Débitos
dos produtores do café chega a R$ 1 bilhão.
Inadimplência é mais alta em empréstimos
de maior saldo.
O endividamento dos cafeicultores brasileiros se aproxima
da casa do R$ 1 bilhão e, para evitar aumento
dos calotes nas operações correntes,
o governo federal anunciou no mês passado um
conjunto de medidas para incentivar o pagamento de
dívidas passadas com descontos e, em alguns
casos, mais prazo. Até 31 de agosto de 2007,
existiam 25.015 contratos com recursos do Funcafé
(Fundo de Defesa da Economia Cafeeira), o que representa
um débito de R$ 953,851 milhões. Do
total de operações, 4.816 estavam inadimplentes
ou R$ 333 milhões, sendo que R$ 188,6 milhões
estão vencidos.
O secretário-adjunto de Política Econômica
do Ministério da Fazenda, Gilson Bittencourt,
explicou que a renegociação das dívidas
dos cafeicultores envolve contratos securitizados
na década de 90 e operações no
âmbito do Funcafé, cujos vencimentos
ocorrem em 2014. Neste caso, o valor total do financiamento
(inclui dívida passada e futura) será
distribuído por um prazo maior, ou seja, 2018.
A idéia, conforme Bittencourt, é dar
condições para que os agricultores possam
pagar suas dívidas passadas em um ano no qual
as expectativas são de crescimento econômico,
com recuperação de preços e renda.
Perfil
da Dívida
Segundo Bittencourt, assim como acontece na maioria
dos programas que entraram no processo de renegociação,
o endividamento dos cafeicultores brasileiros está
concentrado em operação de baixo valor,
ou melhor, até R$ 50 mil. Esses financiamentos
são responsáveis por 77% dos contratos
e 34% do débito total. Já as pessoas
com dívidas acima de R$ 500 mil correspondem
apenas a 0,46% dos contratos e 16% do saldo devedor
total. Normalmente, conforme o secretário-adjunto
de Política Econômica, a inadimplência
é maior justamente nos empréstimos de
montantes mais elevados. Para pessoas com dívidas
de até R$ 10 mil, a taxa de inadimplência
é de 10,3%. Nos casos dos produtores com dívidas
entre R$ 100 mil e R$ 500 mil, o default salta para
35,9%. Considerando apenas os grandes devedores —
débitos acima de R$ 500 mil — a situação
é mais preocupante pois chega a atingir 61,4%
dos contratos. A seguir, trechos da entrevista com
o secretário de Política Econômica,
Gilson Bittencourt:
RC
- Qual o foco desta renegociação?
Gilson Bittencourt - Desta vez, não
estamos mexendo com operações correntes
do crédito e sim tentando solucionar ou reduzir
problemas de operações antigas. Nas
renegociações anteriores, em que simplesmente
se ofereceu mais prazo, além de aumentar os
custos da União, se dava mais liquidez para
o setor, que fazia mais investimentos. Investimento
é fundamental, mas é preciso ter um
limite em relação à expectativa
de renda. Hoje se analisarmos os vencimentos que ocorrerão
entre 2008 a 2012, veremos que foram dívidas
contraídas entre 2004 e 2006. Provavelmente
em 2013, teremos as dívidas que foram contratadas
em 2008. É preciso termos estabilidade na concessão
dos financiamentos. Toda vez que se dá muito
prazo para pagar a dívida antiga, os produtores
ganham liquidez e contraem novas dívidas.
RC
- Então são os contratos feitos nos
anos 80 e 90?
GB - Isso mesmo. Envolvem operações
do Funcafé Dação, a securitização
I e II, o Pesa (Programa Especial de Saneamento de
Ativos), o Recoop (Programa de Revitalização
de Cooperativas de Produção Agropecuária)
e o Cacau. Daremos um grande desconto para quem estiver
adimplente liquidar o débito. Para os inadimplentes,
primeiro daremos condições dele voltar
à adimplência e, a partir daí,
concederemos desconto. O objetivo é limpar
um pouco as dívidas passadas. Somente depois
disso, poderemos discutir as dívidas presentes,
que são menos problemáticas. Esperamos
que as ações como a criação
de seguro de produção e garantia de
preços possam reduzir as renegociações
no futuro.
RC
- Se não houvesse mudança nos juros,
ficaria mais difícil para os agricultores pagarem
suas dívidas já que os encargos hoje,
por conta das sucessivas reduções das
taxas no ano passado, são menores do que no
período em que os contratos foram firmados?
GB - Esse é um dos motivos
para não termos dado carência na proposta
de renegociação. Estamos em um ano bom
para agricultura brasileira. É claro que tem
um setor ou um produto ou outro de determinado estado
que passa por dificuldade, mas do ponto de vista geral
a produtividade é boa. Nos últimos anos,
a produção agrícola do país
foi boa. Os preços estão mais razoáveis,
especialmente este ano.
RC
- Especificamente no caso do café, o que está
sendo feito?
GB - Primeiro, existem operações
de café que foram securitizadas e a maior parte
do Funcafé foi renegociada no âmbito
do Funcafé Dação. No caso da
securitização, será obedecido
o parâmetro geral estabelecido. Existem R$ 240
milhões com risco do Funcafé que estão
na securitização II. Esses débitos
tiveram, em 2001, os benefícios renegociados
até 2025 e vão poder, inclusive, pagar
com os descontos. Já a maior parte, que corresponde
à cerca de R$ 1 bilhão, se trata de
operações que estão renegociadas
no âmbito do próprio Funcafé cujos
vencimentos encerram em 2014. No caso da securitização,
como já disse, os benefícios são
iguais para todos, ou seja, os descontos proporcionais
para o saldo devedor, entre 2008 e 2010, para quem
liquidar completamente a dívida.
RC
- Como fica no caso do Funcafé?
GB - No caso do Funcafé, substituímos
a taxa de juros Selic para correção
do débito em inadimplemento. Agora será
assim: quem estiver inadimplente corrigirá
o valor da dívida pela taxa de inadimplemento,
ou seja, 5,75% ao ano até a data do vencimento
da prestação. Já da data do vencimento
até a da renegociação, será
utilizado o IPCA (Índice de Preços ao
Consumidor Amplo) mais 6%. Pelo contrato ele corrigiria
o débito a 9,5% até a data do vencimento,
já que está inadimplente, e depois embutiria
a Selic mais 1%. Só nesta conta, o agricultor
terá um ganho significativo. Uma vez atualizado
o saldo vencido, permitimos o produtor somar todo
o saldo (débito vencidos e a vencer) e distribuí-lo
entre os anos 2008 até 2018. O governo está
dando quatro anos a mais para pagamento.

RC
- Porque substituir a taxa de inadimplemento pelo
IPCA? O índice de preços do IBGE retrata
melhor a realidade da economia brasileira do que a
Selic?
GB - Sim. Em muitos casos, a Selic
foi, principalmente nos anos em estava acima de 20%,
um peso forte na dívida. Tenho um levantamento
que mostra que, em até três anos, essa
diferença (entre Selic e IPCA) alcançou
25% para baixo. Nesse último ano, se pegarmos
a Selic mais 1% e IPCA mais 6%, a diferença
chega a aproximadamente 1%. Estamos dando um benefício
ao agricultor.
RC
- As dívidas estão concentradas nos
grandes e médios por isso as taxas mais baixas
são cobradas dos produtores com dívidas
menores?
GB - São vários os
motivos. Em termos de números, quem deve mais
são os que têm dívidas menores.
Mas em nossos estudos nós não separamos
por tamanho de produtor, mas sim pelo tamanho da dívida.
Os que devem menos são muitos. É a maioria.
Em geral de 50% a 60% dos produtores devem até
R$ 50 mil. São poucos os que devem muito. Apesar
disso, o saldo desses poucos é o mais significativo.
Do ponto de vista de gestão pública
e de custo, para eu manter uma dívida que foi
prorrogada por até 25 anos, tenho um custo
de oportunidade do dinheiro – cerca de 3% ao
ano – e capto pagando Selic. O custo de cada
ano que é a diferença entre o custo
de oportunidade e a Selic.
RC
-Entre os cafeicultores, a maior parte do endividamento
está concentrada em dívidas de baixo
valor?
GB - Sim. As operações
estão concentradas na faixa do saldo devedor
até R$ 50 mil, que são responsáveis
por 77% dos contratos e 34% do saldo devedor. As operações
com saldo devedor superior a R$ 500 mil, 114 contratos,
representam 0,46% dos contratos e 16% do saldo devedor
total.
RC
- Quanto é a dívida total dos agricultores
hoje?
GB - O sistema financeiro destina
a cada ano entre R$ 40 bilhões e R$ 50 bilhões
para a agricultura. Mas boa parte disso é custeio,
aquele que usei hoje para plantar e o produto pode
estar na lavoura ou no armazém. Isso é
endividamento? Nós entendemos que não
porque o agricultor está com o produto e ainda
vai vendê-lo para quitar a dívida. É
o teu giro normal. Por isso, acreditamos que o total
de financiamentos deve estar na casa dos r$ 130 bilhões.
Retirando os empréstimos para custeio, vou
chegar a uma dívida de cerca de R$ 87 bilhões.
Dentro desses R$ 87 bilhões, tem um conjunto
de dívidas que são investimentos normais
(R$ 37 bilhões). Se eu reduzo isso, a dívida
cai para R$ 50 bilhões. Desse valor, algo em
torno de R$ 11 bilhões são investimentos
financiados pelos fundos constitucionais. Como não
considero investimento como endividamento, o débito
agrícola cai para R$ 40 bilhões, sendo
que R$ 27 bilhões são dívidas
contraídas entre os anos 80 e 90. Em alguns
casos prorrogados por três anos e em outros
por já prorrogados por 25 anos como acontece
na securitização.

RC
- Mas o governo não renegociou toda a dívida
de R$ 87 bilhões?
GB - Não. Separamos os R$
87 bilhões em bloco. Primeiro tratamos das
dívidas antigas, oferecendo tratamento diferenciado
para adimplementes e inadimplentes. Para isso, teremos
R$ 20 bilhões. Depois, focados em uma parcela
de agricultores com dívidas antigas e estão
inadimplentes. São mais R$ 9 bilhões,
sendo que parte disso poderá ser incorporado
para concessão de descontos. Mas antes de ter
o desconto, há uma atualização
dos débitos. Outros R$ 13 bilhões serão
utilizados para cobrir redução de juros
e a concessão de prazos. Então R$ 56
bilhões dos R$ 87 bilhões poderão
ter algum tratamento.
RC
-Qual é o tratamento dado para os produtores
de café?
GB - No Funcafé, o agricultor
terá benefícios para voltar à
adimplência. São cerca de R$ 200 milhões
de inadimplência. Se somarmos adimplentes e
inadimplentes, esse valor chega R$ 1 bilhão.
E esses devedores poderão contar com descontos
para pagar ou ter mais prazo.
RC
- Nos últimos 30 anos, o governo tem feito
sucessivas renegociações de dívidas
com os agricultores. O que há de diferente
desta vez?
GB - É importante entender
que a atividade agrícola envolve risco. Seria
presunção dizer que em um processo de
renegociação se resolverão todos
os problemas e que eles não se repetirão
no futuro. Os riscos podem ser desde fatores climáticos
e sanitários ou relacionados a preços.
Uma diminuição brusca dos preços
impacta na renda do agricultor que poderá ter
dificuldades para saldar suas dívidas.
RC
- O que poderia ser feito para diminuir as renegociações
das dívidas ao longo dos anos?
GB - Existem alguns mecanismos que
ainda estamos pensando com um pouco mais de calma
para implementar. Mas não são fáceis.
São instrumentos que garantem equilíbrio
na renda dos produtores, ou seja, seguros de produção
para casos de frustração de safra ou
de garantia de preços para situações
de baixa significativa dos valores dos produtos. Com
isso, os agricultores têm uma compensação
das perdas e poderão ter minimamente um equilíbrio
de renda ao longo dos anos.
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