Nestes
últimos anos, com a trajetória de queda
na volatilidade dos ativos financeiros, abundância
na liquidez mundial e, principalmente, preocupação
ambiental, houve um aumento na participação
e no interesse dos fundos de investimentos pelo mercado
de commodities. Esta mudança tem ocorrido não
só nas Bolsas internacionais como também
no mercado doméstico.
Se existe hoje um fato novo no mercado de commodities
é o grande interesse de investidores “financeiros”
em atuar nestes mercados, acreditando na expansão
da demanda mundial, sobretudo dos mercados emergentes,
asiáticos e europeus, além da introdução
dos bio-combustíveis na matriz energética
e de produção agrícola internacional.
Esta transformação foi observada com
maior intensidade nos últimos cinco anos. Nas
poucas vezes em que fui procurado para falar de commodities
para fundos de investimentos, a principal preocupação
era o impacto das tendências de preços
na inflação. Agora é comum e
rotineiro a procura pelos fundos e bancos interessados
em montar posições estratégicas
e aumentar a exposição nos mercados
de commodities como forma de investimento, buscando
melhorar o resultado de suas carteiras.
Esta crescente participação pode ser
observada no aumento dos contratos abertos: no mercado
de café, por exemplo, o número de contratos
saiu de aproximadamente 68.000 no início de
2003 para 175.000 em julho deste ano. Este movimento
fez com que o mercado de café deixasse de responder
apenas aos fundamentos da própria commodity
e passasse a estar muito mais dependente do cenário
macroeconômico como um todo e até mesmo
de movimentos técnicos de mercado, em que nada
está relacionado ao café. Um exemplo
claro desta nova dinâmica foi observado no dia
16 de agosto, quando o Banco Central europeu interveio
no mercado interbancário (provendo liquidez
a alguns bancos), o que gerou pânico nos mercados,
provocou grande queda nas Bolsas mundiais e levou
também o preço do café a uma
queda significativa, de 6%.
Nossa perspectiva para o cenário externo é
de contágio da crise do setor imobiliário
americano para o setor real da economia. No entanto,
apesar de existir de fato a possibilidade de uma desaceleração
mais forte da economia americana, a avaliação
de certa forma consensual entre os economistas é
de que, a partir de agora, entramos em um novo momento
para os mercados financeiros.
Haverá, sem dúvida, mais volatilidade;
os investidores serão mais seletivos quanto
aos ativos a que ficarão expostos. A economia
americana deve continuar a crescer, mas a uma taxa
bem menor do que a taxa potencial devido, principalmente,
à queda do consumo do americano. A economia
européia deve crescer de forma moderada e as
economias asiáticas devem continuar a mostrar
crescimento robusto. Este cenário corrobora
a perspectiva de que os preços das commodities
podem até cair um pouco, mas devem permanecer
em um patamar razoável.
O Brasil, devido à excelente dinâmica
da economia interna, poderia conseguir passar por
esta turbulência quase que ileso. O fluxo de
capital pode permanecer volumoso, dado a continuidade
do superávit comercial, dos investimentos diretos
no País e do fluxo financeiro para Bolsa, já
que em um mundo mais seletivo as empresas brasileiras
devem ser destaque por apresentarem perspectivas positivas
e consistentes. Mas o risco de contágio está
sempre presente...
Desta forma, acreditamos que o mercado de café
deverá manter a alta volatilidade e o trader
de café deverá continuar atento não
só aos fundamentos do café – como
safra, consumo, estoque, clima etc. –, mas também
a fatores macroeconômicos, como o comportamento
do consumidor norte americano, inflação
da China, dinâmica da economia doméstica
e outros.
E pensar que o produtor de café, trabalhador
de sol a sol, teria que pensar que a inflação
na China poderia influenciar nos preços de
sua produção... Então viva a
globalização!
Mario
Frioli
Diretor de Commodities da Link Investimentos |