reduzindo a produção, principalmente nas regiões de inverno quente.

Pesquisa publicada nos dois últimos anos volta a ressaltar a importância do stress hídrico para favorecer a maturação e a qualidade dos frutos de café, na região Oeste da Bahia, onde algumas fazendas vêm adotando a indução de déficit em lavouras irrigadas.


Ramo com florada desigual devido à falta de stress
Por outro lado, o stress,como se sabe e trabalhos de pesquisa recente mostram, induz à forte desfolha nas plantas, que leva a perdas de crescimento e de produção. Em cafezal em Luiz Eduardo Magalhães BA, desfolhas artificialmente efetuadas em cafeeiros, com redução na folhagem de 50 a 100%, levaram a perdas de produção na safra seguinte em 25 a 81%. Tem-se, assim, resultados bons com o stress, mas que precisam mais trabalhos.

Onde pode estar a razão

Apesar de se conhecer que em biologia não existe uma ciência exata e os resultados podem variar, achamos que a melhor razão, como sempre, pode estar no meio termo.

Veja-se o enunciado de trabalho publicado em 2006, por Matiello e outros, com base em estudos em Pirapora MG, em região quente, com cafeeiros arábica (Anais 32º CBPC, p.30-1, 2006): “pode ser, então, que o déficit necessário, que não influa tão negativamente na vegetação do cafeeiro, signifique uma redução na água.”

Pesquisa e marketing

A boa pesquisa cafeeira é aquela que se mostra com resultados consistentes, bem validada na prática. O trabalho de indução de stress hídrico no cafeeiro, deve, assim, ser baseado em ensaios em vários locais e observando, nas técnicas experimentais, todos os aspectos da lavoura, suas características vegetativas e produtivas.

A medição da tensão da água nos cafeeiros é uma técnica difícil, e mostra índices variáveis conforme o tipo e a idade das folhas. Por outro lado, o estabelecimento de um período fixo em dias para o stress, pode levar a desgastes e desfolhas acentuadas dos cafeeiros de diferentes situações.

Diz-se que a galinha é a melhor marketeira, pois bota apenas um ovo e canta muito. Já a pesquisa e sua difusão devem ser acompanhadas de um processo de análise bem fundamentado, sem a pressa que o marketing muitas vezes exige para justificar o trabalho.

 
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