Não
estranhem o título. Estressar vem da palavra
“stress”, ou cansaço, desgaste,
colocar em falta e outros mais significados que são
mais conhecidos no uso para nós humanos, na
maioria estressados pela vida corrida e pelos problemas
diários.
Na lavoura de café empregamos o stress para
2 situações principais. A primeira quando
a lavoura se esgota, se estraga, ou se desgasta, ficando
menos vegetada e mais sentida, com pouca folhagem
e com ramos secos. Essa é a condição
freqüente após uma safra alta. A segunda
usamos, de forma semelhante, quando ocorre a falta
de água, conhecida como stress hídrico
da lavoura.
Nas condições usuais de manejo dos cafezais,
a pleno sol, como são praticadas aqui no Brasil,
ocorre na maioria das regiões cafeeiras um
período frio e seco de maio a setembro, ocorrendo
assim, um “stress” hídrico também
natural.
Nas
áreas irrigadas, que têm crescido
em nossa cafeicultura, pode-se ou não parar
a irrigação no período em
que se desejar. Existem controvérsias sobre
a necessidade ou conveniência do stress
hídrico em cafezais.
As pesquisas têm ainda poucos resultados
e algumas mostram dados conflitantes. Deste modo,
os técnicos e os cafeicultores estão
hoje em dúvida. Por isso a pergunta título
de nossa análise neste artigo.
Vamos tentar colocar nossas observações
para ajudar na tomada de decisão. |
Frutificação
mais uniforme devido a um stress hídrico
pela redução da quantidade de
água irrigada |
Fases
fenológicas do cafeeiro
No quadro aqui incluído pode-se observar as
diferentes fases fenológicas do cafeeiro, recorrendo
aos ensinamentos de nosso eterno Mestre Ângelo
Paes de Camargo.
Como se pode observar, na fase de colheita e logo
após essa operação o cafeeiro
apresenta, nas regiões normais, uma fase de
pouco desenvolvimento vegetativo, quase uma dormência.
As regiões de inverno mais quente, hoje constituindo
novas áreas cafeeiras, como o Oeste da Bahia
e a região de Pirapora em Minas, possuem inverno
quente e sob irrigação os cafeeiros
continuam seu crescimento normal.

O
efeito do stress hídrico
As gemas florais do cafeeiro são seriadas,
se desenvolvendo e chegando à maturação
em épocas distintas, o que, sob condições
normais, leva à ocorrência de floradas
também em série, ou seja, em períodos
sucessivos, sendo normal 2-3 floradas principais,que
ocorrem de outubro a dezembro.
Quando o período de pós colheita é
bem seco, vários grupos (séries) de
gemas florais chegam à maturação
e logo entram em dormência de forma mais uniforme,
levando a floradas e, conseqüente frutificação
e maturação também mais homogêneas,
o que facilita a colheita e a qualidade do café.
Trabalhos de pesquisa mais antigos na África
mostram que o stress hídrico pode até
aumentar o nº de gemas e flores no cafeeiro.
Outros trabalhos de pesquisa, no Brasil, mostram,
ao contrário, que o stress, apesar de uniformizar
a floração, acaba reduzindo a produção,
principalmente nas regiões de inverno quente.
Pesquisa publicada nos dois últimos anos volta
a ressaltar a importância do stress hídrico
para favorecer a maturação e a qualidade
dos frutos de café, na região Oeste
da Bahia, onde algumas fazendas vêm adotando
a indução de déficit em lavouras
irrigadas.
Ramo
com florada desigual devido à falta de
stress |
Por
outro lado, o stress,como se sabe e trabalhos
de pesquisa recente mostram, induz à
forte desfolha nas plantas, que leva a perdas
de crescimento e de produção.
Em cafezal em Luiz Eduardo Magalhães
BA, desfolhas artificialmente efetuadas em cafeeiros,
com redução na folhagem de 50
a 100%, levaram a perdas de produção
na safra seguinte em 25 a 81%. Tem-se, assim,
resultados bons com o stress, mas que precisam
mais trabalhos. |
Onde
pode estar a razão
Apesar
de se conhecer que em biologia não existe uma
ciência exata e os resultados podem variar,
achamos que a melhor razão, como sempre, pode
estar no meio termo.
Veja-se o enunciado de trabalho publicado em 2006,
por Matiello e outros, com base em estudos em Pirapora
MG, em região quente, com cafeeiros arábica
(Anais 32º CBPC, p.30-1, 2006): “pode ser,
então, que o déficit necessário,
que não influa tão negativamente na
vegetação do cafeeiro, signifique uma
redução na água.”
Pesquisa
e marketing
A
boa pesquisa cafeeira é aquela que se mostra
com resultados consistentes, bem validada na prática.
O trabalho de indução de stress hídrico
no cafeeiro, deve, assim, ser baseado em ensaios em
vários locais e observando, nas técnicas
experimentais, todos os aspectos da lavoura, suas
características vegetativas e produtivas.
A medição da tensão da água
nos cafeeiros é uma técnica difícil,
e mostra índices variáveis conforme
o tipo e a idade das folhas. Por outro lado, o estabelecimento
de um período fixo em dias para o stress, pode
levar a desgastes e desfolhas acentuadas dos cafeeiros
de diferentes situações.
Diz-se que a galinha é a melhor marketeira,
pois bota apenas um ovo e canta muito. Já a
pesquisa e sua difusão devem ser acompanhadas
de um processo de análise bem fundamentado,
sem a pressa que o marketing muitas vezes exige para
justificar o trabalho.
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