Maior
produtor mundial de café e segundo maior mercado
consumidor do mundo, o Brasil vem perdendo oportunidades
no comércio globalizado por deixar de adotar
para o setor o regime de drawback, que permitiria
às suas indústrias importar o produto
para revendê-lo como solúvel, agregando
valor às nossas exportações.
Como é de praxe acontecer no Brasil em questões
um pouco mais complexas, as barreiras que estão
se erguendo ao drawback têm muito de desconhecimento
de causa e nacionalismo atávico - ingredientes
que em nada contribuem para o nosso desenvolvimento.
O assunto requer reflexão ponderada, lucidez
e decisão livre de preconceitos ideológicos,
sob o risco de o país continuar a perder espaço
para países industrializados, os quais sequer
produzem café.
O ponto principal a ser considerado é que o
drawback constitui uma medida extraordinária
- e, portanto, temporária - a ser adotada num
momento em que há excesso de produção
oriunda de países de baixo custo de mão-de-obra
- e baixo preço.
Tal circunstância faz com que indústrias
de países não-produtores do grão
reduzam seus custos com matéria-prima, colocando-se
em vantagem com relação aos fabricantes
brasileiros.
O drawback não visa a uma substituição
do grão cultivado no Brasil – em especial,
o tipo conillon do Espírito Santo, utilizado
no blend de solúvel - mas sim a um acréscimo
que permita às indústrias de solúvel
instaladas no país terem competitividade para
concorrer em igualdade de condições
com os fabricantes europeus, sobretudo os alemães,
que dominam o mercado.
Válido ressaltar que a indústria brasileira
de solúvel já é hoje o principal
consumidor do conillon do Espírito Santo, comprando
a maior parte de sua produção, de cerca
de 9,5 milhões de sacas.
Ambos os segmentos, portanto, podem e devem se ver
como aliados. Até porque o grão cultivado
lá fora, e vendido a preço muito baixo,
é o verdadeiro inimigo da lavoura cafeeira
brasileira.
A utilização exclusiva do grão
brasileiro não tem sido suficiente para propiciar
à nossa indústria melhores condições
de competição no mercado global. A solução
é permitir a importação eventual
de cafés a preço internacional, não
somente para manter o mercado externo já cativo,
como para abrir novas oportunidades.
O café já é uma das maiores fontes
de divisas do agronegócio brasileiro (a maior,
se considerado apenas o produto final Made in Brasil).
Manter esta posição é um permanente
desafio. Conquistar novas frentes, mais difícil
ainda. Mas perder mercado é fácil, basta
o país adotar uma visão míope
em relação à economia globalizada.
Cabe lembrar que o produto industrializado vale até
20 vezes mais do que a matéria-prima (café
verde) exportada, potencializando aumento de receitas.
Por esta razão, grandes produtores da commodity,
como Colômbia, Equador, México, Índia
e Indonésia já adotaram o drawback -
de forma pragmática e livre de preconceitos
- sem qualquer prejuízo para a sua própria
lavoura. Ao contrário, graças à
importação do produto, estão
conseguindo tomar mercado dos fabricantes brasileiros.
Ora, não parece razoável impingir ao
Brasil uma proibição de importação,
na prática uma reserva de mercado que vem lhe
fechando mercados, em proveito de seus concorrentes.
Neste sentido, é importante ressaltar que o
regime de drawback traria benefícios para toda
a cadeia de café (do cafeicultor ao industrial),
na medida em que teria um impacto positivo na commodity,
com alta das cotações.
A possibilidade de importação também
transformaria o Brasil na maior plataforma exportadora
de café industrializado do mundo, pois todos
os grandes fabricantes, sem exceção,
veriam vantagens competitivas em investir em plantas
em solo nacional.
Hoje, o movimento é inverso: uma grande fabricante
multinacional, com operação no Brasil,
já anunciou suas novas plantas na Rússia,
na Colômbia e no Vietnã. Tudo considerado,
não parece razoável que continuemos
a olhar com preconceito para o regime de drawback.
Em tempos de Crescimento Acelerado, o governo deve
estar atento à questão, a fim de não
travar um importante segmento do agronegócio!
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