Home
Porto do Rio Consolida Retomada das Exportações de Café
Multiterminais Amplia Estrutura Operacional
Março 2007 - Ano 86 - Nº 821

13
 

Com certeza a maioria dos médicos, cardiologistas ou não, dizem aos pacientes que os procuram com um histórico de algum problema cardiovascular, especialmente com doença aterosclerótica coronária e principalmente, após um infarto agudo do miocárdio, que devem deixar o hábito de tomar café, pois faz mal para o coração já doente. Pode levar à taquicardia, pode piorar a angina, enfim pode provocar mais infarto. São mesmo verdadeiras essas afirmações? O que há de fato estudado? Há completa certeza dessas informações? Ou há ainda dúvidas a respeito?

Bem, não há dúvida de que a cafeína pode elevar a freqüência cardíaca e esta resposta é dose dependente. O aumento da freqüência cardíaca não é desejável para quem tem doença coronária, mas será que em vigência do uso de medicamento tipo beta-bloqueador isto é um problema? A freqüência cardíaca aumentará ou ficará igual? Pelo menos, quando alguém tem o diagnóstico de doença coronária, a base do seu tratamento inclui um beta-bloqueador, salvo raras exceções. Esta é uma das respostas que precisa ser respondida. E, a longo prazo, a ingestão de café, e não só da cafeína, pode trazer prejuízos? Não há evidências de que seja prejudicial.

Com certeza isto depende do tipo de café, particularmente de sua torra e a composição química final da bebida. E qual o melhor e o pior, ou seja, filtrado ou coado? Sem filtrar? Espresso? Solúvel? Descafeinado, ou com menos cafeína? Há muitas variáveis em relação ao hábito de tomar café e talvez se possa entender o porquê das controvérsias a respeito desta bebida consumida em quase todos os lugares da Terra, independentemente de raça, sexo e religião.
Somente um estudo com portadores de doença coronária foi feito na década de 80 1. Neste estudo, indivíduos com doença coronária submeteram-se ao teste de esforço depois de uma ou duas xícaras de café normal e depois também de café descafeinado.

Os dados dos 17 pacientes estudados demonstraram que o café normal aumentou a capacidade física desses indivíduos, medida pelo tempo total de exercício na esteira, e nenhuma diferença houve em relação aos parâmetros avaliados do teste de esforço comparado com os valores após tomar o café descafeinado. Aliás, muito recentemente, este aumento da capacidade de exercício foi comprovado em indivíduos normais e é, sem dúvida, o motivo pelo qual as chamadas bebidas energéticas atuam, ou seja, porque contém cafeína. Depois, os estudos epidemiológicos realizados com informações das populações da Suécia, Finlândia e Estados Unidos mostraram alguns resultados conflitantes. Na Suécia, onde o café é preparado por muitos com o pó de café colocado dentro de água fervendo, ficando lá por alguns minutos e depois deixado para que se deposite o pó sem que se filtre, há estudo demonstrando aumento da incidência de infarto agudo do miocárdio (com uma razão de chance de 1,41) nos que tomam o café assim, quando se compara com aqueles que tomavam café filtrado 2.

No geral, isto levou a que os homens tomadores de café, e não as mulheres, tivessem uma razão de chance de 1,34 de virem a ter infarto do miocárdio, em relação aos não bebedores de café. De modo tão interessante quanto outro estudo epidemiológico realizado em país nórdico na Finlândia, com questionários de populações ao longo da década de 70 e com o último questionário feito em 1982, que não demonstrou malefícios do café 3. Pelo contrário, beber café se associou com menos chances de morrer de doença cardiovascular e também de morrer por qualquer outra causa, e isto tanto no homem quanto na mulher, em relação aos que não bebiam café. Isto, na verdade, era o que já havia sido verificado, entre outros, no estudo de Kawashi et cols 4., em 1994. Muito mais recentemente, em estudo epidemiológico de observação de grande população na Holanda 5 e outro nos Estados Unidos da América, observou-se que os bebedores de café têm 50% a menos de chance de desenvolver diabetes ao longo da vida, do que os que não tomam café 6.

Este último estudo é fruto de pesquisa da Universidade de Harvard em Boston, Massachusetts, com acompanhamento de mais de 41.000 homens, de 1986 a 1998, e mais de 84.000 mulheres, de 1980 a 1998. Bem, o conjunto de informações epidemiológicas sem dúvida merece reflexão e é motivo para que estudos prospectivos sejam feitos. Do ponto de vista de mecanismo de ação, já há estudos mostrando o aumento da sensibilidade à insulina em consumidores de café, seja por efeito da cafeína seja por efeitos dos outros componentes do café 7. Fica assim evidenciado, que este é um campo muito vasto para pesquisas, pois o diabetes melito é um dos fatores de risco maior para doença cardiovascular, portanto para infarto do miocárdio e acidente cérebro-encefálico. Isto independe do fato de que há aumento na lipoproteína LDL-colesterol e na homocisteína plasmática 8, especialmente com algumas maneiras de se fazer o café, pois mesmo com essas demonstrações, tem havido várias que apontam mais para o fator protetor cardiovascular do que para um fator deletério dentre os efeitos do uso do café ao longo da vida das pessoas.

É verdade que pelos estudos epidemiológicos sobre incidência de infarto há dúvidas a serem respondidas. Os estudos que encontraram uma associação entre tomar café e maior incidência de infarto do miocárdio foram feitos em países onde o hábito principal é o de tomar café sem filtrá-lo, o mesmo valendo para a maior colesterolemia observada nestas populações também. Além disso, mesmo com análises multivariadas, é difícil retirar o efeito do hábito de fumar do de tomar café. Considerando todas essas informações, não há nenhuma evidência que impeça o portador de doença coronária de tomar café. Basta não exceder na quantidade, por conta da cafeína. Talvez, e mais importante, é alertar para o fato de que não só o café tem cafeína, mas principalmente os refrigerantes tipo Cola bem como o chocolate e o chá, o que significa a importância de somar todos os alimentos que a contêm para se saber se está ou não a ingerindo em muita quantidade.

Mesmo porque, além da cafeína, o café é rico em compostos que, como em outros alimentos como o próprio chá, a cebola, frutas, o vinho e o chocolate são protetores e benéficos para o nosso sistema cardiovascular. O Projeto Café e Coração sendo iniciado no Instituto do Coração – INCOR – em São Paulo vai esclarecer definitivamente estas dúvidas, pois parece que, na realidade, o café deve ser recomendado para consumo por pessoas sadias e doentes do coração, pois o café protege contra a diabetes, alcoolismo, tabagismo e a depressão, que são fatores de risco que predispõem ao aparecimento de doenças do coração. O café parece ser de fato a bebida do coração de todos os brasileiros.

REFERÊNCIAS

1. Piters KM, Colombo A, Olson G, Butman SM. Effect of coffee on exercise-induced angina pectoris due to coronary artery disease in habitual coffee drinkers. Am J Cardiol 1985;55:277-80.
2. Hammar N, Andersson T, Alfredsson L, Reuterwall C, Nilsson T, Hallqvist J, Knutsson A, Ahlbom A; SHEEP and the VHEEP study. Association of boiled and filtered coffee with incidence of first nonfatal myocardial infarction: the SHEEP and the VHEEP study. J Intern Med 2003;253:653-659.
3. Kleemola P; Jousilahti P, Pietinen P; Vartiainen E; Tuomilehto J. Coffee consumption and the risk of coronary Heart disease and death. Arch Int Med 2000;160:3393-3400.
4. Kawachi I, Colditz GA and Stone CB. Does coffee drinking increase the risk of coronary heart disease? Results from a meta-analysis. British Heart Journal 1994;72:269-275.
5. Van Dam RM and Feskens EJM. Coffee consumption and risk of type 2 diabetes mellitus. Lancet, 2002;360:1477-78.
6. Salazar-Martinez E, Willett WC, Ascherio A, Manson JE, Leitzmann MF, Stampfer MJ, Hu FB Coffee consumption and risk for type 2 diabetes mellitus. Ann Intern Med. 2004;140:1-8.
7. Agardh EE, Carlsson S, Ahlbom A, Efendic S, Grill V, Hammar N, Hilding A, Ostenson CG. Coffee consumption, type 2 diabetes and impaired glucose tolerance in Swedish men and women. J Intern Med. 2004 Jun;255(6):645-52.
8. Verhoef P, Pasman WJ, Van Vliet T, Urgert R, Katan MB. Contribution of caffeine to the homocysteine-rasing effect of coffee: a randomized controlled trial in humans. Am J Clin Nutr 2002;76:1244-1248.

 
Rua da Quitanda, 191 - 8º andar - Centro - Rio de Janeiro - Brasil - Tel: (21) 2516-3399 / Fax: (21) 2253-4873 - email: riocafe@cccrj.com.br
Todos os direitos reservados - copyright 2006 - Centro de Comércio do Café do Rio de Janeiro - Desenvolvido por Ivan F. Cesar