Há
duas edições, escrevi um artigo sobre
a exportação italiana de café
torrado. Na ocasião, discorri sobre o fato
de a Itália ser a maior exportadora mundial
de café torrado, em valor, tendo exportado
o equivalente a US$ 613,69 milhões em 2006,
ou 1,74 milhão de sacas. Neste artigo, o foco
é sobre a Alemanha, que detém, em volume,
o primeiro lugar na exportação mundial
de torrado, tendo exportado 2,35 milhões de
sacas em 2006 e faturado US$ 495,18 milhões.
Diversos comentários que fiz sobre a Itália
valem para a Alemanha. Observei, por exemplo, que
os torradores italianos se beneficiaram enormemente
do mercado comum europeu, que lhes facilitou o acesso
a vizinhos populosos e com o parque industrial devastado
pelo comunismo de segunda classe que a Rússia
lhes impôs. Os alemães se beneficiaram
ainda mais, visto que o país localiza-se no
centro da Europa, com acesso fácil a todos
os extremos do continente. Os dados da Eurostat, agência
estatística da União Européia,
revelam que a exportação alemã
de torrado é ainda mais concentrada dentro
do continente do que a italiana. No ano passado, somente
5% das exportações alemãs destinaram-se
a países não-membros, enquanto 25,5%
das exportações italianas de torrado
destinaram-se para fora da UE.
Os números da Eurostat mostram que o mercado
europeu de café torrado continua bastante fechado.
As torradoras alemãs e italianas ampliam sua
hegemonia ano a ano, dificultando que empresas não-comunitárias
ingressem no promissor mercado europeu.
Potência
Industrial
As razões que levaram a Alemanha a se tornar
essa potência cafeeira estão em sua história,
em sua vocação industrial e de liderança.
Com poucos recursos naturais, mas com um povo estudioso,
pragmático e combativo, a Alemanha reergueu-se
várias vezes de terríveis crises econômicas.
Reduzida aos escombros ao fim da II Guerra, com um
parque industrial destruído, a Alemanha renasceu
em poucas décadas e hoje voltou a ser o país
mais rico e que mais cresce na Europa.
Não só isso. A Alemanha foi uma das
grandes líderes do processo de unificação
européia. Os pensadores políticos alemãos,
após séculos de loucura bélica,
compreenderam que o único caminho honesto para
dominar o mundo é através da diplomacia
e do comércio exterior.
Vale lembrar que, depois de tantas derrotas militares
e crises econômicas, os alemães consolidaram-se
como um dos pilares morais do pensamento e da ética
ocidentais, incluindo aí valores democráticos,
respeito às diferenças, direitos civis,
luta ecológica etc. O ecologismo germânico,
por exemplo, é uma bandeira que une conservadores
e liberais. Os movimentos neo-nazistas são
insignificantes (e reprimidas) manifestações
de gueto.
Com 83 milhões de habitantes, a Alemanha é
a terceira maior economia mundial, depois de Estados
Unidos e Japão, embora esteja sendo, no momento,
deslocada para o quarto lugar, cedendo posição
à China. Em 2006, a Alemanha importou um total
de 18,76 milhões de sacas de café, sendo
89% na forma de verde, 7,5% na forma de solúvel
e 5% na forma de torrado. O valor total da importação
foi de US$ 2,77 bilhões de dólares,
com preço médio de US$ 147,84 dólares
por saca.
No mesmo ano, a Alemanha exportou 9,87 milhões
de sacas, sendo apenas 26% na forma de verde e o restante
com valor agregado (torrado, solúvel e descafeinado).
A receita gerada foi de US$ 1,98 bilhão, com
preço médio de US$ 200,53 por saca.
Com isso, a diferença entre o total importado
e o total exportado ficou em 8,89 milhões de
sacas e US$ 795,37 milhões.
No primeiro semestre deste ano, a Alemanha importou
9,98 milhões de sacas de café (todos
os tipos) ou US$ 1,51 bilhão, o que representa
14% de aumento no volume e 16% no valor sobre o ano
anterior. A exportação alemã
de café no primeiro semestre totalizou 4,94
milhões de sacas (todos os tipos), ou US$ 1,0
bilhão, aumentos de 9,7% e 12,7%, respectivamente,
sobre o ano anterior.
Não se pode falar do café alemão
sem lembrar que o país também acumula
o título de maior exportador mundial de descafeinados.
Em 2006, a exportação de café
verde descafeinado totalizou 2,21 milhões de
sacas, gerando US$ 386,46 milhões, o que representou
crescimento de 17% e 24%, respectivamente, sobre o
ano anterior.
Nos sete primeiros meses de 2007, exportou 1,1 milhão
de sacas de verde descafeinado, gerando US$ 203,84
milhões, alta de 14% e 19% sobre igual período
de 2006. Os principais compradores do descafeinado
alemão são os Estados Unidos, que adquiriram
672.770 sacas em jan/jul 07, o que correspondeu a
60% do total exportado e um aumento de 19% sobre jan/jul
06.
Exportações
alemãs crescem em 2007
A Eurostat atualizou suas estatísticas sobre
a Alemanha com dados até junho deste ano. Podemos
verificar, portanto, que as exportações
alemãs de café torrado prosseguem crescendo.
De janeiro a junho de 2007, a Alemanha exportou 1,15
milhão de sacas, o que corresponde a um aumento
de 6% sobre o mesmo período do ano anterior.
Em receita, as exportações alemãs
de torrado totalizaram US$ 265,36 milhões de
dólares no primeiro semestre, alta de 7% sobre
2006. O preço médio do torrado alemão
é um dos mais competitivos da Europa. No ano
passado, foi de US$ 227,47 a saca, contra US$ 384,00
da Itália e US$ 267,55 da Bélgica.
Os principais compradores do torrado alemão
são França, Holanda, Áustria
e Polônia. Estes quatro países importaram
o equivalente a 52% das exportações
germânicas no primeiro semestre deste ano. O
destaque fica com a Polônia, uma das economias
que mais cresce no Leste Europeu, que importou 142.278
sacas em jan/jun 07, alta de 70% sobre o ano anterior.
Em valor, as importações polonesas do
torrado alemão somaram US$ 25,03 milhões
em jan/jun 07, alta de 90% no ano.
Esses números mostram que fatores políticos
foram decisivos na consolidação das
vendas externas do café torrado europeu. Quando
a Alemanha brigou para que a União Européia
se tornasse uma realidade, tinha motivos bem consistentes,
que vemos refletidos nesse desempenho extraordinário
de sua indústria cafeeira.

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