A
pior e maior crise de energia de nosso planeta é
a falta de energia humana. E esta ocorre através
da depressão. A depressão é a
mais fascinante e desafiadora das doenças e
acomete mais de 20% da humanidade, causando problemas
graves e incapacitantes, com prejuízos incalculáveis.
Diversos estudos epidemiológicos demonstram
que existe uma relação inversa entre
o consumo de café e a incidência de depressão/suicídio
e alcoolismo/cirrose. A depressão pode ser
uma reação psicossocial que atinge quase
100% da população, criando condições
favoráveis para a busca de soluções
temporárias – desde gurus, líderes
teóricos e fórmulas mágicas a
dispendiosos programas de auto-ajuda, todos divertidos
e interessantes, mas sem comprovação
científica de eficácia.
Palestras motivacionais são as prediletas em
congressos devido a este problema. Por isto, o “coffee
break“ é a melhor parte de seminários,
reuniões e eventos e faz parte regular de nossas
vidas. Mas por quê? A depressão significa
uma diminuição da força vital
do cérebro, o principal, mais complexo, evoluído
e perfeito órgão do corpo humano. Desde
manifestações como frustração,
irritabilidade, agressividade, desinteresse, pessimismo,
apatia, desatenção, improdutividade,
insônia, falta de apetite e de interesse sexual,
perda de iniciativa, de confiança e de auto-estima
até manifestações graves como
sentimento de culpa e idéia de suicídio,
a depressão é um desafio para a ciência
médica.
Um paciente com câncer terminal, infarto do
miocárdio ou AIDS, ou mesmo um paciente atropelado
ou baleado, quer desesperadamente viver. Apenas na
depressão ele quer morrer, mesmo possuindo
saúde física. A depressão atinge
mais de 15% dos executivos e funcionários,
com prejuízos de mais de 80 bilhões
de dólares anuais nas empresas nos Estados
Unidos. Como doença incapacitante, ela atinge
20% de humanidade, causando problemas que vão
desde o suicídio a baixa produtividade, faltas
no trabalho, alcoolismo, consumo de drogas e mesmo
males cardíacos, com prejuízos incalculáveis
no mundo todo.
Só o alcoolismo, uma das conseqüências
da depressão, já causa prejuízos
anuais superiores a 160 bilhões de dólares
nos EUA, sem mencionar lares desfeitos e o sofrimento
humano individual, familiar, social e profissional.
E este problema aumenta entre jovens e crianças.
Depois de acidentes de trânsito, o suicídio
é a segunda causa de morte de adolescentes
e jovens norte-americanos de 10 a 20 anos.
Qual o segredo da felicidade? Conseguir coisas extraordinárias
como o sucesso, a fama e a fortuna? Quem ou o que
faz um país grande e poderoso? Os gênios?
Os homens extraordinários? As pessoas belas,
ricas e famosas? As riquezas naturais? Não.
A felicidade do ser humano está nas coisas
comuns, como a família, os pais, os filhos,
a escola, o trabalho, os amigos.
Quem faz um país grande ou pequeno, forte ou
fraco, desenvolvido ou não, são as pessoas
comuns – os milhões de professores, estudantes,
trabalhadores, empresários, profissionais liberais
e comerciantes, dentre muitos outros, que lutam diariamente
na busca da sua felicidade e de suas famílias.
São os homens comuns, e não os extraordinários,
os responsáveis pelo passado, presente e futuro
de qualquer nação.
Um homem extraordinário pode mudar o rumo e
interferir no futuro dos homens comuns. Mas, mesmo
grandes líderes, ainda que aparentemente extraordinários,
podem ser removidos pelos homens comuns, caso estejam
fazendo algo incomum. O mundo sempre foi governado
mais pelas aparências do que pela realidade.
As mentes comuns estão sempre preocupadas e
fascinadas pelas coisas extraordinárias. Apenas
as mentes extraordinárias se preocupam e ficam
fascinadas com as coisas comuns.
Todas as pessoas querem ser extraordinárias.
Poucas se contentam em serem comuns. Ser comum e ser
feliz são os primeiros passos para vir a ser
alguém extraordinário. A maioria das
pessoas se preocupa bastante com as doenças,
mas poucas se preocupam com a boa saúde, algo
comum. E com diversas coisas comuns da vida. Como
dormir, acordar, tomar café, pensar. A busca
frustrada do extraordinário ajuda no aparecimento
da depressão.
O café é a bebida mais comum em todo
o mudo. E, mesmo sendo uma fruta, seu valor e importância
ainda não são devidamente reconhecidos.
Não é só cafeína. A maioria
das pessoas que o toma diariamente ignora quais são
as substâncias que estão presentes nesta
bebida e pensa que ela contém apenas, ou principalmente,
cafeína. Grande engano. O café possui
somente 1 a 2,5 % de cafeína e diversas outras
substâncias em maior quantidade. E estas outras
substâncias podem ser até mais importantes
do que a cafeína para o organismo humano.
O café possui uma grande variedade de minerais,
como potássio(K), magnésio (Mg), cálcio
(Ca), sódio (Na), ferro (Fe), manganês
(Mn), rubídio (Rb), zinco (Zn), cobre (Cu),
estrôncio (Sr), cromo (Cr), vanádio (V),
bário (Ba), níquel (Ni), cobalto (Co),
chumbo (Pb), molibdênio (Mo), titânio
(Ti) e cádmio (Cd); aminoácidos, como
alanina, arginina, asparagina, cisteína, ácido
glutâmico, glicina, histidina, isoleucina, lisina,
metionina, fenilalanina, prolina, serina, treonina,
tirosina e valina; lipídeos, como triglicerídeos
e ácidos graxos livres; e açúcares,
como sucrose, glicose, frutose, arabinose, galactose,
maltose e polissacarídeos. Adicionalmente,
também contém uma vitamina do complexo
B, a niacina (vitamina PP ou Pelagra Preventing, do
inglês), e, em maior quantidade do que a cafeína,
os ácidos clorogênicos, na proporção
de 7 a 9%, isto é, três a cinco vezes
mais. Apenas a cafeína é termo-estável,
isto é, não é destruída
com a torrefação excessiva. As demais
substâncias, como aminoácidos, açúcares,
lipídeos, como a niacina, e os ácidos
clorogênicos e as lactonas, são preservadas,
formadas ou mesmo destruídas durante o processo
de torra.
O café com a torra ideal é aquele que
possui a cor marrom, tipo chocolate (marrom claro
ou marrom escuro), pois este preserva as substâncias
benéficas para a saúde. O produto bom
é aquele onde há um maior controle sobre
a torrefação. Café queimado não
faz bem para a saúde. O grão torrado
excessivamente torrado possui apenas a cafeína
e uma grande quantidade de cinzas, contrariando a
frase de que o café bom é aquele preto
como o carvão. Na verdade, o café deve
ser quente como o inferno, puro como um anjo e doce
como o amor.
A crítica ao consumo de cafeína em quantidades
moderadas são total e completamente infundadas,
mas ainda arraigadas entre pessoas desinformadas.
Em quantidades moderadas – o equivalente a 400-500mg/dia,
dose de três a quatro xícaras –,
a cafeína não é prejudicial à
saúde humana, desde a gestação
até o final da vida. O consumo crônico
e moderado de cafeína não está
associado com o infarto do miocárdio nem com
qualquer tipo de câncer ou com má formação
fetal (teratogenia), doença fibrocística
da mama ou aborto. A cafeína também
não é responsável pela produção
de arritmias cardíacas ou de úlcera
gástrica ou duodenal em pessoas normais.
Apesar de o consumo de café e chá ser
antigo, as pesquisas que avaliam os efeitos do café
no homem são recentes. Mais de mil produtos
químicos foram identificados no café,
sendo alguns, como os ácidos clorogênicos,
bem mais abundantes do que a cafeína. Mas é
ela a mais estudada até o momento e considerada,
erroneamente, como a principal responsável
pelas propriedades estimulantes da bebida. A cafeína
atua através do antagonismo dos receptores
de adenosina, um neurotransmissor inibidor existente
no cérebro. Impedindo a atuação
da adenosina, causa uma estimulação
cerebral. Mas a cafeína não pode ser
comparada com a estricnina, a cocaína ou a
heroína, possuindo apenas semelhança
fonética.
A bebida café possui, em seu teor final, compostos
estáveis como sais minerais, niacina, cafeína,
e os ácidos clorogênicos e as lactonas
ou quinídeos, além de um grande número
de compostos voláteis que dão aroma
e sabor. O valor calórico do café é
mínimo, pois os açúcares, lipídeos
e aminoácidos não estão presentes
na bebida e são destruídos na torra,
formando os compostos voláteis. Estudos modernos
demonstram que a planta mais consumida no mundo, o
café, possui ácidos clorogênicos,
que têm efeito antioxidante, mas que no processo
de torra adequada formam diversos derivados do ácido
quínico (as lactonas quinídeos). Estes
derivados produzem um potente efeito antagonista opióide,
além de atuarem inibindo o transporte da adenosina
no cérebro, protegendo-o dos efeitos da cafeína.
Por isto, parecem ser até mais importantes
do que a cafeína, pois estão presentes
em maior quantidade do que ela tanto no grão
como na bebida.
Por esta razão, o consumo regular e moderado
de café, na dose de três a quatro xícaras
diárias, exerce um efeito profilático
sobre a depressão e o consumo de drogas como
o álcool, dois grandes problemas da atualidade
que podem ser prevenidos. Mas, embora o café
seja um produto natural e não cause doenças
em pessoas saudáveis, quando consumido de forma
diária e mesmo moderada (até quatro
xícaras diárias, sendo que para crianças
é recomendado preferencialmente com leite),
pode causar efeitos indesejáveis em algumas
pessoas.
Existem alguns que naturalmente não gostam
de café, uma questão pessoal, mas também
existem pessoas normais e saudáveis que são
mais sensíveis aos efeitos de um dos compostos
do café, a cafeína, podendo apresentar
ansiedade, tremores, insônia e até um
quadro de pânico. Quando consumido à
noite, o café pode prejudicar o sono da maioria
dos usuários, sendo, por isto, uma bebida diurna.
Ingerido com moderação, o café
não causa doenças em pessoas normais
e saudáveis, da infância à velhice.
Há crenças infundadas de que o café
tinge os dentes, mas ninguém fica com o café
quente na boca, pois o bebe rapidamente. E ninguém
tem os dentes vermelhos por consumidor tomates. O
café também não interfere na
absorção e no metabolismo do cálcio,
um dos mais sofisticados do corpo humano. Mas pessoas
com doenças como gastrite, doença do
refluxo gastroesofágico, úlcera péptica,
transtorno de ansiedade generalizada, transtorno do
pânico, palpitações devido a arritmias
cardíacas, hipertensão arterial ou doença
isquêmica do coração devem ter
cuidado no consumo de café, pois há
riscos de agravar os sintomas ou a doença,
principalmente se a ingestão for excessiva.
Por isto, toda pessoa que possua qualquer doença
mental, cardíaca, gástrica ou outras
deve consumir café com moderação
e. preferencialmente. após ouvir os conselhos
de seu médico. E, caso sinta qualquer intolerância
ao café, deve parar de consumi-lo.
É importante lembrar que o café não
é remédio, isto é, não
cura doenças, mas pode ser um agente a mais
na prevenção de várias doenças
e problemas. E subprodutos do grão de café,
como um produto fitoterápico, podem ser de
utilidade para a prevenção e o tratamento
de recidivas da depressão e drogadição
entre pacientes acometidos destes problemas comuns,
mas importantes na atualidade. Isto explica por que
o “coffee break“ é a melhor parte
de qualquer palestra e por que tomamos café
durante toda nossa vida.
Darcy
Roberto Lima
Doutor em Medicina (Ph.D.) e Pós-Doutorado
em História da Medicina, Universidade de Londres,
Inglaterra; Professor do Instituto de Neurologia Deolindo
Couto, UFRJ.
www.cafeesaude.com.br
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