O
ano novo lunar Vietnamita, chamado “Tet”
, é a comemoração mais importante
do ano no Vietnã e ocorre na mesma temporada
que o carnaval no Brasil. O festival paraliza o país
por uma semana para comemorações em
família. Com a colheita do café robusta
em pleno vigor de dezembro a janeiro, a chegada do
“Tet” (de 16-25 de fevereiro este ano)
sempre marca o fim da colheita e uma pausa na comercialização
da safra robusta. Esta pausa também nos dá
a oportunidade de analisar as atividades do mercado
Vietnamita nos últimos meses.
Esse ano as comemorações foram grandes
para o produtor de café, sendo que os preços
durante a colheita foram os mais remunerativos desde
que começaram a produzir café em grande
escala no país. Já estava claro desde
o ano passado que a safra 2006/07 seria uma das maiores
safras que o país já produziu. Se falava
em um milhão de toneladas (16.7 m. de sacas),
com algumas estimativas mais altas, em torno de 18.5
m. de sacas. Porém, mesmo os mais otimistas
sobre a safra não tinham idéia que tanto
café seria comercializado desde o produtor
até o setor comercial, num tempo tão
curto. Cada ano que passa, o produtor Vietnamita se
torna mais maduro e sofisticado na arte de vender
sua produção. Nos primeiros anos de
produção, eles sempre vendiam uma porcentagem
fixa e alta (de 60-75%) da safra antes da chegada
do festival “Tet”. Em 2006, com o conhecimento
que havia uma quebra grande na safra 2005/06, e vendo
que as chuvas fora de época durante a colheita
em janeiro causariam problemas para o mercado interno,
o produtor teve a confiança de vender somente
um terço de sua produção antes
do ”Tet”.

O que está claro é que em 2007, o produtor
aproveitou os preços altamente remunerativos
– pelo menos em termos relativos – para
vender um volume recorde de café. A média
do preço interno entre outubro e meados de
fevereiro 2006/07 foi de 22,000 dong Vietnamita (VND)
por kilo (USD 1,00 = 16.000 BND), comparado a 17,000
VND em 2005/06 e 9,000 VND há somente dois
anos em 2004/05. Usando 16.7 m. de sacas para a safra
2006/07, é estimado que os produtores venderam
65% da safra antes da chegada do festival “Tet”.
O maior poder aquisitivo do produtor de café
esse ano é visível nas províncias
produtoras de café, especialmente em Dak Lak
aonde a quebra da safra em 2005/06 foi mais violenta,
e porém, aonde ocorreu melhor recuperação
em 2006/07. As províncias produtoras estão
em plena reconstrução, e as vendas de
motocicletas importadas, fogos de artifício
e outros produtos de luxo estavam em alta nas semanas
antes do começo do festival “Tet”.
Também está claro pelo volume recorde
de exportações e pelo alto nível
de estoques, que a maior parte do volume vendido pelo
produtor antes do festival “Tet” já
passou por toda cadeia e se encontra nas mãos
do setor comercial. Os estoques do setor comercial
em Hochiminh em meados de fevereiro estavam em torno
de 4.5 m. de sacas. Usando os números da OIC
o Vietnã exportou 5.7 m. de sacas entre outubro
e janeiro, 34% a mais do que as exportações
no mesmo período de 2005/06. É importante
alertar que o Vietnã emite três números
de exportações de café diferentes,
sendo que dois – os da VICOFA e os da GSO -
são os mais divulgados. Os números da
VICOFA (Associação Nacional de Café
e Cacau) são calculados usando certificados
de origem (e por isso são praticamente idênticos
aos da OIC). Os números da GSO (Instituto Geral
de Estatísticas) representam todo café
alfandegado. Com o uso extenso de armazéns
alfandegados no país para a estocagem de café,
os números GSO têm tendência de
serem mais altos do que os números VICOFA,
que só captam café embarcado. Portanto,
a GSO divulga que de outubro a janeiro o Vietnã
“exportou” 7.8 m. de sacas.
Com estoques de 4.5 m. de sacas em Hochiminh e embarques
de 5.7 m. de sacas, o que sobra fora das mãos
do setor comercial na véspera do festival “Tet”
é mais ou menos 5.5 m. de sacas. Os exportadores
e intermediários locais venderam uma grande
porcentagem da safra 2006/07 antecipadamente. Desde
junho de 2006 os exportadores já tinham uma
extensiva cobertura de futuros sobre essas vendas
em torno de US$1200 por tonelada. Porém a subida
da Bolsa LIFFE durante a segunda parte de 2006 causou
grandes problemas na entrega do café. Além
disso, pela primeira vez em 2006 os operadores locais
também especularam no mercado de futuros; o
sentimento baixista devido ao tamanho da safra no
Vietnã os incentivou a tomar posições
short em junho e julho. As perdas foram grandes –
a imprensa fala em dezenas de milhões de dólares.
Ao mesmo tempo, o setor está se modernizando
devido à entrada do Vietnã na OMC em
2006. Há cinco anos, mais do que 95% das exportações
de café do país eram feitas por companhias
estatais. Hoje em dia 10-20% das exportações
são feitas por exportadoras internacionais,
e as estatais estão tomando o primeiro passo
na direção da privatização.

Muitas já são consideradas joint stock
– 49% da companhia pertence a diretoria e os
outros 51% ainda ao governo. O governo tem como meta
transformar todas as estatais em companhias joint
stock até o fim de 2007. Nesse clima agora
mais competitivo, os exportadores nacionais tiveram
que fazer um alto giro de vendas ao setor comercial
em janeiro para financiar as grandes perdas de 2006.
A falta de capital nas mãos dos intermediários
e dos exportadores locais também dificultou
a estocagem e especulação de café
no interior, especialmente com o preço de café
a mais de US$1500 por tonelada. O café comercializado
caiu rapidamente nas mãos de quem tinha capital
disponível para o carry – as exportadoras
internacionais e o setor comercial. O resto - 5.5
m. de sacas - ainda se encontra nas mãos do
produtor, sendo que os exportadores precisam de grande
parte desse volume para cobrir as vendas que fizeram
em janeiro para entrega após o “Tet”.
O difícil é saber quando o produtor
vai vender o que resta da safra. Por um lado se pode
argumentar que com o preço tão mais
alto do que o ano passado, o produtor continuará
vendendo agressivamente após o “Tet”.
Por outro, ficou claro durante janeiro que o produtor
só vendeu café nos dias em que a Bolsa
estava em torno de US$1600, saindo do mercado quando
a Bolsa caiu em direção a US$1500. Comparado
aos últimos anos, o produtor está com
poder capital relativamente alto, e então é
possível que ele espere até a chegada
das chuvas em maio – que vão determinar
o tamanho da safra 2007/08 – para vender o que
resta. Se o produtor não continuar vendendo
a safra agressivamente após o “Tet”
haverá um deficit no mercado interno, o que
afetará as entregas prometidas pelos exportadores
e o diferencial FOB.
O produtor também está vendo que a demanda
pelo produto é alta; a safra recorde não
fez muita pressão baixista nos preços
internos. O diferencial FOB abriu durante dezembro
e janeiro mas ainda está longe de atingir tenderable
parity. O setor comercial aproveitou os diferenciais
mais favoráveis durante essa temporada curta,
mas agora ele é dono de um alto nível
de estoques num mercado sem carry. A estrutura da
Bolsa incentivou ofertas para embarques imediatos
– que a indústria comprou com vontade
– e embarques também em direção
à Europa para entrega eventual à Bolsa
. Nas semanas antes do festival “Tet”
as embarcações de Hochiminh estavam
repletas de café. O robusta Vietnamita também
está sendo comprado pela Indonésia,
aonde o consumo interno está crescendo e o
preço do robusta local - o asalan - está
acima do nível da Bolsa.

A situação é diferente para a
segunda metade de 2007. Os diferenciais mais caros
sendo oferecidos para embarques de julho a dezembro
refletem as expectativas da parte do setor comercial
sobre a estrutura da Bolsa. A indústria até
agora prefere esperar – há uma expectativa
que os estoques de robusta Vietnamita em Hochiminh
e na Europa vão fazer pressão baixista
na estrutura da Bolsa e que ela volte a cash and carry,
o que ajudaria a abertura dos diferenciais. A indústria
também espera a entrada da próxima safra
robusta na Indonésia em maio, que parece ser
maior do que a anterior. Mesmo com uma safra maior
na Indonésia, o mercado vai vir atrás
dos estoques de robusta do Vietnã nas mãos
do setor comercial e do produtor, simplesmente devido
ao fato de que não há fonte alternativa
de robustas em quantidade no mercado para embarque.
Estoques de robusta existem na Europa mas vêm
caindo desde outubro. Eles devem começar a
subir de novo em março devido aos grandes embarques
do Vietnã antes do festival “Tet”,
mas é improvável que até o fim
do coffee year em setembro, eles voltem a atingir
seu nível anterior. Durante a safra menor em
2005/06, os estoques no interior do Vietnã
também caíram drasticamente. Esse ano
pode ser que os estoques internos se recuperem, o
que vai afetar o nível de exportações
totais do ano no Vietnã. O mercado pode até
parecer que está bem abastecido de robustas
no momento, mas levando o ano 2006/07 como um todo
a situação continua precária.
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