Hoje,
o que mais preocupa os cafeicultores são as
incertezas do tempo que estarão a afetar a
produção a curto prazo. Os grandes
especialistas em clima atestam que estão sem
elementos para prever a relação clima
x produção, porque instalou-se um estado
de descontrole sem precedentes nos arquivos climáticos,
desde os primórdios da terra.
Então, o que me parece mais oportuno, de imediato,
é traçar alguns cenários climáticos
de curto prazo e os decorrentes efeitos sobre
a safra atual e vindoura.
Já é de conhecimento geral a quebra
da safra de café para a colheita de 2007. Apesar
do abatimento geral, produtores e outros agentes do
agronegócio café procuram projetar os
danos decorrentes e têm questionado os efeitos
da seca sobre a florada do cafeeiro. Relatos e observações
de campo têm demonstrado que a florada de 2006
foi muito pequena ou mesmo irrisória e desregulada.
A maioria dos botões florais , quando existentes,
não abriu. Em decorrência, as perguntas
que se fazem são as seguintes: O que ocorreu
do ponto de vista climático e fisiológico?
Qual o efeito dessa florada tardia? Haverá
novas floradas? A seca e as altas temperaturas prejudicarão
as safras 2007 e 2008? Qual o tamanho da quebra da
safra de 2006/07?
O cafeeiro, assim como toda cultura, tem seu crescimento
reprodutivo fortemente influenciado pelo clima. Isto
porque a arquitetura da planta está montada
sobre uma copa que apresenta um dimorfismo relacionado
com a duração e intensidade dos principais
fatores ambientais, a temperatura e a água.
A razão desta influência se deve ao fato
de que nos ramos produtivos do cafeeiro existem gemas
que, dependendo da condições climáticas
a que a lavoura está submetida, podem se diferenciar
em ramos ou botões florais.
A intensidade das diferenciações para
ramos tem se destacado como uma importante característica,
visto que se correlaciona positivamente com o potencial
produtivo das plantas. Por outro lado, para que se
obtenha o produto final desta atividade agrícola,
é necessário que estas gemas se diferenciem
também, e principalmente, em botões
florais para que se tenha ao final de seu desenvolvimento,
os frutos, razão primordial do agronegócio
café. Por esse breve comentário, conclui-se
que, dependendo do clima, o cafeeiro pode vegetar
ou frutificar e, é do balanço entre
desses dois fenômenos fisiológicos que
depende o sucesso da cafeicultura. Para entender o
fenômeno é necessário conhecer,
ainda que superficialmente, alguns importantes aspectos
da floração do cafeeiro.
Floração
do cafeeiro
O começo da etapa reprodutiva inicia-se com
a floração e termina com a colheita,
cuja magnitude depende da primeira. O processo de
floração compreende várias etapas
como a indução, iniciação,
diferenciação, crescimento e desenvolvimento,
dormência e abertura do botão floral.
Cada uma dessas fases é afetada por fatores
endógenos que determinam diferentes padrões
de crescimento e desenvolvimento dos órgãos
florais, de acordo as condições ambientais
predominantes.
Em seguida à indução e à
diferenciação floral, os primórdios
florais crescem e se desenvolvem continuamente por
um período de dois meses, até atingirem
um tamanho máximo de 4 a 6 mm, e entram em
dormência, pela associação a um
período de déficit hídrico e
baixa temperatura.
Em setembro, ao final desse período de repouso,
quando normalmente ocorrem as primeiras chuvas, os
tecidos recuperam sua condição túrgida,
as gemas intumescem e os botões florais crescem
durante 8 a 16 dias, chegando a atingir, aproximadamente,
12 mm no momento da florada. A abertura das flores
acontece oito a doze dias após as chuvas de
florada e, posteriormente, verifica-se a queda das
pétalas (fase pós-florada).
Normalmente uma florada principal ocorre quando se
verifica um período de restrição
hídrica, seguido de chuva ou irrigação
abundante. Não havendo seca definida, os botões
crescem continuamente, resultando em floradas sucessivas,
já que a iniciação dos primórdios
florais se dá por períodos mais ou menos
extensos. Floradas sucessivas resultam em várias
colheitas, o que num sistema de cultura extensiva
representa uma séria desvantagem. Temperatura
ambiente elevada associada a um intenso déficit
hídrico, durante o início da florada,
leva ao abortamento das flores, resultando nas conhecidas
“estrelinhas”. A partir do entendimento
de que floração não se restringe
somente à florada em si, passaremos a discutir
a influência do clima no processo de floração
do cafeeiro.
Como
o clima influenciou a floração do cafeeiro
em 2006
Para responder as perguntas introdutórias é
preciso analisar alguns aspectos conhecidos da floração
do cafeeiro. Em primeiro lugar, deve-se considerar
a fase de indução ou iniciação
floral que deve ter ocorrido nos primeiros meses do
ano, entre janeiro a março de 2006. Nessa época,
na maioria das regiões não houve déficit
hídrico severo, os dias foram quentes e as
noites frescas. Estas condições, sem
dúvida alguma, estimularam a indução
floral. Isto é, muitas gemas se diferenciaram
no sentido de formar flores e frutos, caso as condições
climáticas posteriores não se tornassem
desfavoráveis. Exceção a essa
regra se observa na Zona da Mata de Minas Gerais,
onde ocorreram altas temperaturas inibindo a indução
floral. Portanto, as situações climáticas
foram distintas entre as regiões da Mata e
do Sul de Minas.
A análise dos dados climáticos de Varginha,
Sul de Minas, região muito afetada pelos destemperos
do clima deste ano, nos mostrou que, de abril até
setembro, fase em que as gemas do cafeeiro entram
em dormência, ocorreu um déficit hídrico
atípico e excessivo de 298 mm (Fundação
Procafé), acompanhado de baixas temperaturas
noturnas, por volta de 120C, com uma média
também abaixo da média histórica.
No início de setembro ocorreram pancadas de
chuvas, amenizando o déficit hídrico
para 250 mm, que estimularam pequenas floradas, seguidas
de veranico, com dias muito quentes. Até outubro,
o déficit permaneceu em 251,8 mm. Em novembro,
o índice pluviométrico foi de 267,0
mm, muito acima da média histórica para
o mês que é de 172,8 mm. O déficit
hídrico caiu no final do mês e foi de
88,7 mm, atípico para o período. Apesar
da queda do déficit hídrico, o solo,
desde maio, apresentara zero de água armazenada.
É importante lembrar que, desde 1998, o maior
déficit registrado foi no ano de 2001, com
190 mm.
De maneira geral, as melhores condições
para o cultivo do café são: temperatura
média anual de 19 a 21C e precipitação
de 1400 a 1500 mm anuais, bem distribuída no
período de primavera, verão e outono.
No inverno, o ideal é que ele sofra pequeno
déficit hídrico principalmente nos meses
de agosto/setembro e com temperaturas não muito
baixas, na faixa de 160C. O que se nota, entretanto,
é que neste ano a cafeicultura sofreu um déficit
hídrico severo, superando em muito os 150 mm,
pressuposto para que não haja perda de safra.
Segundo dados do MAPA/PROCAFE, a precipitação
total até final de agosto foi de 704,1 mm,
muito abaixo do acumulado normal para o período
que é de 843,3 mm.
Os dados mostram que no mês de setembro, época
em que deveria ter começado a estação
de crescimento, a deficiência hídrica
estava acentuada, a temperatura noturna muito baixa
e o solo com zero de água armazenada. Nos meses
de setembro e outubro, ficamos 20 dias sem chuva.
Portanto, vê-se que somente no mês de
novembro é que as chuvas voltaram (mesmo assim
insuficientes), o que permitiu uma retomada no crescimento
vegetativo, mais acentuada. Como, até hoje,
o cafeeiro não apresentou um crescimento compensatório
para esses dois meses de atraso, a safra de 2008 deverá
ser prejudicada, haja vista que o cafeeiro produzirá
na porção do ramo que está acabando
de crescer nesta estação. Esses dois
meses de atraso significam que cada ramo produtivo
terá, no mínimo, quatro nós produtivos
a menos.
Assim, os conhecimentos atuais levam a crer que a
produção desse ano de 2006/07 está
seriamente comprometida, bem como a da safra 2007/2008.
Desse modo, é de se supor que o cafeeiro necessite
de dois anos para se recuperar, o que no caso caracteriza
uma trienalidade.
Quanto à frustração da florada,
há de se lembrar que a floração
passa por quatro estádios: indução/iniciação
floral, diferenciação e desenvolvimento
das peças florais do botão, dormência
do botão floral e abertura da flor, florada
ou antese. Os parcos conhecimentos sobre a floração
dos cafeeiros sugerem que a indução
da gema floral, aqui no Brasil, ao contrário
do que se pensa que dá em janeiro, somente
ocorre entre a segunda quinzena de fevereiro e a primeira
de março. Vamos a um estudo de caso:
Estudo
de caso
Em
janeiro de 2006, o Sul de Minas Gerais ficou quinze
dias sem chuva. Nessa época, os tecidos que
compõem as gemas não diferenciadas não
estavam aptos ou maduros para perceberem o estímulo
da floração. Portanto, foram incapazes
de serem induzidos. Apesar da falta de chuva, o solo
ainda estava com umidade suficientemente alta (157mm)
para que a planta não entrasse em déficit
hídrico. Tanto é verdade que, nesse
mês, os ramos estavam em franco crescimento.
Além disso, a temperatura média estava
dentro da média histórica e com uma
boa amplitude. Essas constatações me
levaram a concluir que não houve indução
floral nessa época.
Em fevereiro e março, o solo ainda continuava
com água e sem déficit hídrico.
A temperatura estava boa e, os tecidos, agora sensibilizados
a “perceberem” o sinal, foram induzidos
à floração. O problema foi o
que aconteceu a partir daí. O tecido induzido,
não conseguiu se diferenciar ou mesmo desenvolver
as peças florais (microscópicas) devido
ao intenso déficit hídrico que se abateu
sobre as plantas. Cronologicamente, a partir daí
ficou assim resumido: Abril/Agosto: Déficit
hídrico progressivo (zero em abril caiu para
246 mm em agosto), acentuado e atípico (café
suporta 150 mm). Disponibilidade de água no
solo: ZERO (maio/outubro). Quedas acentuadas da temperatura
noturna levando a amplitude térmica alta (15
a 20° C), com dias bem quentes e noites muito
frias. Isso é um importante fator de inibição
do desenvolvimento das peças vegetativas nos
botões florais, ainda imperceptíveis
a olho nú. Uma amplitude térmica desejável
seria por volta de 11° C ou seja, noites com temperaturas
de 18° C e dias com temperaturas de 29° C.
CONCLUSÃO:
Essas condições impediram o desenvolvimento
das peças florais, mesmo havendo a indução
e diferenciação floral. Resumindo, houve
indução, mas não houve diferenciação
e desenvolvimento das peças florais. É
importante que se diga que um botão já
diferenciado somente se transformará em flor
caso as condições climáticas
entre esses dois períodos forem satisfatórias.
O Dr. Antonio Wander, pesquisador do MAPA/Procafé,
em Varginha, comparou, objetivamente, as ocorrências
da cafeicultura nos anos de 2002/03 com o ano atual,
pela similaridade dos problemas climáticos.
Segundo ele, o cafeeiro suporta déficits hídricos
de até 150,0 mm sem maiores prejuízos
ao desenvolvimento vegetativo das plantas, e sem conseqüências
significativas para a safra projetada para o ano seguinte.
Todavia, o efeito do déficit hídrico
é bastante pronunciado em lavouras com produções
elevadas. Por exemplo, a alta safra de 2002, associada
ao severo déficit hídrico de 252 mm,
reduziu significativamente a safra mineira em 2003
(Tabelas 1 e 2). Considerando este comportamento,
a alta safra de 2006, associada ao elevado déficit
de 291 mm, projeta uma expectativa de grande redução
na safra de café de 2007 para Minas Gerais.

O Prof. Luiz Cláudio Costa – UFV, empresta
sua colaboração em rápida análise
das variações climáticas ocorridas
em Viçosa e Lavras, onde se verifica que as
amplitudes térmicas de 2003 e 2002 foram bem
semelhantes (variando de 4 a 10° C) enquanto que
em 2002 e 2005 elas foram bem maiores, alcançando
valores entre 8 e 16° C. No que se refere à
deficiência hídrica, em 2002 foi verificado
um déficit de março a outubro de cerca
de 50 mm (praticamente constante durante todo o período).
Em 2003, o déficit foi maior no tempo, ou seja,
estendeu-se de fevereiro a novembro, com valores em
torno de 50 mm. Em 2005, o déficit foi bem
menor (10 mm), se entendendo de abril a novembro.
Já em 2006, o déficit alcançou
60 mm, de abril a setembro, com acentuado
agravamento em julho/agosto/setembro.

Com base nessas observações, lembramos
que, em 2002, houve uma elevada safra, fruto das condições
favoráveis do ano anterior, e déficit
hídrico pronunciado de 252 mm. A conjunção
desses dois fatores reduziu significativamente a safra
de 2003. Desse modo, percebe-se claramente que o fenômeno
atual é o mesmo, ou seja, elevada produção
em 2006 com um FORTÍSSIMO déficit hídrico.
Isso, a exemplo de 2002/2003, vai refletir em uma
redução da safra de 2006/2007.
Como o fenômeno foi o mesmo, porém com
maior intensidade, a produção no Sul
de MG na colheita de 2007 deve cair de 60 a 65% em
relação à safra de 2006. Considerando
os fortes danos ocorridos nas demais regiões
de Minas Gerais e em outros estados brasileiros associados
à queda natural da produção,
é de se esperar que a safra brasileira neste
ano de 2007 tenha uma quebra de mais de 50% em relação
à colheita de 2006, ou seja, a menor da história
recente.
É oportuno destacar que o inverso também
é verdadeiro. Em 2002, apesar do déficit
hídrico, a safra foi elevada como reflexo de
uma safra baixa de 2001 sem problemas hídricos
no ano. De maneira semelhante, a safra de 2006 foi
igualmente elevada uma vez que não foram observados
problemas de água no ano anterior. Neste momento
é importante destacar que, a partir de novembro
de 2006 , o clima para a cafeicultura melhorou bastante.
Contudo, no mês de fevereiro, o índice
pluviométrico foi de 69,6 mm, muito abaixo
da média histórica para o mês,
que é de 186,5 mm. Ao final do mês, o
armazenamento de água no solo foi de 43,0mm
com um período de 13 dias sem precipitações
significativas influenciando negativamente o crescimento
vegetativo e, principalmente, a granação
do café, com reflexos negativos no rendimento
da safra pendente.
Pelo que foi exposto e em vista destes últimos
dados climáticos, notadamente de fevereiro,
percebe-se que estão criadas as condições
ideais para a indução e iniciação
floral ou seja, chuva em dezembro, seguido de um ligeiro
déficit hídrico na segunda quinzena
de fevereiro, com o retorno das chuvas agora, nesta
primeira quinzena de março. Tudo isso associado
a uma amplitude térmica favorável. Estas
condições estão pré-definindo
a florada das lavouras no segundo semestre deste ano
de 2007. No decorrer do inverno deste ano teremos
oportunidade de observar a intensidade do déficit
hídrico e as variações de temperatura
e seus subseqüentes efeitos no desenvolvimento
da planta e na definição final da qualidade
da safra e da florada e como esse quadro de fatores
influenciará a colheita de 2008. A prevalecer
essas últimas condições, teremos
uma boa safra em 2008.
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