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Setembro 2007 - Ano 86 - Nº 823

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Nestes últimos anos, com a trajetória de queda na volatilidade dos ativos financeiros, abundância na liquidez mundial e, principalmente, preocupação ambiental, houve um aumento na participação e no interesse dos fundos de investimentos pelo mercado de commodities. Esta mudança tem ocorrido não só nas Bolsas internacionais como também no mercado doméstico.

Se existe hoje um fato novo no mercado de commodities é o grande interesse de investidores “financeiros” em atuar nestes mercados, acreditando na expansão da demanda mundial, sobretudo dos mercados emergentes, asiáticos e europeus, além da introdução dos bio-combustíveis na matriz energética e de produção agrícola internacional.

Esta transformação foi observada com maior intensidade nos últimos cinco anos. Nas poucas vezes em que fui procurado para falar de commodities para fundos de investimentos, a principal preocupação era o impacto das tendências de preços na inflação. Agora é comum e rotineiro a procura pelos fundos e bancos interessados em montar posições estratégicas e aumentar a exposição nos mercados de commodities como forma de investimento, buscando melhorar o resultado de suas carteiras.

Esta crescente participação pode ser observada no aumento dos contratos abertos: no mercado de café, por exemplo, o número de contratos saiu de aproximadamente 68.000 no início de 2003 para 175.000 em julho deste ano. Este movimento fez com que o mercado de café deixasse de responder apenas aos fundamentos da própria commodity e passasse a estar muito mais dependente do cenário macroeconômico como um todo e até mesmo de movimentos técnicos de mercado, em que nada está relacionado ao café. Um exemplo claro desta nova dinâmica foi observado no dia 16 de agosto, quando o Banco Central europeu interveio no mercado interbancário (provendo liquidez a alguns bancos), o que gerou pânico nos mercados, provocou grande queda nas Bolsas mundiais e levou também o preço do café a uma queda significativa, de 6%.

Nossa perspectiva para o cenário externo é de contágio da crise do setor imobiliário americano para o setor real da economia. No entanto, apesar de existir de fato a possibilidade de uma desaceleração mais forte da economia americana, a avaliação de certa forma consensual entre os economistas é de que, a partir de agora, entramos em um novo momento para os mercados financeiros.

Haverá, sem dúvida, mais volatilidade; os investidores serão mais seletivos quanto aos ativos a que ficarão expostos. A economia americana deve continuar a crescer, mas a uma taxa bem menor do que a taxa potencial devido, principalmente, à queda do consumo do americano. A economia européia deve crescer de forma moderada e as economias asiáticas devem continuar a mostrar crescimento robusto. Este cenário corrobora a perspectiva de que os preços das commodities podem até cair um pouco, mas devem permanecer em um patamar razoável.

O Brasil, devido à excelente dinâmica da economia interna, poderia conseguir passar por esta turbulência quase que ileso. O fluxo de capital pode permanecer volumoso, dado a continuidade do superávit comercial, dos investimentos diretos no País e do fluxo financeiro para Bolsa, já que em um mundo mais seletivo as empresas brasileiras devem ser destaque por apresentarem perspectivas positivas e consistentes. Mas o risco de contágio está sempre presente...

Desta forma, acreditamos que o mercado de café deverá manter a alta volatilidade e o trader de café deverá continuar atento não só aos fundamentos do café – como safra, consumo, estoque, clima etc. –, mas também a fatores macroeconômicos, como o comportamento do consumidor norte americano, inflação da China, dinâmica da economia doméstica e outros.

E pensar que o produtor de café, trabalhador de sol a sol, teria que pensar que a inflação na China poderia influenciar nos preços de sua produção... Então viva a globalização!

Mario Frioli
Diretor de Commodities da Link Investimentos

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