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Março 2007 - Ano 86 - Nº 821

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O ano novo lunar Vietnamita, chamado “Tet” , é a comemoração mais importante do ano no Vietnã e ocorre na mesma temporada que o carnaval no Brasil. O festival paraliza o país por uma semana para comemorações em família. Com a colheita do café robusta em pleno vigor de dezembro a janeiro, a chegada do “Tet” (de 16-25 de fevereiro este ano) sempre marca o fim da colheita e uma pausa na comercialização da safra robusta. Esta pausa também nos dá a oportunidade de analisar as atividades do mercado Vietnamita nos últimos meses.

Esse ano as comemorações foram grandes para o produtor de café, sendo que os preços durante a colheita foram os mais remunerativos desde que começaram a produzir café em grande escala no país. Já estava claro desde o ano passado que a safra 2006/07 seria uma das maiores safras que o país já produziu. Se falava em um milhão de toneladas (16.7 m. de sacas), com algumas estimativas mais altas, em torno de 18.5 m. de sacas. Porém, mesmo os mais otimistas sobre a safra não tinham idéia que tanto café seria comercializado desde o produtor até o setor comercial, num tempo tão curto. Cada ano que passa, o produtor Vietnamita se torna mais maduro e sofisticado na arte de vender sua produção. Nos primeiros anos de produção, eles sempre vendiam uma porcentagem fixa e alta (de 60-75%) da safra antes da chegada do festival “Tet”. Em 2006, com o conhecimento que havia uma quebra grande na safra 2005/06, e vendo que as chuvas fora de época durante a colheita em janeiro causariam problemas para o mercado interno, o produtor teve a confiança de vender somente um terço de sua produção antes do ”Tet”.

O que está claro é que em 2007, o produtor aproveitou os preços altamente remunerativos – pelo menos em termos relativos – para vender um volume recorde de café. A média do preço interno entre outubro e meados de fevereiro 2006/07 foi de 22,000 dong Vietnamita (VND) por kilo (USD 1,00 = 16.000 BND), comparado a 17,000 VND em 2005/06 e 9,000 VND há somente dois anos em 2004/05. Usando 16.7 m. de sacas para a safra 2006/07, é estimado que os produtores venderam 65% da safra antes da chegada do festival “Tet”. O maior poder aquisitivo do produtor de café esse ano é visível nas províncias produtoras de café, especialmente em Dak Lak aonde a quebra da safra em 2005/06 foi mais violenta, e porém, aonde ocorreu melhor recuperação em 2006/07. As províncias produtoras estão em plena reconstrução, e as vendas de motocicletas importadas, fogos de artifício e outros produtos de luxo estavam em alta nas semanas antes do começo do festival “Tet”.

Também está claro pelo volume recorde de exportações e pelo alto nível de estoques, que a maior parte do volume vendido pelo produtor antes do festival “Tet” já passou por toda cadeia e se encontra nas mãos do setor comercial. Os estoques do setor comercial em Hochiminh em meados de fevereiro estavam em torno de 4.5 m. de sacas. Usando os números da OIC o Vietnã exportou 5.7 m. de sacas entre outubro e janeiro, 34% a mais do que as exportações no mesmo período de 2005/06. É importante alertar que o Vietnã emite três números de exportações de café diferentes, sendo que dois – os da VICOFA e os da GSO - são os mais divulgados. Os números da VICOFA (Associação Nacional de Café e Cacau) são calculados usando certificados de origem (e por isso são praticamente idênticos aos da OIC). Os números da GSO (Instituto Geral de Estatísticas) representam todo café alfandegado. Com o uso extenso de armazéns alfandegados no país para a estocagem de café, os números GSO têm tendência de serem mais altos do que os números VICOFA, que só captam café embarcado. Portanto, a GSO divulga que de outubro a janeiro o Vietnã “exportou” 7.8 m. de sacas.

Com estoques de 4.5 m. de sacas em Hochiminh e embarques de 5.7 m. de sacas, o que sobra fora das mãos do setor comercial na véspera do festival “Tet” é mais ou menos 5.5 m. de sacas. Os exportadores e intermediários locais venderam uma grande porcentagem da safra 2006/07 antecipadamente. Desde junho de 2006 os exportadores já tinham uma extensiva cobertura de futuros sobre essas vendas em torno de US$1200 por tonelada. Porém a subida da Bolsa LIFFE durante a segunda parte de 2006 causou grandes problemas na entrega do café. Além disso, pela primeira vez em 2006 os operadores locais também especularam no mercado de futuros; o sentimento baixista devido ao tamanho da safra no Vietnã os incentivou a tomar posições short em junho e julho. As perdas foram grandes – a imprensa fala em dezenas de milhões de dólares. Ao mesmo tempo, o setor está se modernizando devido à entrada do Vietnã na OMC em 2006. Há cinco anos, mais do que 95% das exportações de café do país eram feitas por companhias estatais. Hoje em dia 10-20% das exportações são feitas por exportadoras internacionais, e as estatais estão tomando o primeiro passo na direção da privatização.

Muitas já são consideradas joint stock – 49% da companhia pertence a diretoria e os outros 51% ainda ao governo. O governo tem como meta transformar todas as estatais em companhias joint stock até o fim de 2007. Nesse clima agora mais competitivo, os exportadores nacionais tiveram que fazer um alto giro de vendas ao setor comercial em janeiro para financiar as grandes perdas de 2006. A falta de capital nas mãos dos intermediários e dos exportadores locais também dificultou a estocagem e especulação de café no interior, especialmente com o preço de café a mais de US$1500 por tonelada. O café comercializado caiu rapidamente nas mãos de quem tinha capital disponível para o carry – as exportadoras internacionais e o setor comercial. O resto - 5.5 m. de sacas - ainda se encontra nas mãos do produtor, sendo que os exportadores precisam de grande parte desse volume para cobrir as vendas que fizeram em janeiro para entrega após o “Tet”.

O difícil é saber quando o produtor vai vender o que resta da safra. Por um lado se pode argumentar que com o preço tão mais alto do que o ano passado, o produtor continuará vendendo agressivamente após o “Tet”. Por outro, ficou claro durante janeiro que o produtor só vendeu café nos dias em que a Bolsa estava em torno de US$1600, saindo do mercado quando a Bolsa caiu em direção a US$1500. Comparado aos últimos anos, o produtor está com poder capital relativamente alto, e então é possível que ele espere até a chegada das chuvas em maio – que vão determinar o tamanho da safra 2007/08 – para vender o que resta. Se o produtor não continuar vendendo a safra agressivamente após o “Tet” haverá um deficit no mercado interno, o que afetará as entregas prometidas pelos exportadores e o diferencial FOB.

O produtor também está vendo que a demanda pelo produto é alta; a safra recorde não fez muita pressão baixista nos preços internos. O diferencial FOB abriu durante dezembro e janeiro mas ainda está longe de atingir tenderable parity. O setor comercial aproveitou os diferenciais mais favoráveis durante essa temporada curta, mas agora ele é dono de um alto nível de estoques num mercado sem carry. A estrutura da Bolsa incentivou ofertas para embarques imediatos – que a indústria comprou com vontade – e embarques também em direção à Europa para entrega eventual à Bolsa . Nas semanas antes do festival “Tet” as embarcações de Hochiminh estavam repletas de café. O robusta Vietnamita também está sendo comprado pela Indonésia, aonde o consumo interno está crescendo e o preço do robusta local - o asalan - está acima do nível da Bolsa.

A situação é diferente para a segunda metade de 2007. Os diferenciais mais caros sendo oferecidos para embarques de julho a dezembro refletem as expectativas da parte do setor comercial sobre a estrutura da Bolsa. A indústria até agora prefere esperar – há uma expectativa que os estoques de robusta Vietnamita em Hochiminh e na Europa vão fazer pressão baixista na estrutura da Bolsa e que ela volte a cash and carry, o que ajudaria a abertura dos diferenciais. A indústria também espera a entrada da próxima safra robusta na Indonésia em maio, que parece ser maior do que a anterior. Mesmo com uma safra maior na Indonésia, o mercado vai vir atrás dos estoques de robusta do Vietnã nas mãos do setor comercial e do produtor, simplesmente devido ao fato de que não há fonte alternativa de robustas em quantidade no mercado para embarque.

Estoques de robusta existem na Europa mas vêm caindo desde outubro. Eles devem começar a subir de novo em março devido aos grandes embarques do Vietnã antes do festival “Tet”, mas é improvável que até o fim do coffee year em setembro, eles voltem a atingir seu nível anterior. Durante a safra menor em 2005/06, os estoques no interior do Vietnã também caíram drasticamente. Esse ano pode ser que os estoques internos se recuperem, o que vai afetar o nível de exportações totais do ano no Vietnã. O mercado pode até parecer que está bem abastecido de robustas no momento, mas levando o ano 2006/07 como um todo a situação continua precária.

 
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