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Março 2007 - Ano 86 - Nº 821

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De especialistas a leigos, é grande o número de pessoas que me perguntam atualmente se o incremento na produção da cana-de-açúcar por conta da demanda por combustíveis alternativos vai diminuir a área plantada com outras culturas, especialmente a do café. A preocupação é válida, sobretudo em um país cujo passado colonial sempre remete cana-de-açúcar à palavra monocultura, além de outros atributos não dignos de orgulho, como atividade predatória, poluente, escravista. Algo bem diferente da moderna e sustentável atividade canavieira.

Sinceramente, não acredito nessa possibilidade. Em áreas de matriz produtiva diversificada, como é o caso do Oeste da Bahia, a cana-de-açúcar será a consolidação da variedade produtiva que caracteriza a região e não representará nenhuma ameaça aos níveis de produção.

A cana de açúcar seria mais um produto a dividir as áreas extensas e mecanizáveis do cerrado baiano, onde já estão consolidadas culturas como café, soja, algodão, milho, frutas, entre outras, que abrangem pouco mais de 1,6 milhão de hectares. O café, ressalte-se, é totalmente irrigado, 95% sob pivô central. A irrigação dos cafezais, audaciosamente iniciada em meados da década de 90, tornou a cafeicultura uma realidade no Oeste baiano, superando em escala a produção em áreas tradicionais do estado, como a região de planalto, na Chapada Diamantina. Nas últimas safras, considerando-se apenas a matriz irrigada, o café participou com 18% - igualou-se ao algodão e superou outras culturas, como o milho (8%).

Estima-se que a entrada da cana-de-açúcar no cerrado da Bahia irá ocupar uma área de 300 mil hectares, prioritariamente, em regime de sequeiro, com irrigação complementar esporádica através de pivôs móveis, ou rebocáveis. Portanto, não seria pela decisão em investimentos em irrigação que a cana e o café competiriam. Tampouco seria por área, uma vez que há grande disponibilidade de terras, inclusive irrigáveis, com água, luminosidade e mão-de-obra abundantes.

É a variedade na agricultura que coloca o Oeste da Bahia em uma posição singular, menos suscetível às oscilações de preço, sazonalidade, ataques de pragas ou de doenças inesperadas que, volta e meia, tiram o sono dos produtores. Foi assim, quando a ferrugem da soja atingiu 100% das lavouras baianas e o algodão garantiu o sustento da economia da região. E, de modo semelhante, nos três últimos anos da cafeicultura, quando os preços no mercado internacional não animavam sequer a colheita. O produtor que diversificou seus investimentos não ficou refém dessa situação.

A área plantada com café na região, que não superava, há dez anos, dois mil hectares, hoje está em 14 mil, extensão que vem se mantendo nas últimas safras, com pouca ou nenhuma evolução. Contudo, o número de novos plantios é significativo, mesmo que não se esperem grandes rompantes de crescimento na área plantada, em curto prazo, uma vez que estamos em um ano de recuperação, após uma das fases mais difíceis da história recente do agronegócio brasileiro.

Então, mais uma vez, se me perguntam se a cana-de-açúcar vai tomar o lugar do café, vem-me à mente a lição da indústria automotiva. Foi ela que provocou todos esses questionamentos, quando deu ao consumidor a “flexibilidade” de optar entre dois combustíveis, e aumentou assustadoramente a demanda pelo álcool no país. Entre a cana e o café, acredito que o produtor que pensa estrategicamente o seu negócio, ficará com os dois, e mais soja, algodão, milho e quantos mais sejam viáveis plantar.

Humberto Santa Cruz
Cafeicultor e Presidente da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia – AIBA

 

 
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