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Março 2007 - Ano 86 - Nº 821

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Maior produtor mundial de café e segundo maior mercado consumidor do mundo, o Brasil vem perdendo oportunidades no comércio globalizado por deixar de adotar para o setor o regime de drawback, que permitiria às suas indústrias importar o produto para revendê-lo como solúvel, agregando valor às nossas exportações.

Como é de praxe acontecer no Brasil em questões um pouco mais complexas, as barreiras que estão se erguendo ao drawback têm muito de desconhecimento de causa e nacionalismo atávico - ingredientes que em nada contribuem para o nosso desenvolvimento.
O assunto requer reflexão ponderada, lucidez e decisão livre de preconceitos ideológicos, sob o risco de o país continuar a perder espaço para países industrializados, os quais sequer produzem café.

O ponto principal a ser considerado é que o drawback constitui uma medida extraordinária - e, portanto, temporária - a ser adotada num momento em que há excesso de produção oriunda de países de baixo custo de mão-de-obra - e baixo preço.

Tal circunstância faz com que indústrias de países não-produtores do grão reduzam seus custos com matéria-prima, colocando-se em vantagem com relação aos fabricantes brasileiros.

O drawback não visa a uma substituição do grão cultivado no Brasil – em especial, o tipo conillon do Espírito Santo, utilizado no blend de solúvel - mas sim a um acréscimo que permita às indústrias de solúvel instaladas no país terem competitividade para concorrer em igualdade de condições com os fabricantes europeus, sobretudo os alemães, que dominam o mercado.

Válido ressaltar que a indústria brasileira de solúvel já é hoje o principal consumidor do conillon do Espírito Santo, comprando a maior parte de sua produção, de cerca de 9,5 milhões de sacas.
Ambos os segmentos, portanto, podem e devem se ver como aliados. Até porque o grão cultivado lá fora, e vendido a preço muito baixo, é o verdadeiro inimigo da lavoura cafeeira brasileira.

A utilização exclusiva do grão brasileiro não tem sido suficiente para propiciar à nossa indústria melhores condições de competição no mercado global. A solução é permitir a importação eventual de cafés a preço internacional, não somente para manter o mercado externo já cativo, como para abrir novas oportunidades.

O café já é uma das maiores fontes de divisas do agronegócio brasileiro (a maior, se considerado apenas o produto final Made in Brasil). Manter esta posição é um permanente desafio. Conquistar novas frentes, mais difícil ainda. Mas perder mercado é fácil, basta o país adotar uma visão míope em relação à economia globalizada.

Cabe lembrar que o produto industrializado vale até 20 vezes mais do que a matéria-prima (café verde) exportada, potencializando aumento de receitas.

Por esta razão, grandes produtores da commodity, como Colômbia, Equador, México, Índia e Indonésia já adotaram o drawback - de forma pragmática e livre de preconceitos - sem qualquer prejuízo para a sua própria lavoura. Ao contrário, graças à importação do produto, estão conseguindo tomar mercado dos fabricantes brasileiros.

Ora, não parece razoável impingir ao Brasil uma proibição de importação, na prática uma reserva de mercado que vem lhe fechando mercados, em proveito de seus concorrentes. Neste sentido, é importante ressaltar que o regime de drawback traria benefícios para toda a cadeia de café (do cafeicultor ao industrial), na medida em que teria um impacto positivo na commodity, com alta das cotações.

A possibilidade de importação também transformaria o Brasil na maior plataforma exportadora de café industrializado do mundo, pois todos os grandes fabricantes, sem exceção, veriam vantagens competitivas em investir em plantas em solo nacional.

Hoje, o movimento é inverso: uma grande fabricante multinacional, com operação no Brasil, já anunciou suas novas plantas na Rússia, na Colômbia e no Vietnã. Tudo considerado, não parece razoável que continuemos a olhar com preconceito para o regime de drawback. Em tempos de Crescimento Acelerado, o governo deve estar atento à questão, a fim de não travar um importante segmento do agronegócio!

 
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