Com
certeza a maioria dos médicos, cardiologistas
ou não, dizem aos pacientes que os procuram
com um histórico de algum problema cardiovascular,
especialmente com doença aterosclerótica
coronária e principalmente, após um
infarto agudo do miocárdio, que devem deixar
o hábito de tomar café, pois faz mal
para o coração já doente. Pode
levar à taquicardia, pode piorar a angina,
enfim pode provocar mais infarto. São mesmo
verdadeiras essas afirmações? O que
há de fato estudado? Há completa certeza
dessas informações? Ou há ainda
dúvidas a respeito?
Bem, não há dúvida de que a cafeína
pode elevar a freqüência cardíaca
e esta resposta é dose dependente. O aumento
da freqüência cardíaca não
é desejável para quem tem doença
coronária, mas será que em vigência
do uso de medicamento tipo beta-bloqueador isto é
um problema? A freqüência cardíaca
aumentará ou ficará igual? Pelo menos,
quando alguém tem o diagnóstico de doença
coronária, a base do seu tratamento inclui
um beta-bloqueador, salvo raras exceções.
Esta é uma das respostas que precisa ser respondida.
E, a longo prazo, a ingestão de café,
e não só da cafeína, pode trazer
prejuízos? Não há evidências
de que seja prejudicial.
Com certeza isto depende do tipo de café, particularmente
de sua torra e a composição química
final da bebida. E qual o melhor e o pior, ou seja,
filtrado ou coado? Sem filtrar? Espresso? Solúvel?
Descafeinado, ou com menos cafeína? Há
muitas variáveis em relação ao
hábito de tomar café e talvez se possa
entender o porquê das controvérsias a
respeito desta bebida consumida em quase todos os
lugares da Terra, independentemente de raça,
sexo e religião.
Somente um estudo com portadores de doença
coronária foi feito na década de 80
1. Neste estudo, indivíduos com doença
coronária submeteram-se ao teste de esforço
depois de uma ou duas xícaras de café
normal e depois também de café descafeinado.
Os dados dos 17 pacientes estudados demonstraram que
o café normal aumentou a capacidade física
desses indivíduos, medida pelo tempo total
de exercício na esteira, e nenhuma diferença
houve em relação aos parâmetros
avaliados do teste de esforço comparado com
os valores após tomar o café descafeinado.
Aliás, muito recentemente, este aumento da
capacidade de exercício foi comprovado em indivíduos
normais e é, sem dúvida, o motivo pelo
qual as chamadas bebidas energéticas atuam,
ou seja, porque contém cafeína. Depois,
os estudos epidemiológicos realizados com informações
das populações da Suécia, Finlândia
e Estados Unidos mostraram alguns resultados conflitantes.
Na Suécia, onde o café é preparado
por muitos com o pó de café colocado
dentro de água fervendo, ficando lá
por alguns minutos e depois deixado para que se deposite
o pó sem que se filtre, há estudo demonstrando
aumento da incidência de infarto agudo do miocárdio
(com uma razão de chance de 1,41) nos que tomam
o café assim, quando se compara com aqueles
que tomavam café filtrado 2.
No geral, isto levou a que os homens tomadores de
café, e não as mulheres, tivessem uma
razão de chance de 1,34 de virem a ter infarto
do miocárdio, em relação aos
não bebedores de café. De modo tão
interessante quanto outro estudo epidemiológico
realizado em país nórdico na Finlândia,
com questionários de populações
ao longo da década de 70 e com o último
questionário feito em 1982, que não
demonstrou malefícios do café 3. Pelo
contrário, beber café se associou com
menos chances de morrer de doença cardiovascular
e também de morrer por qualquer outra causa,
e isto tanto no homem quanto na mulher, em relação
aos que não bebiam café. Isto, na verdade,
era o que já havia sido verificado, entre outros,
no estudo de Kawashi et cols 4., em 1994. Muito mais
recentemente, em estudo epidemiológico de observação
de grande população na Holanda 5 e outro
nos Estados Unidos da América, observou-se
que os bebedores de café têm 50% a menos
de chance de desenvolver diabetes ao longo da vida,
do que os que não tomam café 6.
Este último estudo é fruto de pesquisa
da Universidade de Harvard em Boston, Massachusetts,
com acompanhamento de mais de 41.000 homens, de 1986
a 1998, e mais de 84.000 mulheres, de 1980 a 1998.
Bem, o conjunto de informações epidemiológicas
sem dúvida merece reflexão e é
motivo para que estudos prospectivos sejam feitos.
Do ponto de vista de mecanismo de ação,
já há estudos mostrando o aumento da
sensibilidade à insulina em consumidores de
café, seja por efeito da cafeína seja
por efeitos dos outros componentes do café
7. Fica assim evidenciado, que este é um campo
muito vasto para pesquisas, pois o diabetes melito
é um dos fatores de risco maior para doença
cardiovascular, portanto para infarto do miocárdio
e acidente cérebro-encefálico. Isto
independe do fato de que há aumento na lipoproteína
LDL-colesterol e na homocisteína plasmática
8, especialmente com algumas maneiras de se fazer
o café, pois mesmo com essas demonstrações,
tem havido várias que apontam mais para o fator
protetor cardiovascular do que para um fator deletério
dentre os efeitos do uso do café ao longo da
vida das pessoas.
É verdade que pelos estudos epidemiológicos
sobre incidência de infarto há dúvidas
a serem respondidas. Os estudos que encontraram uma
associação entre tomar café e
maior incidência de infarto do miocárdio
foram feitos em países onde o hábito
principal é o de tomar café sem filtrá-lo,
o mesmo valendo para a maior colesterolemia observada
nestas populações também. Além
disso, mesmo com análises multivariadas, é
difícil retirar o efeito do hábito de
fumar do de tomar café. Considerando todas
essas informações, não há
nenhuma evidência que impeça o portador
de doença coronária de tomar café.
Basta não exceder na quantidade, por conta
da cafeína. Talvez, e mais importante, é
alertar para o fato de que não só o
café tem cafeína, mas principalmente
os refrigerantes tipo Cola bem como o chocolate e
o chá, o que significa a importância
de somar todos os alimentos que a contêm para
se saber se está ou não a ingerindo
em muita quantidade.
Mesmo porque, além da cafeína, o café
é rico em compostos que, como em outros alimentos
como o próprio chá, a cebola, frutas,
o vinho e o chocolate são protetores e benéficos
para o nosso sistema cardiovascular. O Projeto Café
e Coração sendo iniciado no Instituto
do Coração – INCOR – em
São Paulo vai esclarecer definitivamente estas
dúvidas, pois parece que, na realidade, o café
deve ser recomendado para consumo por pessoas sadias
e doentes do coração, pois o café
protege contra a diabetes, alcoolismo, tabagismo e
a depressão, que são fatores de risco
que predispõem ao aparecimento de doenças
do coração. O café parece ser
de fato a bebida do coração de todos
os brasileiros.
| REFERÊNCIAS
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of coffee on exercise-induced angina pectoris
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and the VHEEP study. J Intern Med 2003;253:653-659.
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and risk of type 2 diabetes mellitus. Lancet,
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8. Verhoef P, Pasman WJ, Van Vliet T, Urgert
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controlled trial in humans. Am J Clin Nutr 2002;76:1244-1248.
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