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Setembro 2007 - Ano 86 - Nº 823

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Há duas edições, escrevi um artigo sobre a exportação italiana de café torrado. Na ocasião, discorri sobre o fato de a Itália ser a maior exportadora mundial de café torrado, em valor, tendo exportado o equivalente a US$ 613,69 milhões em 2006, ou 1,74 milhão de sacas. Neste artigo, o foco é sobre a Alemanha, que detém, em volume, o primeiro lugar na exportação mundial de torrado, tendo exportado 2,35 milhões de sacas em 2006 e faturado US$ 495,18 milhões.

Diversos comentários que fiz sobre a Itália valem para a Alemanha. Observei, por exemplo, que os torradores italianos se beneficiaram enormemente do mercado comum europeu, que lhes facilitou o acesso a vizinhos populosos e com o parque industrial devastado pelo comunismo de segunda classe que a Rússia lhes impôs. Os alemães se beneficiaram ainda mais, visto que o país localiza-se no centro da Europa, com acesso fácil a todos os extremos do continente. Os dados da Eurostat, agência estatística da União Européia, revelam que a exportação alemã de torrado é ainda mais concentrada dentro do continente do que a italiana. No ano passado, somente 5% das exportações alemãs destinaram-se a países não-membros, enquanto 25,5% das exportações italianas de torrado destinaram-se para fora da UE.

Os números da Eurostat mostram que o mercado europeu de café torrado continua bastante fechado. As torradoras alemãs e italianas ampliam sua hegemonia ano a ano, dificultando que empresas não-comunitárias ingressem no promissor mercado europeu.

Potência Industrial

As razões que levaram a Alemanha a se tornar essa potência cafeeira estão em sua história, em sua vocação industrial e de liderança. Com poucos recursos naturais, mas com um povo estudioso, pragmático e combativo, a Alemanha reergueu-se várias vezes de terríveis crises econômicas. Reduzida aos escombros ao fim da II Guerra, com um parque industrial destruído, a Alemanha renasceu em poucas décadas e hoje voltou a ser o país mais rico e que mais cresce na Europa.

Não só isso. A Alemanha foi uma das grandes líderes do processo de unificação européia. Os pensadores políticos alemãos, após séculos de loucura bélica, compreenderam que o único caminho honesto para dominar o mundo é através da diplomacia e do comércio exterior.

Vale lembrar que, depois de tantas derrotas militares e crises econômicas, os alemães consolidaram-se como um dos pilares morais do pensamento e da ética ocidentais, incluindo aí valores democráticos, respeito às diferenças, direitos civis, luta ecológica etc. O ecologismo germânico, por exemplo, é uma bandeira que une conservadores e liberais. Os movimentos neo-nazistas são insignificantes (e reprimidas) manifestações de gueto.

Com 83 milhões de habitantes, a Alemanha é a terceira maior economia mundial, depois de Estados Unidos e Japão, embora esteja sendo, no momento, deslocada para o quarto lugar, cedendo posição à China. Em 2006, a Alemanha importou um total de 18,76 milhões de sacas de café, sendo 89% na forma de verde, 7,5% na forma de solúvel e 5% na forma de torrado. O valor total da importação foi de US$ 2,77 bilhões de dólares, com preço médio de US$ 147,84 dólares por saca.

No mesmo ano, a Alemanha exportou 9,87 milhões de sacas, sendo apenas 26% na forma de verde e o restante com valor agregado (torrado, solúvel e descafeinado). A receita gerada foi de US$ 1,98 bilhão, com preço médio de US$ 200,53 por saca. Com isso, a diferença entre o total importado e o total exportado ficou em 8,89 milhões de sacas e US$ 795,37 milhões.

No primeiro semestre deste ano, a Alemanha importou 9,98 milhões de sacas de café (todos os tipos) ou US$ 1,51 bilhão, o que representa 14% de aumento no volume e 16% no valor sobre o ano anterior. A exportação alemã de café no primeiro semestre totalizou 4,94 milhões de sacas (todos os tipos), ou US$ 1,0 bilhão, aumentos de 9,7% e 12,7%, respectivamente, sobre o ano anterior.

Não se pode falar do café alemão sem lembrar que o país também acumula o título de maior exportador mundial de descafeinados. Em 2006, a exportação de café verde descafeinado totalizou 2,21 milhões de sacas, gerando US$ 386,46 milhões, o que representou crescimento de 17% e 24%, respectivamente, sobre o ano anterior.

Nos sete primeiros meses de 2007, exportou 1,1 milhão de sacas de verde descafeinado, gerando US$ 203,84 milhões, alta de 14% e 19% sobre igual período de 2006. Os principais compradores do descafeinado alemão são os Estados Unidos, que adquiriram 672.770 sacas em jan/jul 07, o que correspondeu a 60% do total exportado e um aumento de 19% sobre jan/jul 06.

Exportações alemãs crescem em 2007

A Eurostat atualizou suas estatísticas sobre a Alemanha com dados até junho deste ano. Podemos verificar, portanto, que as exportações alemãs de café torrado prosseguem crescendo. De janeiro a junho de 2007, a Alemanha exportou 1,15 milhão de sacas, o que corresponde a um aumento de 6% sobre o mesmo período do ano anterior. Em receita, as exportações alemãs de torrado totalizaram US$ 265,36 milhões de dólares no primeiro semestre, alta de 7% sobre 2006. O preço médio do torrado alemão é um dos mais competitivos da Europa. No ano passado, foi de US$ 227,47 a saca, contra US$ 384,00 da Itália e US$ 267,55 da Bélgica.

Os principais compradores do torrado alemão são França, Holanda, Áustria e Polônia. Estes quatro países importaram o equivalente a 52% das exportações germânicas no primeiro semestre deste ano. O destaque fica com a Polônia, uma das economias que mais cresce no Leste Europeu, que importou 142.278 sacas em jan/jun 07, alta de 70% sobre o ano anterior. Em valor, as importações polonesas do torrado alemão somaram US$ 25,03 milhões em jan/jun 07, alta de 90% no ano.

Esses números mostram que fatores políticos foram decisivos na consolidação das vendas externas do café torrado europeu. Quando a Alemanha brigou para que a União Européia se tornasse uma realidade, tinha motivos bem consistentes, que vemos refletidos nesse desempenho extraordinário de sua indústria cafeeira.

 

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