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Setembro 2007 - Ano 86 - Nº 823

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Em março deste ano já tivemos oportunidade de comentar que o mercado de café poderia ser influenciado por variáveis que, aparentemente, nada tinham a ver com seus fundamentos, pelo menos no curto prazo. A expectativa sinalizada pelo mercado futuro na época já era (e ainda é) de que em 2007 os preços do café, em dólares, ficassem acima dos preços de 2006, tendo em vista uma safra menor, devido ao ciclo de produção bienal do café. Mas, aos produtores, o que interessa mesmo são preços em reais. Vão estar melhores do que em 2006?

Deixando de lado questões de natureza climática, a resposta a essa pergunta vai depender do comportamento de outra variável com a qual se defrontam os produtos de exportação, o dólar, também sujeito às leis de mercado. Em 2004, em dólares, os preços do café aumentaram 70%; em reais, entretanto, o incremento foi de 20%. Entre julho de 2006 e julho de 2007, o preço do café tipo 6 - bebida duro para melhor variou 26,7% em dólares (de US$ 100,8/saca para US$ 127,8/saca) e 9,6% em reais (de R$ 219,4/saca para R$ 240,5/saca). Esses dados mostram que não há correlação entre dólar e café, uma vez que os fatores que determinam o valor da mercadoria são diferentes dos do dólar. Por outro lado, aumentaram os custos de produção, apesar da busca por aumento de produtividade através do café adensado.

Taxa de câmbio é um parâmetro tão importante que tem sido utilizado em muitos países como instrumento para subsidiar exportações. Países que optaram pela industrialização para gerar renda e emprego, mas que não dispunham de mercado interno para produção em escala, foram buscar essa escala no mercado externo, valendo-se de uma taxa de câmbio artificialmente desvalorizada. São exemplos Coréia do Sul e China, esta ainda persistindo na prática, a despeito de seu baixíssimo custo para produzir.

No Brasil, o câmbio tem sido motivo de discussões e polêmicas no contexto macroeconômico. Isso já vem de longe. À época da transição FHC/Lula, por exemplo, o valor das exportações nem conseguia cobrir nossos compromissos externos (importações, juros e amortizações de financiamentos), gerando rombo de alguns bilhões de dólares, conhecido como déficit nas transações correntes (quase US$ 2,0 bilhões em 2002). Com as exportações brasileiras ganhando novos mercados, puxadas pelo crescimento mundial, teve início o processo de redução de nossa dívida externa, que juntamente com a dívida interna (esta ainda preocupante) tiravam o sono das autoridades monetárias. Pois foi com a alta do dólar, em 1999, e durante o período de incertezas políticas (antes e após a eleição de 2002), que teve início a recuperação das nossas contas externas. O agronegócio em geral, e o café em particular, foi um dos que mais contribuiu para a geração de saldos positivos na balança comercial. O valor da moeda americana chegou a atingir R$ 4,00 em 2002, permanecendo em nível elevado durante todo ano de 2003 (média acima de R$ 3,00) e tornando bastante competitivos nossos produtos de exportação.

Aumento das Exportações

Mas o fator mais importante para o aumento das exportações foi a alta nos preços das commodities no mercado mundial, no início de 2003, puxada pelo crescimento dos países emergentes asiáticos, sobretudo a China. A conjunção desses dois fatores (câmbio e alta das commodities) é que provocou a reversão nas contas externas do Brasil, transformando o que até então era déficit em superávit. Conseqüentemente, entre 2003 e 2006, a soma acumulada do superávit alcançou US$ 43 bilhões e a dívida externa do País foi reduzida de US$ 211 bilhões para US$ 169 bilhões. Não fosse o câmbio, os produtores de café teriam amargado uma situação mais grave ainda em 2002 e 2003, anos bastante desfavoráveis à nossa cafeicultura em período recente.

Com essa trajetória, não foi nenhuma surpresa o fato de o dólar ter rompido a barreira de dois reais no dia 15 de maio. Mas como se comportará o câmbio daqui para frente? Para a cadeia do café esse tipo de preocupação se justifica mais ainda, porque no mercado internacional sua cotação é dada em dólares.

Um bom sinalizador do dólar e do preço do café é o mercado futuro. O café foi negociado, em 31/7/2007, a US$ 148,45 a saca para entrega em setembro de 2008, na BM&F, enquanto o dólar futuro foi negociado a R$ 1,973 para aquela data, ou seja, a R$ 292,90/saca. Esse é o valor que o produtor deve avaliar se cobre seus custos de produção e sua margem de lucro. Se cobrir, ele deveria fazer o hedge (seguro de preço) do café e do dólar no mercado futuro, fixando assim o seu preço em reais.

Apresentamos a seguir os principais fatores que têm contribuído para valorização da nossa moeda e possíveis cenários para o médio prazo, com o objetivo de visualizar as alternativas para o mercado de café.

– Sucesso continuado nas exportações. Esse fator, de longe, é um dos responsáveis pela apreciação do real. Foi ele que nos permitiu acumular reservas que já ultrapassam US$ 153,00 bilhões, valor que já supera a nossa dívida externa de curto e médio prazos. Embora alguns analistas alertem para o fato de que períodos de bonança e retração estão sempre se alternando (não acontece só com o café), a expectativa ainda é de otimismo. Acredita-se que devem permanecer ainda por algum tempo as condições favoráveis para o crescimento da economia mundial, puxado pelos Estados Unidos e pelos países emergentes asiáticos (liderados pela China), assim como pela Europa (principalmente Alemanha) e Japão.

– Juros reais elevados. A atração exercida pelos juros reais internos sobre os capitais estrangeiros ainda é forte. Mesmo com a queda dos últimos meses, os juros reais (descontada a inflação) ficaram próximos de 8%, contra uma média mundial da ordem de 2,4%. No entanto, mais importante do que o tamanho dos juros em si, é a diferença entre a taxa praticada no Brasil (taxa Selic) e os juros do tesouro americano (tomados como referência) acrescidos do risco-país. É essa diferença que tem explicado a entrada de capital buscando os ganhos de arbitragens. Alguns atribuem ao fluxo desses capitais maior importância do que a dos superávits comerciais na valorização do real. Em julho de 2007, as entradas de dólares no Brasil pelo financeiro (investimentos, empréstimos e outras operações) somaram US$ 33,779 bilhões e as saídas, US$ 27,684 bilhões. As exportações, em julho, somaram US$ 14,12 bilhões e as importações, US$ 10,773 bilhões. Os impactos dos juros e do câmbio na economia, como quebra de empresas, desemprego em alguns setores e inibição da pesquisa científica e tecnológica, são por demais conhecidos por todos. Por outro lado, entretanto, câmbio valorizado provoca, também, o barateamento das importações e o aumento do poder de compra dos salários.

– Redução do risco-país. É inegável que houve melhora nos fundamentos de nossa economia, com a inflação sob controle, redução da dívida externa, aumento das reservas etc. A percepção no exterior dessa melhoria leva a uma redução do risco-país, que já foi no passado de 24 pontos percentuais (ou seja, 24 pontos percentuais acima dos títulos americanos) e que hoje está em menos de 2 pontos. Quanto menor o risco-país, maior atração que exerce a entrada de moeda estrangeira. Deve-se mencionar, entretanto, que embora o Brasil esteja perto de conseguir o chamado “grau de investimento”, desde o início de 2005 já havia investidores internacionais dispostos a aceitar taxa de risco de curto prazo de 1,5% a 2,0% no País.

– Crescimento da economia mundial. Muitos especialistas acreditam que esse crescimento deva continuar por uns dois anos ainda. Caso seja confirmada (projeção é sempre arriscada), a demanda por commodities no mundo continuará forte, resultando em mais entrada de divisas. O crescimento da China não é mais visto com desconfiança, mas como uma política firme de governo, decidida a reduzir o número de pessoas que ainda lá vivem em condições muito precárias (cerca de 800 milhões). Entretanto, nunca é demais ficar atento ao alerta feito por William Rhodes, do Citibank, quanto ao exacerbado otimismo sobre o futuro da economia mundial: “... em algum lugar no futuro vai ocorrer um ajuste nos mercados”. É bom frisar que esse tipo de alerta tem sido repetido com certa freqüência por outros analistas, preocupados principalmente com as distorções no mercado imobiliário americano e possíveis repercussões econômicas num mundo globalizado. Há, também, a possibilidade de ocorrer um arrefecimento da pressão deflacionária das exportações chinesas que possa comprometer o crescimento do PIB mundial sem inflação.

– Desvalorização do dólar no mundo. Esse processo, decorrente da alta liquidez internacional em dólares e do elevado déficit nas contas externas dos Estados Unidos, tem sido decisivo na valorização do real. A solução do déficit americano passa inexoravelmente pela desvalorização de sua moeda frente às principais moedas como o euro, franco e ien. Em relação ao euro, por exemplo, o dólar teve uma desvalorização superior a 7% quando comparado com a paridade de um ano atrás; já o real, só neste ano teve uma valorização de cerca de 10%. Na América do Sul, esse fenômeno vem sendo observado também na Colômbia, Chile e Peru.
Diante do exposto, o que pode ser feito para mitigar os efeitos do câmbio e juros? Quando se olha para o cenário externo, vê-se que a situação está fora do controle de qualquer nação em desenvolvimento. Como contornar, por exemplo, o excesso de liquidez existente no mundo? Seria possível uma outra alternativa para a política americana, em sua meta de redução dos déficits em transações correntes, que não a desvalorização do dólar? E o problema da bolha imobiliária, uma ameaça constante não só para a economia americana, mas também para o equilíbrio econômico de outros países? E quanto à China, seria possível o governo reduzir seu crescimento, hoje de 12% anuais, a fim de diminuir sua demanda por commodities? (lembrar que, no caso do café, as expectativas são de triplicação do consumo nos próximos 10 anos. Isso é má notícia?!).

Tendo em vista que as importações começam a crescer mais rapidamente do que as exportações, a perspectiva para 2008 é de um menor superávit comercial, com o dólar voltando aos níveis próximos de R$ 2,00, como já está precificado no mercado futuro. Mas câmbio valorizado põe em relevo também os demais problemas da economia brasileira, conhecidos como “custo Brasil”: elevados custos tributários, que incidem sobre toda cadeia, bem como custos logísticos (transporte e portuários) e burocráticos que continuam dificultando a vida de quem se propõe a produzir bens e serviços. Assim sendo, levando em conta esses cenários, o que pode ser feito para melhorar a sustentabilidade econômica da cafeicultura?

Além de produtos diferenciados (como os cafés especiais) e a redução de custos, os produtores estão buscando melhorar a gestão da comercialização e do risco de preço, utilizando mais os instrumentos de futuros e opções de café e dólar. Do lado da indústria, o Instituto de Economia Agrícola (IEA) fez uma pesquisa abrangendo a indústria de café torrado e moído no Brasil. O estudo mostrou que temos uma indústria dinâmica, bem sintonizada com as novas tecnologias desenvolvidas no exterior, mas que precisa fazer ajustes para o atendimento do consumidor em termos de produto de qualidade.

Vale lembrar que o melhor antídoto contra uma taxa de câmbio valorizada é o uso da tecnologia. Como fonte de inspiração para produtores e industriais do agronegócio café, podemos citar a Alemanha e o Japão, cujos anos mais agressivos de suas exportações ocorreram na década de 70, apesar da valorização de suas moedas. Esse crescimento é atribuído ao desenvolvimento tecnológico de ambos os países. Mas claro que medidas institucionais devem ser implementadas pelo governo para que a maturidade tecnológica possa se tornar uma realidade em todos os elos da cadeia.

Luiz Moricochi
Ex- pesquisador científico do IEA/APTA- Instituto de Economia Agrícola/Agência Paulista de Tecnologia do Agronegócios e Consultor

Felix Schouchana
Diretor da BM&F - Bolsa de Mercadorias &Futuros

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