Fato
inédito, os presidentes Bush e Lula vão
se encontrar duas vezes durante o mês de março,
no final desta semana em São Paulo e no dia
31, em Washington. No centro da agenda está
a assinatura de um acordo histórico de cooperação
em biocombustíveis. Brasil e EUA controlam
72% da produção mundial de etanol e
têm grande potencial na área do biodiesel.
Quais são os fatores que estão produzindo
a forte expansão da agroenergia no mundo? Qual
é o impacto dos biocombustíveis nos
mercados de energia e alimentos? Quais são
os países e as culturas agrícolas mais
eficientes nesta corrida global? Qual o nível
de proteção vigente neste novo mercado?
O que esperar da visita de Bush e como os dois maiores
produtores poderiam cooperar para iniciar um padrão
regulatório de longo prazo que amplie a produção
sustentável, o consumo e, quem sabe, o comércio
de combustíveis renováveis?
Os biocombustíveis vêm crescendo de forma
espetacular nos últimos anos, principalmente
nos Estados Unidos e na Europa. No ano passado, os
EUA superaram o Brasil como maior produtor mundial
de etanol. Estima-se que até 2012, a produção
americana deva quase triplicar (veja o mapa da agroenergia
na página) e será 50% superior à
brasileira. Além disso, em janeiro último,
o presidente Bush anunciou a meta de substituir 15%
da gasolina por combustíveis renováveis
e alternativos, o que representa a impressionante
cifra de 132 bilhões de litros (hoje a produção
mundial de etanol não passa de 50 bilhões
de litros). Já a União Européia
está mais preocupada em substituir o óleo
diesel, e se auto-impôs a meta de 5,75% de uso
de combustíveis renováveis até
2010, atingindo um consumo de 10 bilhões de
litros de biodiesel naquele ano.
A febre dos biocombustíveis vem sendo puxada
por três fatores: preocupações
ambientais, segurança energética e suporte
à renda dos produtores rurais. Preocupações
ambientais derivam basicamente da crescente busca
pela redução de emissões de gases
de efeito-estufa, que geram o aquecimento global.
Segurança energética relaciona-se com
a redução da dependência de petróleo
importado, um bem cada vez mais caro e escasso, oriundo
de países e regiões politicamente instáveis.
Subsídios agrícolas originam-se de poderosos
lobbies de agricultores, que conseguem convencer os
seus governos a introduzir programas de auto-abastecimento.
Esse último vetor faz com que as tarifas que
incidem sobre biocombustíveis sejam extremamente
elevadas, ao contrário do que ocorre no mercado
de petróleo, que é totalmente liberalizado
(veja tabela). É irônico notar que o
mundo quer reduzir a sua dependência por um
produto cujo comércio é absolutamente
livre, em favor de combustíveis renováveis,
mais limpos e socialmente includentes, porém
ainda protegidos por tarifas elevadas.
O impacto dos combustíveis de origem agrícola
no mercado global de energia ainda é irrelevante.
Juntos, eles não chegam a 1% da produção
de combustíveis fósseis, em termos de
equivalente energético. Há muito espaço
para crescer e, ao contrário do petróleo,
que está concentrado no subsolo de uns poucos
países (e daí a possibilidade de estabelecer
um cartel), o crescimento da energia renovável
só depende de renová-la mais e mais,
ou seja, de aumentar a área cultivada ou a
produtividade das culturas envolvidas, em escala global.
As duas razões acima enterram qualquer idéia
prematura de formação de uma “OPEP
do etanol”, com o Brasil funcionando como uma
espécie de Arábia Saudita.
Ocorre que, se o impacto dos biocombustíveis
no mercado global de energia é ainda reduzido,
o seu impacto nos mercados agrícolas tem sido
notável, principalmente no caso do milho e
das oleaginosas. A produção de etanol
já consome cerca de 20% do milho produzido
nos EUA e o seu crescimento fez com que os preços
do grão subissem 80% em relação
à safra anterior, causando fortes desequilíbrios
na estrutura dos mercados agropecuários, com
impactos negativos na competitividade das carnes,
dos lácteos e do açúcar à
base de milho. Além disso, as exportações
americanas de milho vão despencar (hoje os
EUA controlam quase 70% do mercado) e a área
plantada com o grão vai crescer mais de seis
milhões de hectares, avançando sobretudo
nas áreas de soja. Curiosamente, o avanço
do milho sobre a soja nos EUA beneficiará fortemente
os países do Mercosul, que dividem o controle
do mercado da oleaginosa com os americanos.
Assim, no curto prazo, quem mais ganhará com
a expansão da produção de álcool
nos EUA não serão os usineiros, mas
sim os sojicultores brasileiros! Nos EUA, a disputa
entre os chamados “quatro Fs” (Food, Feed,
Fiber e Fuel, termos que sintetizam os principais
destinos dos produtos agrícolas: alimentos,
rações, fibras e energia) está
pegando fogo e já há um amplo consenso
de que os EUA não conseguirão ir muito
longe com a expansão de etanol de milho, que
deve parar em torno dos 50 bilhões de litros
projetados para 2012. Vem daí o enorme interesse
daquele país em desenvolver etanol à
base de celulose, produzido a partir de capins, palhadas
(restos de culturas agrícolas que sobram após
a colheita), bagaços e produtos florestais.
Esta alternativa deve, porém, levar pelo menos
uma década para se tornar economicamente viável.
O interessante é que o impacto da expansão
da agroenergia nos mercados agrícolas é
muito menor em países como o Brasil, que produzem
álcool carburante a partir da cana-de-açúcar,
uma planta realmente espetacular. A cana é
bem mais efi ciente que o milho ou qualquer outra
cultura agrícola. A sua produtividade atinge
sete mil litros por hectare, mais do que o dobro do
milho. O custo de produção é
30% menor e o balanço energético é
extremamente favorável: a cana produz 8,3 unidades
de energia renovável para cada unidade de energia
fóssil utilizada para produzi- la, um valor
5,5 vezes superior ao que o milho produz. Além
disso, o Brasil não tem as limitações
de expansão de área que os EUA possuem,
já que a cana-de-açúcar pode
facilmente se expandir em áreas tradicionais
de pastagens, em rotação com a soja.
O Brasil poderia produzir os 132 bilhões de
litros de etanol, que seriam necessários para
substituir 15% da gasolina dos EUA, com cerca de 20
milhões de hectares de cana-de-açúcar,
o triplo da área atual de cana, porém
apenas 10% da nossa reserva de pastagens. Ocorre que
o Brasil ainda tem muito espaço para ampliar
a produtividade agropecuária, e o crescimento
da agroenergia pode perfeitamente se fazer de forma
sustentável, por meio de sistemas que integram
de maneira mais eficiente a agricultura (soja, milho,
algodão e cana-de-açúcar) e a
pecuária (bovinos, aves e suínos).
No caso do biodiesel, é interessante notar
que a planta mais efi ciente para produzi-lo é
a palma (ou dendê), cultivada em larga escala
em países como Malásia e Indonésia.
Ou seja, as plantas mais promissoras para produzir
biocombustíveis situam-se nas regiões
tropicais do planeta, porém, infelizmente,
o protecionismo vigente impede o real aproveitamento
das vantagens comparativas. A geopolítica da
agroenergia poderia beneficiar dezenas de países
em desenvolvimento se o foco da questão fosse
o interesse dos consumidores (e não dos produtores),
a redução de gastos com subsídios,
o equilíbrio entre as cadeias agroindustriais
envolvidas, o apoio aos países mais pobres,
os investimentos em infra-estrutura e tecnologias
de ponta e o respeito ao meio ambiente. Estou consciente
de que é muito difícil avançar
nesses vetores todos ao mesmo tempo, mas tenho certeza
que é possível fazê-lo.
A visita de Bush pode ser um primeiro passo na direção
correta. Tudo indica que o presidente americano vem
ao Brasil para assinar um memorando de entendimentos
que conterá:
1 - o desenvolvimento de projetos comuns de pesquisa
de etanol de celulose;
2 - o estabelecimento de normas internacionais para
a commodity, já que o bom funcionamento de
qualquer mercado depende de padrões universais;
3 - a decisão de desenvolver projetos que apóiem
a expansão do produto em terceiros mercados,
principalmente na América Central e no Caribe.
O Departamento de Estado, porém, foi taxativo
em afi rmar que o tema do “acesso a mercados”
não estará sobre a mesa. É claro
que qualquer forma de colaboração entre
os dois maiores atores é sempre bem-vinda,
além de inédita. A Alca (Área
de Livre Comércio das Américas) foi
enterrada porque não houve suficiente diálogo
e entendimento entre os Estados Unidos e o Brasil,
países que foram indicados como co-presidentes
do processo negociador justamente para fazer o bloco
avançar. No lugar da Alca, instalou-se uma
miríade de pequenos acordos bilaterais e sub-regionais
em todas as direções, de pequena abrangência
e repletos de assimetrias, imediatismos e confusões.
O álcool representa uma chance de ouro para
EUA e Brasil tentarem se entender e coordenarem o
crescimento harmônico deste novo paradigma dos
setores agrícola e energético. Comecemos
com estudos detalhados cobrindo as áreas de
pesquisa, produção, infra-estrutura,
potencial energético e impactos sociais e ambientais.
Em seguida, iniciemos projetos ambiciosos de pesquisa
conjunta em novas tecnologias agroindustriais e automotivas
e fixemos padrões globais para as commodities
agroenergéticas. Vamos também cooperar
na expansão da oferta e da demanda em terceiros
países. Avancemos igualmente com investimentos
conjuntos em produção e infra-estrutura
nos dois países e lutemos para estabelecer
políticas mais coerentes, voltadas para os
vetores apontados anteriormente, incluindo, desde
já, o espinhoso tema do protecionismo, mesmo
que apenas numa nota de rodapé neste primeiro
momento.
A agroenergia precisa de “regras do jogo”
claras e estáveis, que reduzam os custos de
transação e a volatilidade dos mercados
e garantam maior previsibilidade para os investimentos
necessários em pesquisa, capacidade instalada,
infra-estrutura e comércio.
Não podemos desperdiçar esta oportunidade!
Marcos Sawaya Jank
Professor da FEA-USP, é presidente do Instituto
de Estudos do Comércio e Negociações
Internacionais (Icone).
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