De
especialistas a leigos, é grande o número
de pessoas que me perguntam atualmente se o incremento
na produção da cana-de-açúcar
por conta da demanda por combustíveis alternativos
vai diminuir a área plantada com outras culturas,
especialmente a do café. A preocupação
é válida, sobretudo em um país
cujo passado colonial sempre remete cana-de-açúcar
à palavra monocultura, além de outros
atributos não dignos de orgulho, como atividade
predatória, poluente, escravista. Algo bem
diferente da moderna e sustentável atividade
canavieira.
Sinceramente, não acredito nessa possibilidade.
Em áreas de matriz produtiva diversificada,
como é o caso do Oeste da Bahia, a cana-de-açúcar
será a consolidação da variedade
produtiva que caracteriza a região e não
representará nenhuma ameaça aos níveis
de produção.
A cana de açúcar seria mais um produto
a dividir as áreas extensas e mecanizáveis
do cerrado baiano, onde já estão consolidadas
culturas como café, soja, algodão, milho,
frutas, entre outras, que abrangem pouco mais de 1,6
milhão de hectares. O café, ressalte-se,
é totalmente irrigado, 95% sob pivô central.
A irrigação dos cafezais, audaciosamente
iniciada em meados da década de 90, tornou
a cafeicultura uma realidade no Oeste baiano, superando
em escala a produção em áreas
tradicionais do estado, como a região de planalto,
na Chapada Diamantina. Nas últimas safras,
considerando-se apenas a matriz irrigada, o café
participou com 18% - igualou-se ao algodão
e superou outras culturas, como o milho (8%).
Estima-se que a entrada da cana-de-açúcar
no cerrado da Bahia irá ocupar uma área
de 300 mil hectares, prioritariamente, em regime de
sequeiro, com irrigação complementar
esporádica através de pivôs móveis,
ou rebocáveis. Portanto, não seria pela
decisão em investimentos em irrigação
que a cana e o café competiriam. Tampouco seria
por área, uma vez que há grande disponibilidade
de terras, inclusive irrigáveis, com água,
luminosidade e mão-de-obra abundantes.
É
a variedade na agricultura que coloca o Oeste da Bahia
em uma posição singular, menos suscetível
às oscilações de preço,
sazonalidade, ataques de pragas ou de doenças
inesperadas que, volta e meia, tiram o sono dos produtores.
Foi assim, quando a ferrugem da soja atingiu 100%
das lavouras baianas e o algodão garantiu o
sustento da economia da região. E, de modo
semelhante, nos três últimos anos da
cafeicultura, quando os preços no mercado internacional
não animavam sequer a colheita. O produtor
que diversificou seus investimentos não ficou
refém dessa situação.
A área plantada com café na região,
que não superava, há dez anos, dois
mil hectares, hoje está em 14 mil, extensão
que vem se mantendo nas últimas safras, com
pouca ou nenhuma evolução. Contudo,
o número de novos plantios é significativo,
mesmo que não se esperem grandes rompantes
de crescimento na área plantada, em curto prazo,
uma vez que estamos em um ano de recuperação,
após uma das fases mais difíceis da
história recente do agronegócio brasileiro.
Então, mais uma vez, se me perguntam se a cana-de-açúcar
vai tomar o lugar do café, vem-me à
mente a lição da indústria automotiva.
Foi ela que provocou todos esses questionamentos,
quando deu ao consumidor a “flexibilidade”
de optar entre dois combustíveis, e aumentou
assustadoramente a demanda pelo álcool no país.
Entre a cana e o café, acredito que o produtor
que pensa estrategicamente o seu negócio, ficará
com os dois, e mais soja, algodão, milho e
quantos mais sejam viáveis plantar.
Humberto
Santa Cruz
Cafeicultor e Presidente da Associação
dos Agricultores e Irrigantes da Bahia – AIBA
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