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Setembro 2007 - Ano 86 - Nº 823

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A pior e maior crise de energia de nosso planeta é a falta de energia humana. E esta ocorre através da depressão. A depressão é a mais fascinante e desafiadora das doenças e acomete mais de 20% da humanidade, causando problemas graves e incapacitantes, com prejuízos incalculáveis.

Diversos estudos epidemiológicos demonstram que existe uma relação inversa entre o consumo de café e a incidência de depressão/suicídio e alcoolismo/cirrose. A depressão pode ser uma reação psicossocial que atinge quase 100% da população, criando condições favoráveis para a busca de soluções temporárias – desde gurus, líderes teóricos e fórmulas mágicas a dispendiosos programas de auto-ajuda, todos divertidos e interessantes, mas sem comprovação científica de eficácia.

Palestras motivacionais são as prediletas em congressos devido a este problema. Por isto, o “coffee break“ é a melhor parte de seminários, reuniões e eventos e faz parte regular de nossas vidas. Mas por quê? A depressão significa uma diminuição da força vital do cérebro, o principal, mais complexo, evoluído e perfeito órgão do corpo humano. Desde manifestações como frustração, irritabilidade, agressividade, desinteresse, pessimismo, apatia, desatenção, improdutividade, insônia, falta de apetite e de interesse sexual, perda de iniciativa, de confiança e de auto-estima até manifestações graves como sentimento de culpa e idéia de suicídio, a depressão é um desafio para a ciência médica.

Um paciente com câncer terminal, infarto do miocárdio ou AIDS, ou mesmo um paciente atropelado ou baleado, quer desesperadamente viver. Apenas na depressão ele quer morrer, mesmo possuindo saúde física. A depressão atinge mais de 15% dos executivos e funcionários, com prejuízos de mais de 80 bilhões de dólares anuais nas empresas nos Estados Unidos. Como doença incapacitante, ela atinge 20% de humanidade, causando problemas que vão desde o suicídio a baixa produtividade, faltas no trabalho, alcoolismo, consumo de drogas e mesmo males cardíacos, com prejuízos incalculáveis no mundo todo.

Só o alcoolismo, uma das conseqüências da depressão, já causa prejuízos anuais superiores a 160 bilhões de dólares nos EUA, sem mencionar lares desfeitos e o sofrimento humano individual, familiar, social e profissional. E este problema aumenta entre jovens e crianças. Depois de acidentes de trânsito, o suicídio é a segunda causa de morte de adolescentes e jovens norte-americanos de 10 a 20 anos.

Qual o segredo da felicidade? Conseguir coisas extraordinárias como o sucesso, a fama e a fortuna? Quem ou o que faz um país grande e poderoso? Os gênios? Os homens extraordinários? As pessoas belas, ricas e famosas? As riquezas naturais? Não. A felicidade do ser humano está nas coisas comuns, como a família, os pais, os filhos, a escola, o trabalho, os amigos.

Quem faz um país grande ou pequeno, forte ou fraco, desenvolvido ou não, são as pessoas comuns – os milhões de professores, estudantes, trabalhadores, empresários, profissionais liberais e comerciantes, dentre muitos outros, que lutam diariamente na busca da sua felicidade e de suas famílias. São os homens comuns, e não os extraordinários, os responsáveis pelo passado, presente e futuro de qualquer nação.

Um homem extraordinário pode mudar o rumo e interferir no futuro dos homens comuns. Mas, mesmo grandes líderes, ainda que aparentemente extraordinários, podem ser removidos pelos homens comuns, caso estejam fazendo algo incomum. O mundo sempre foi governado mais pelas aparências do que pela realidade. As mentes comuns estão sempre preocupadas e fascinadas pelas coisas extraordinárias. Apenas as mentes extraordinárias se preocupam e ficam fascinadas com as coisas comuns.

Todas as pessoas querem ser extraordinárias. Poucas se contentam em serem comuns. Ser comum e ser feliz são os primeiros passos para vir a ser alguém extraordinário. A maioria das pessoas se preocupa bastante com as doenças, mas poucas se preocupam com a boa saúde, algo comum. E com diversas coisas comuns da vida. Como dormir, acordar, tomar café, pensar. A busca frustrada do extraordinário ajuda no aparecimento da depressão.

O café é a bebida mais comum em todo o mudo. E, mesmo sendo uma fruta, seu valor e importância ainda não são devidamente reconhecidos. Não é só cafeína. A maioria das pessoas que o toma diariamente ignora quais são as substâncias que estão presentes nesta bebida e pensa que ela contém apenas, ou principalmente, cafeína. Grande engano. O café possui somente 1 a 2,5 % de cafeína e diversas outras substâncias em maior quantidade. E estas outras substâncias podem ser até mais importantes do que a cafeína para o organismo humano.

O café possui uma grande variedade de minerais, como potássio(K), magnésio (Mg), cálcio (Ca), sódio (Na), ferro (Fe), manganês (Mn), rubídio (Rb), zinco (Zn), cobre (Cu), estrôncio (Sr), cromo (Cr), vanádio (V), bário (Ba), níquel (Ni), cobalto (Co), chumbo (Pb), molibdênio (Mo), titânio (Ti) e cádmio (Cd); aminoácidos, como alanina, arginina, asparagina, cisteína, ácido glutâmico, glicina, histidina, isoleucina, lisina, metionina, fenilalanina, prolina, serina, treonina, tirosina e valina; lipídeos, como triglicerídeos e ácidos graxos livres; e açúcares, como sucrose, glicose, frutose, arabinose, galactose, maltose e polissacarídeos. Adicionalmente, também contém uma vitamina do complexo B, a niacina (vitamina PP ou Pelagra Preventing, do inglês), e, em maior quantidade do que a cafeína, os ácidos clorogênicos, na proporção de 7 a 9%, isto é, três a cinco vezes mais. Apenas a cafeína é termo-estável, isto é, não é destruída com a torrefação excessiva. As demais substâncias, como aminoácidos, açúcares, lipídeos, como a niacina, e os ácidos clorogênicos e as lactonas, são preservadas, formadas ou mesmo destruídas durante o processo de torra.

O café com a torra ideal é aquele que possui a cor marrom, tipo chocolate (marrom claro ou marrom escuro), pois este preserva as substâncias benéficas para a saúde. O produto bom é aquele onde há um maior controle sobre a torrefação. Café queimado não faz bem para a saúde. O grão torrado excessivamente torrado possui apenas a cafeína e uma grande quantidade de cinzas, contrariando a frase de que o café bom é aquele preto como o carvão. Na verdade, o café deve ser quente como o inferno, puro como um anjo e doce como o amor.

A crítica ao consumo de cafeína em quantidades moderadas são total e completamente infundadas, mas ainda arraigadas entre pessoas desinformadas. Em quantidades moderadas – o equivalente a 400-500mg/dia, dose de três a quatro xícaras –, a cafeína não é prejudicial à saúde humana, desde a gestação até o final da vida. O consumo crônico e moderado de cafeína não está associado com o infarto do miocárdio nem com qualquer tipo de câncer ou com má formação fetal (teratogenia), doença fibrocística da mama ou aborto. A cafeína também não é responsável pela produção de arritmias cardíacas ou de úlcera gástrica ou duodenal em pessoas normais.

Apesar de o consumo de café e chá ser antigo, as pesquisas que avaliam os efeitos do café no homem são recentes. Mais de mil produtos químicos foram identificados no café, sendo alguns, como os ácidos clorogênicos, bem mais abundantes do que a cafeína. Mas é ela a mais estudada até o momento e considerada, erroneamente, como a principal responsável pelas propriedades estimulantes da bebida. A cafeína atua através do antagonismo dos receptores de adenosina, um neurotransmissor inibidor existente no cérebro. Impedindo a atuação da adenosina, causa uma estimulação cerebral. Mas a cafeína não pode ser comparada com a estricnina, a cocaína ou a heroína, possuindo apenas semelhança fonética.

A bebida café possui, em seu teor final, compostos estáveis como sais minerais, niacina, cafeína, e os ácidos clorogênicos e as lactonas ou quinídeos, além de um grande número de compostos voláteis que dão aroma e sabor. O valor calórico do café é mínimo, pois os açúcares, lipídeos e aminoácidos não estão presentes na bebida e são destruídos na torra, formando os compostos voláteis. Estudos modernos demonstram que a planta mais consumida no mundo, o café, possui ácidos clorogênicos, que têm efeito antioxidante, mas que no processo de torra adequada formam diversos derivados do ácido quínico (as lactonas quinídeos). Estes derivados produzem um potente efeito antagonista opióide, além de atuarem inibindo o transporte da adenosina no cérebro, protegendo-o dos efeitos da cafeína. Por isto, parecem ser até mais importantes do que a cafeína, pois estão presentes em maior quantidade do que ela tanto no grão como na bebida.

Por esta razão, o consumo regular e moderado de café, na dose de três a quatro xícaras diárias, exerce um efeito profilático sobre a depressão e o consumo de drogas como o álcool, dois grandes problemas da atualidade que podem ser prevenidos. Mas, embora o café seja um produto natural e não cause doenças em pessoas saudáveis, quando consumido de forma diária e mesmo moderada (até quatro xícaras diárias, sendo que para crianças é recomendado preferencialmente com leite), pode causar efeitos indesejáveis em algumas pessoas.

Existem alguns que naturalmente não gostam de café, uma questão pessoal, mas também existem pessoas normais e saudáveis que são mais sensíveis aos efeitos de um dos compostos do café, a cafeína, podendo apresentar ansiedade, tremores, insônia e até um quadro de pânico. Quando consumido à noite, o café pode prejudicar o sono da maioria dos usuários, sendo, por isto, uma bebida diurna. Ingerido com moderação, o café não causa doenças em pessoas normais e saudáveis, da infância à velhice.

Há crenças infundadas de que o café tinge os dentes, mas ninguém fica com o café quente na boca, pois o bebe rapidamente. E ninguém tem os dentes vermelhos por consumidor tomates. O café também não interfere na absorção e no metabolismo do cálcio, um dos mais sofisticados do corpo humano. Mas pessoas com doenças como gastrite, doença do refluxo gastroesofágico, úlcera péptica, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno do pânico, palpitações devido a arritmias cardíacas, hipertensão arterial ou doença isquêmica do coração devem ter cuidado no consumo de café, pois há riscos de agravar os sintomas ou a doença, principalmente se a ingestão for excessiva. Por isto, toda pessoa que possua qualquer doença mental, cardíaca, gástrica ou outras deve consumir café com moderação e. preferencialmente. após ouvir os conselhos de seu médico. E, caso sinta qualquer intolerância ao café, deve parar de consumi-lo.

É importante lembrar que o café não é remédio, isto é, não cura doenças, mas pode ser um agente a mais na prevenção de várias doenças e problemas. E subprodutos do grão de café, como um produto fitoterápico, podem ser de utilidade para a prevenção e o tratamento de recidivas da depressão e drogadição entre pacientes acometidos destes problemas comuns, mas importantes na atualidade. Isto explica por que o “coffee break“ é a melhor parte de qualquer palestra e por que tomamos café durante toda nossa vida.

Darcy Roberto Lima
Doutor em Medicina (Ph.D.) e Pós-Doutorado em História da Medicina, Universidade de Londres, Inglaterra; Professor do Instituto de Neurologia Deolindo Couto, UFRJ.
www.cafeesaude.com.br

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