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Março 2007 - Ano 86 - Nº 821

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Hoje, o que mais preocupa os cafeicultores são as incertezas do tempo que estarão a afetar a produção a curto prazo.  Os grandes especialistas em clima atestam que estão sem elementos para prever a relação clima x produção, porque instalou-se um estado de descontrole sem precedentes nos arquivos climáticos, desde os primórdios da terra.

Então, o que me parece mais oportuno, de imediato, é traçar alguns cenários climáticos de curto prazo e os decorrentes efeitos sobre a safra atual e vindoura.

Já é de conhecimento geral a quebra da safra de café para a colheita de 2007. Apesar do abatimento geral, produtores e outros agentes do agronegócio café procuram projetar os danos decorrentes e têm questionado os efeitos da seca sobre a florada do cafeeiro. Relatos e observações de campo têm demonstrado que a florada de 2006 foi muito pequena ou mesmo irrisória e desregulada. A maioria dos botões florais , quando existentes, não abriu. Em decorrência, as perguntas que se fazem são as seguintes: O que ocorreu do ponto de vista climático e fisiológico? Qual o efeito dessa florada tardia? Haverá novas floradas? A seca e as altas temperaturas prejudicarão as safras 2007 e 2008? Qual o tamanho da quebra da safra de 2006/07?

O cafeeiro, assim como toda cultura, tem seu crescimento reprodutivo fortemente influenciado pelo clima. Isto porque a arquitetura da planta está montada sobre uma copa que apresenta um dimorfismo relacionado com a duração e intensidade dos principais fatores ambientais, a temperatura e a água. A razão desta influência se deve ao fato de que nos ramos produtivos do cafeeiro existem gemas que, dependendo da condições climáticas a que a lavoura está submetida, podem se diferenciar em ramos ou botões florais.

A intensidade das diferenciações para ramos tem se destacado como uma importante característica, visto que se correlaciona positivamente com o potencial produtivo das plantas. Por outro lado, para que se obtenha o produto final desta atividade agrícola, é necessário que estas gemas se diferenciem também, e principalmente, em botões florais para que se tenha ao final de seu desenvolvimento, os frutos, razão primordial do agronegócio café. Por esse breve comentário, conclui-se que, dependendo do clima, o cafeeiro pode vegetar ou frutificar e, é do balanço entre desses dois fenômenos fisiológicos que depende o sucesso da cafeicultura. Para entender o fenômeno é necessário conhecer, ainda que superficialmente, alguns importantes aspectos da floração do cafeeiro.

Floração do cafeeiro

O começo da etapa reprodutiva inicia-se com a floração e termina com a colheita, cuja magnitude depende da primeira. O processo de floração compreende várias etapas como a indução, iniciação, diferenciação, crescimento e desenvolvimento, dormência e abertura do botão floral. Cada uma dessas fases é afetada por fatores endógenos que determinam diferentes padrões de crescimento e desenvolvimento dos órgãos florais, de acordo as condições ambientais predominantes.

Em seguida à indução e à diferenciação floral, os primórdios florais crescem e se desenvolvem continuamente por um período de dois meses, até atingirem um tamanho máximo de 4 a 6 mm, e entram em dormência, pela associação a um período de déficit hídrico e baixa temperatura.
Em setembro, ao final desse período de repouso, quando normalmente ocorrem as primeiras chuvas, os tecidos recuperam sua condição túrgida, as gemas intumescem e os botões florais crescem durante 8 a 16 dias, chegando a atingir, aproximadamente, 12 mm no momento da florada. A abertura das flores acontece oito a doze dias após as chuvas de florada e, posteriormente, verifica-se a queda das pétalas (fase pós-florada).

Normalmente uma florada principal ocorre quando se verifica um período de restrição hídrica, seguido de chuva ou irrigação abundante. Não havendo seca definida, os botões crescem continuamente, resultando em floradas sucessivas, já que a iniciação dos primórdios florais se dá por períodos mais ou menos extensos. Floradas sucessivas resultam em várias colheitas, o que num sistema de cultura extensiva representa uma séria desvantagem. Temperatura ambiente elevada associada a um intenso déficit hídrico, durante o início da florada, leva ao abortamento das flores, resultando nas conhecidas “estrelinhas”. A partir do entendimento de que floração não se restringe somente à florada em si, passaremos a discutir a influência do clima no processo de floração do cafeeiro.

Como o clima influenciou a floração do cafeeiro em 2006

Para responder as perguntas introdutórias é preciso analisar alguns aspectos conhecidos da floração do cafeeiro. Em primeiro lugar, deve-se considerar a fase de indução ou iniciação floral que deve ter ocorrido nos primeiros meses do ano, entre janeiro a março de 2006. Nessa época, na maioria das regiões não houve déficit hídrico severo, os dias foram quentes e as noites frescas. Estas condições, sem dúvida alguma, estimularam a indução floral. Isto é, muitas gemas se diferenciaram no sentido de formar flores e frutos, caso as condições climáticas posteriores não se tornassem desfavoráveis. Exceção a essa regra se observa na Zona da Mata de Minas Gerais, onde ocorreram altas temperaturas inibindo a indução floral. Portanto, as situações climáticas foram distintas entre as regiões da Mata e do Sul de Minas.

A análise dos dados climáticos de Varginha, Sul de Minas, região muito afetada pelos destemperos do clima deste ano, nos mostrou que, de abril até setembro, fase em que as gemas do cafeeiro entram em dormência, ocorreu um déficit hídrico atípico e excessivo de 298 mm (Fundação Procafé), acompanhado de baixas temperaturas noturnas, por volta de 120C, com uma média também abaixo da média histórica. No início de setembro ocorreram pancadas de chuvas, amenizando o déficit hídrico para 250 mm, que estimularam pequenas floradas, seguidas de veranico, com dias muito quentes. Até outubro, o déficit permaneceu em 251,8 mm. Em novembro, o índice pluviométrico foi de 267,0 mm, muito acima da média histórica para o mês que é de 172,8 mm. O déficit hídrico caiu no final do mês e foi de 88,7 mm, atípico para o período. Apesar da queda do déficit hídrico, o solo, desde maio, apresentara zero de água armazenada. É importante lembrar que, desde 1998, o maior déficit registrado foi no ano de 2001, com 190 mm.

De maneira geral, as melhores condições para o cultivo do café são: temperatura média anual de 19 a 21C e precipitação de 1400 a 1500 mm anuais, bem distribuída no período de primavera, verão e outono. No inverno, o ideal é que ele sofra pequeno déficit hídrico principalmente nos meses de agosto/setembro e com temperaturas não muito baixas, na faixa de 160C. O que se nota, entretanto, é que neste ano a cafeicultura sofreu um déficit hídrico severo, superando em muito os 150 mm, pressuposto para que não haja perda de safra. Segundo dados do MAPA/PROCAFE, a precipitação total até final de agosto foi de 704,1 mm, muito abaixo do acumulado normal para o período que é de 843,3 mm.

Os dados mostram que no mês de setembro, época em que deveria ter começado a estação de crescimento, a deficiência hídrica estava acentuada, a temperatura noturna muito baixa e o solo com zero de água armazenada. Nos meses de setembro e outubro, ficamos 20 dias sem chuva. Portanto, vê-se que somente no mês de novembro é que as chuvas voltaram (mesmo assim insuficientes), o que permitiu uma retomada no crescimento vegetativo, mais acentuada. Como, até hoje, o cafeeiro não apresentou um crescimento compensatório para esses dois meses de atraso, a safra de 2008 deverá ser prejudicada, haja vista que o cafeeiro produzirá na porção do ramo que está acabando de crescer nesta estação. Esses dois meses de atraso significam que cada ramo produtivo terá, no mínimo, quatro nós produtivos a menos.

Assim, os conhecimentos atuais levam a crer que a produção desse ano de 2006/07 está seriamente comprometida, bem como a da safra 2007/2008. Desse modo, é de se supor que o cafeeiro necessite de dois anos para se recuperar, o que no caso caracteriza uma trienalidade.
Quanto à frustração da florada, há de se lembrar que a floração passa por quatro estádios: indução/iniciação floral, diferenciação e desenvolvimento das peças florais do botão, dormência do botão floral e abertura da flor, florada ou antese. Os parcos conhecimentos sobre a floração dos cafeeiros sugerem que a indução da gema floral, aqui no Brasil, ao contrário do que se pensa que dá em janeiro, somente ocorre entre a segunda quinzena de fevereiro e a primeira de março. Vamos a um estudo de caso:

Estudo de caso

Em janeiro de 2006, o Sul de Minas Gerais ficou quinze dias sem chuva. Nessa época, os tecidos que compõem as gemas não diferenciadas não estavam aptos ou maduros para perceberem o estímulo da floração. Portanto, foram incapazes de serem induzidos. Apesar da falta de chuva, o solo ainda estava com umidade suficientemente alta (157mm) para que a planta não entrasse em déficit hídrico. Tanto é verdade que, nesse mês, os ramos estavam em franco crescimento. Além disso, a temperatura média estava dentro da média histórica e com uma boa amplitude. Essas constatações me levaram a concluir que não houve indução floral nessa época.

Em fevereiro e março, o solo ainda continuava com água e sem déficit hídrico. A temperatura estava boa e, os tecidos, agora sensibilizados a “perceberem” o sinal, foram induzidos à floração. O problema foi o que aconteceu a partir daí. O tecido induzido, não conseguiu se diferenciar ou mesmo desenvolver as peças florais (microscópicas) devido ao intenso déficit hídrico que se abateu sobre as plantas. Cronologicamente, a partir daí ficou assim resumido: Abril/Agosto: Déficit hídrico progressivo (zero em abril caiu para 246 mm em agosto), acentuado e atípico (café  suporta 150 mm). Disponibilidade de água no solo: ZERO (maio/outubro). Quedas acentuadas da temperatura noturna levando a amplitude térmica alta (15 a 20° C), com dias bem quentes e noites muito frias. Isso é um importante fator de inibição do desenvolvimento das peças vegetativas nos botões florais, ainda imperceptíveis a olho nú. Uma amplitude térmica desejável seria por volta de 11° C ou seja, noites com temperaturas de 18° C e dias com temperaturas de 29° C.

CONCLUSÃO: Essas condições impediram o desenvolvimento das peças florais, mesmo havendo a indução e diferenciação floral. Resumindo, houve indução, mas não houve diferenciação e desenvolvimento das peças florais. É importante que se diga que um botão já diferenciado somente se transformará em flor caso as condições climáticas entre esses dois períodos forem satisfatórias.

O Dr. Antonio Wander, pesquisador do MAPA/Procafé, em Varginha, comparou, objetivamente, as ocorrências da cafeicultura nos anos de 2002/03 com o ano atual, pela similaridade dos problemas climáticos. Segundo ele, o cafeeiro suporta déficits hídricos de até 150,0 mm sem maiores prejuízos ao desenvolvimento vegetativo das plantas, e sem conseqüências significativas para a safra projetada para o ano seguinte. Todavia, o efeito do déficit hídrico é bastante pronunciado em lavouras com produções elevadas. Por exemplo, a alta safra de 2002, associada ao severo déficit hídrico de 252 mm, reduziu significativamente a safra mineira em 2003 (Tabelas 1 e 2). Considerando este comportamento, a alta safra de 2006, associada ao elevado déficit de 291 mm, projeta uma expectativa de grande redução na safra de café de 2007 para Minas Gerais.

O Prof. Luiz Cláudio Costa – UFV, empresta sua colaboração em rápida análise das variações climáticas ocorridas em Viçosa e Lavras, onde se verifica que as amplitudes térmicas de 2003 e 2002 foram bem semelhantes (variando de 4 a 10° C) enquanto que em 2002 e 2005 elas foram bem maiores, alcançando valores entre 8 e 16° C. No que se refere à deficiência hídrica, em 2002 foi verificado um déficit de março a outubro de cerca de 50 mm (praticamente constante durante todo o período). Em 2003, o déficit foi maior no tempo, ou seja, estendeu-se de fevereiro a novembro, com valores em torno de 50 mm. Em 2005, o déficit foi bem menor (10 mm), se entendendo de abril a novembro. Já em 2006, o déficit alcançou 60 mm, de abril a setembro, com acentuado agravamento em julho/agosto/setembro.

Com base nessas observações, lembramos que, em 2002, houve uma elevada safra, fruto das condições favoráveis do ano anterior, e déficit hídrico pronunciado de 252 mm. A conjunção desses dois fatores reduziu significativamente a safra de 2003. Desse modo, percebe-se claramente que o fenômeno atual é o mesmo, ou seja, elevada produção em 2006 com um FORTÍSSIMO déficit hídrico. Isso, a exemplo de 2002/2003, vai refletir em uma redução da safra de 2006/2007.

Como o fenômeno foi o mesmo, porém com maior intensidade, a produção no Sul de MG na colheita de 2007 deve cair de 60 a 65% em relação à safra de 2006. Considerando os fortes danos ocorridos nas demais regiões de Minas Gerais e em outros estados brasileiros associados à queda natural da produção, é de se esperar que a safra brasileira neste ano de 2007 tenha uma quebra de mais de 50% em relação à colheita de 2006, ou seja, a menor da história recente.

É oportuno destacar que o inverso também é verdadeiro. Em 2002, apesar do déficit hídrico, a safra foi elevada como reflexo de uma safra baixa de 2001 sem problemas hídricos no ano. De maneira semelhante, a safra de 2006 foi igualmente elevada uma vez que não foram observados problemas de água no ano anterior. Neste momento é importante destacar que, a partir de novembro de 2006 , o clima para a cafeicultura melhorou bastante.

Contudo, no mês de fevereiro, o índice pluviométrico foi de 69,6 mm, muito abaixo da média histórica para o mês, que é de 186,5 mm. Ao final do mês, o armazenamento de água no solo foi de 43,0mm com um período de 13 dias sem precipitações significativas influenciando negativamente o crescimento vegetativo e, principalmente, a granação do café, com reflexos negativos no rendimento da safra pendente.

Pelo que foi exposto e em vista destes últimos dados climáticos, notadamente de fevereiro, percebe-se que estão criadas as condições ideais para a indução e iniciação floral ou seja, chuva em dezembro, seguido de um ligeiro déficit hídrico na segunda quinzena de fevereiro, com o retorno das chuvas agora, nesta primeira quinzena de março. Tudo isso associado a uma amplitude térmica favorável. Estas condições estão pré-definindo a florada das lavouras no segundo semestre deste ano de 2007. No decorrer do inverno deste ano teremos oportunidade de observar a intensidade do déficit hídrico e as variações de temperatura e seus subseqüentes efeitos no desenvolvimento da planta e na definição final da qualidade da safra e da florada e como esse quadro de fatores influenciará a colheita de 2008. A prevalecer essas últimas condições, teremos uma boa safra em 2008.

 
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