Desde
que os livros de Howard Schultz, criador da Starbucks,
tornaram-se best-sellers no mundo, a pergunta ecoa
por toda a parte. A cafeteria é o negócio
do futuro? Diversas fontes apontam um crescimento
de 20% no consumo de cafés especiais, contra
uma taxa de 5% para os cafés convencionais,
números que são parecidos em diversos
países. Há um boom de cafeterias nas
metrópoles e a cidade maravilhosa não
poderia ficar de fora.
A Revista do Café foi conversar com quatro
donos de cafeteria do Rio de Janeiro, que falaram
sobre suas experiências e expectativas: Marcos
Modiano, Oswaldo Aranha, Carlos Bastos e Cláudia
Rocha quatro agentes de uma importante transformação,
que vem criando mercados de alto nível para
o produtor nacional e oferecendo uma bebida de qualidade
superior aos brasileiros. É curioso notar os
pontos em comum de pessoas com vidas tão diferentes.
E todos tinham outras atividades. Modiano era operador
da Bolsa. Oswaldo Aranha trabalhou em instituições
cafeeiras e ainda produz café. Carlos abandonou
a vida estável de bancário e Claudia,
a de uma pacata dona-de-casa.
Os quatro têm planos de expansão e de
abrir franquias país afora. Seguindo, voluntariamente
ou não, o conselho de Schultz cujo livro principal,
sobre a criação de seu império,
intitula-se “Dedique-se de Coração”
, entraram no negócio não apenas por
dinheiro, mas por gostarem profundamente do que estão
fazendo. Modiano declara-se um idealista. Carlos diz
que seus clientes se tornam amigos íntimos.
Claudia realiza o sonho de uma vida. E Aranha confessa
que, se antes desaconselhava os filhos a trabalharem
no setor cafeeiro, hoje é feliz em trabalhar
com eles no negócio de cafeteria.
O
Apostador
“Il fault sauvoir quitter la table.” A
máxima vale para jogadores, alcóolatras
e operadores da Bolsa. Durante muitos anos, Marcos
Modiano foi operador no turbulento mercado futuro
de café, até que, um dia, lembrou do
ditado francês, abandonou a mesa de apostas
e abriu uma cafeteria em Ipanema.
Aproveitando a desregulamentação do
setor promovida por Fernando Collor, Modiano decidiu
aplicar em seu negócio o que viu no exterior.
“Sou globalizado antes de as pessoas falarem
nisso”, conta o ex-operador, que observava,
em suas viagens ao exterior, as casas de café
que vendiam grãos de diversas origens e qualidades.
| No
Brasil, explica Modiano, esse tipo de negócio
não era possível por causa do regime
de tabelamento de preço. Não havia
liberdade e os vendedores procuravam faturar sempre
através da redução de custo.
O café integrava a cesta básica
de produtos populares, junto com o arroz, o feijão
e o açúcar, cujos preços
eram controlados pelo governo. O hábito
do brasileiro era beber em pé no botequim
uma água preta requentada chamada “cafezinho”,
conta Modiano. |
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A idéia da criar a cafeteria surgiu num almoço
no Mosteiro São Bento, em conversa com o amigo
Oswaldo Aranha. Hoje, Aranha também está
no ramo de cafeteria, mas na época, relata
Modiano, ele nem entendeu bem. “Dei uma de Glauber
Rocha, câmera na mão e idéia na
cabeça. Queria fazer uma coisa bem diferente.
Peguei minha mulher e fizemos uma viagem exploratória
pelos Estados Unidos, França, Canadá,
garimpando loja a loja, à procura de inspiração.
No Brasil, contratei um arquiteto e pedi que ele tropicalizasse
o conceito tradicional, para criar uma casa de café
genuinamente brasileira”.
Fator importante na consolidação do
negócio foi a opção por um fornecedor
único e exclusivo, característica, aliás,
que iremos encontrar nos outros donos de cafeterias
entrevistados pela reportagem. No caso dos Armazéns
do Café, o fornecedor é a empresa Valorização,
dirigida por Luiz Otavio Araripe e Manoel Correia
do Lago.
“Eu sou meio idealista”, admite Modiano,
“e pensava: o Brasil é o maior produtor
mundial de café, mas não sabe beber
café. Está na hora de criar um mercado
de consumo de café de qualidade. Para isso,
era preciso conquistar corações e mentes.
Nós conquistamos, e não apenas para
homens. Para mulheres também. E quando você
conquista o público feminino, você agrega
um mercado”.
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O
grande público do Armazém do Café,
diz Modiano, é o que sai dos restaurantes.
“O ser humano gosta de etapas. Almoça
num lugar, toma café em outro”, explica.
Ele observa que o poder aquisitivo no Rio de Janeiro
ainda está longe do registrado em São
Paulo. “Temos charme, não dinheiro,
mas está melhorando, e quando você
cria o hábito de consumir uma coisa boa,
não quer voltar atrás. |
Você
terá sempre aquilo na memória, guardou
no seu HD”. Modiano lembra que o café
tem um consumo inelástico. A oscilação
de preço não afeta significativamente
o consumo da bebida. A qualidade, afirma o empresário,
é que faz aumentar o consumo.
Modiano ressalta, porém, que o custo de implantação
de uma boa cafeteria é alto e o valor agregado
da venda do café é baixo, de maneira
que muita gente deve continuar entrando, alguns irão
sair, outros serão absorvidos por grupos maiores
e o setor tenderá a encontrar um ponto de equilíbrio.
“Tem muita gente abrindo café, mas tem
muita fechando também”, adverte o empresáro.
Tendo completado dez anos em julho, com oito casas
no Rio de Janeiro (Ipanema 4, Leblon 2, Barra 1 e
Centro 1) e uma coleção de prêmios,
o Armazém do Café é um dos que
prometem resistir e continuar crescendo por muito
tempo.
O
Veterano
A história de Oswaldo Aranha é a mais
antiga entre todas. Uma história, na verdade,
de várias gerações. Deixemos,
porém, a história de “Vado”
para outra edição e falemos de sua experiência
como fundador da marca Rubro Café. Ele mesmo
nos conta: “Nosso escritório era no Centro
de Comércio de Café e, um dia, trocando
idéia com Guilherme Braga, presidente do Centro,
ele me sugeriu aproveitar o espaço vago e abrir
uma cafeteria aqui na rua da Quitanda”.
| A
Rubro Café iniciou suas atividades com
a torrefação de café, em
meados de 2003. A inauguração da
cafeteria aconteceu no ano seguinte. Hoje, são
três unidades, duas na Barra da Tijuca (Barra
Shopping e Rio Design) e uma no centro (rua da
Quitanda), devendo ser inaugurada uma quarta em
breve, além dos planos de se criar muitas
outras. Aranha observa que a melhoria da qualidade
oferecida ao consumidor é um fenômeno
recente. |
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“Foi
um trabalho feito pela indústria de torrefação,
que tomou para si a decisão de oferecer um
melhor produto ao consumidor. Daí para a cafeteria
é uma conseqüência”, ressalta
Aranha.
A globalização também ajudou,
diz ele, “a partir do momento em que o brasileiro
começou a ter acesso ao que se passa lá
fora e vice-versa, movimento que também aconteceu
nos Estados Unidos. O consumidor passou a reclamar
da qualidade e isso gerou o nascimento das cafeterias
americanas. É um movimento do mercado, que
pediu mais qualidade. E o resultado foi a explosão
das cafeterias”.
Aranha discorda da fama de que o café brasileiro
era ruim. “Não era necessariamente verdade.
Havia, sim, uma percepção neste sentido,
e, infelizmente, a percepção muitas
vezes é mais importante do que o fato”,
comenta. Mas existia uma certa defasagem na qualidade
e, sobretudo, faltava a cultura de valorizar o consumo.
“O café era um produto de botequim, onde
se tomava café em pé. Houve uma mudança
fundamental no Brasil, seguindo a tendência
global de conectar o café com um ambiente,
uma situação, uma cultura. Isso aconteceu
em todo mundo, mesmo nos lugares onde já havia
um café de melhor qualidade, como na Europa”,
lembra Aranha.
A desestatização do setor possibilitou
que o empresário de café procurasse
atender melhor o mercado. Segundo Aranha, “temos
de lembrar que, não faz muitos anos, o torrefador
não comprava café no mercado. Recebia
café do governo. A redução da
presença do Estado fez com que o torrefador
e o varejista fossem mais empreendedores”.
“Acho que este novo ciclo de consumo surge em
lugares que tinham problemas de baixa qualidade. E
talvez isso se aplique ao Brasil”, pondera Aranha.
Os EUA são um exemplo clássico. Nos
mercados novos ou onde o consumidor vinha sendo negligenciado
pelas torrefadoras locais, as cafeterias se proliferaram
rapidamente, suprindo uma demanda reprimida. “Odeio
essa frase, mas ela é boa: havia um gigante
adormecido”, salienta ele.
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Aranha
observa que ainda aprecia um bom café de
coador, mas não há como negar que
o expresso é insuperável na diversidade
que oferece. Além disso, o café
expresso é moído e feito na hora,
conservando um sabor muito fresco. “Acho
que o café expresso tem a vantagem de ser
feito na hora, que é a filosofia do nosso
negócio. Tudo que tem no Rubro é
feito na hora. Ele é moído e preparado
na hora. O consumidor aprecia o fato de que alguém
está fazendo alguma coisa para ele naquele
momento. |
A fórmula do café de coador, dentro
de um pote, sendo requentado várias vezes,
está ultrapassada. Eu vi muito café
de boa qualidade sendo estragado por causa disso”,
assegura.
Veja, a seguir, outros comentários de Aranha.
“Em nossas cafeterias não oferecemos
uma diversidade de qualidades, não temos o
que se classifica como café especial. Em nosso
caso, não oferecemos cafés dessa fazenda
ou daquela região. No Rubro se oferece o Rubro.
Ele é resultado de um expertise, de um conhecimento
sobre café. E acho que fazemos a diferença.
Nós apreciamos a arte de misturar o café,
o que traz a qualidade e uniformidade. Deus não
permite que os cafés sejam iguais todos os
anos. Eu comparo isso com o vinho. Os lugares que
produzem bons vinhos sabem fazer mistura das uvas
para manter a uniformidade. O Rubro identificou a
falta de qualidade no mercado e ofereceu a um preço
razoável um produto de altíssimo nível,
comparado a qualquer lugar do mundo. Por acaso, tenho
produção própria, mas não
uso. A região onde estamos instalados e onde
compramos a matéria-prima, o Sul de Minas,
não deixa a desejar a nenhuma região.”
“Não tenho nada contra a vinda de cafés
do exterior. O direito de poder oferecer cafés
de diferentes países, em outros tipos de cafeterias
ou supermercados, seria muito bom para o mercado.
Da mesma forma que a presença da Starbucks
no Brasil faz muito bem ao mercado brasileiro.”
“A margem de lucro de uma cafeteria é
boa, mas a gente não pode esquecer o fato que
o café ainda é um produto de preço
baixo. No momento em que o valor absoluto é
baixo, é necessário ganhar no volume.
Ou você tem um negócio pequeno, gerido
pelo dono e familiares, ou será difícil
ter uma margem razoável sem possuir vários
pontos.”
“Uma cafeteria pequena, gerida pelo dono, pode
oferecer um serviço de excelente qualidade.
Existem dois perfis básicos para o negócio
de cafeteria. Há o pequeno empresário,
pessoa física, família, que consegue
viver, pagar suas contas, apenas com aquela cafeteria,
e há o empresario que investe na expansão
das unidades com sua marca”.
“O aumento de cafeterias beneficiou o produtor
de maneira fundamental. Eu sou um exemplo. Há
poucos anos, meu filho me via trabalhando no negócio
de café e me perguntava se poderia, um dia,
seguir o mesmo caminho. Eu respondia que não
gostaria que ele trabalhasse em café. Hoje,
estou feliz que ele e minha filha trabalhem comigo
na cafeteria e na torrefação de café.“
O
Apaixonado
Carlos Bastos, 41, sempre gostou de freqüentar
cafeterias. Gostava tanto que resolveu abrir uma.
Junto com um sócio, inaugurou há sete
meses o Samba Café, na rua Fracisco Otaviano,
em Copacabana. “Identifiquei a demanda de um
lugar diferenciado, mais tranquilo, onde se possa
sentar, ler um livro. E não estava errado”,
assegura ele.
| Antes
de trocar a estável vida de bancário
pela rotina agitada de empresário, Bastos
fez um longo estudo sobre os hábitos do
carioca. “O carioca mudou seu comportamento
e as cafeterias estão surgindo por conta
disso. Antes o carioca não observava se
o café era bom ou não. Hoje, o paladar
ficou mais apurado”, opina. Ele explica
que seu foco principal não é o retorno
imediato do investimento. “Minha preocupação
maior é oferecer um serviço de qualidade.
Fiz cursos de baristas, fiz muita leitura e pesquisa,
para poder treinar meus funcionários. |
|
Quero fixar a marca e o ponto, e futuramente abrir
outras filiais, na cidade e em outras capitais. Penso
também em vender franquias, o que seria ótimo”.
Bastos nota que o público jovem ainda é
arredio ao café. “Noventa por cento do
meu público é de trinta anos para cima.
É difícil um jovem, um garotão,
tomar um café. Ele pode entrar aqui, tomar
um milk shake, um doce, mas dificilmente ele toma
um café. Principalmente o jovem carioca”,
comenta.
De acordo com o empresário, um dos diferenciais
de sua loja é a relação de afeto
com os clientes.
|
“Acho
que é afetividade mesmo. Você toma
um bom café numa cafeteria e volta. O cliente
acaba ficando próximo. Essa relação
eu não sentia muito nas cafeterias de São
Paulo que eu freqüentava. Você conhece
o cliente. Conhece a vida da pessoa, ele conhece
sua vida. A cafeteria é o espaço
que mais permite essa troca de afeto. Você
consegue fidelizar o cliente nesse aspecto. É
um resultado muito bom. Ele não gostou
somente do café, mas da cafeteria, do ambiente,
da gente”. |
Essa
relação próxima Bastos também
construiu com seu fornecedor, uma produtora da mogiana
Paulista, que lhe vende, já torrado, o Café
Fazenda Pessegueiro. “Ela sempre me convida
para eu visitar a fazenda. Estou me programando para
ir. Acho fundamental conhecer o processo de produção
do café”, conclui.
A
Pioneira
O fenômeno da expansão de cafeterias
ainda está, todavia, muito concentrado na Zona
Sul do Rio de Janeiro. Mas, a depender de Claudia
Rocha, a Zona Norte também vai entrar na onda.
Essa pacata dona de casa decidiu inaugurar, há
alguns meses, uma das primeiras casas de café
da região. O Crepe Café, localizada
dentro de um shopping na rua Dias da Cruz, Méier,
rapidamente tornou-se um importante ponto de encontro.
“Havia falta de um lugar como esse, para as
pessoas se encontrarem, lerem um jornal, descansarem
um pouco da agitação do dia ou terem
para reuniões de negócios”, enfatiza
Cláudia.
Ela tem notado uma curiosidade crescente de seu público
sobre a qualidade e a origem do café. “Tenho
conseguido atrair um público jovem. E um público
cativo. As pessoas estão sempre voltando”,
comemora.
Assim como os outros entrevistados, a empresária
também fez um longo estudo antes de abrir o
seu negócio. Pesquisou sobre a história
do café e sobre a qualidade. Fez contato, ainda,
com o Centro de Comércio de Café do
Rio e participou de workshops o que a levou a contratar
um barista profissional e a comprar café sempre
do mesmo fornecedor, o Café Florença,
da Flávia Quaresma. Sua pequena loja no subúrbio
do Rio, portanto, não deixa nada a desejar,
em matéria de qualidade, a qualquer loja em
Paris, Nova Iorque ou Leblon.
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