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Março 2008 - Ano 87 - Nº 825

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O 9º Simpósio Nacional do Agronegócio Café – Agrocafé, iniciativa da Associação de Produtores de Café da Bahia, foi aberto pelo presidente da entidade Silvio Leite, com a participação de mais de 500 pessoas, entre produtores, pesquisadores, técnicos e representantes dos exportadores, das indústrias e de políticos envolvidos com o setor, confirmando a sua condição de principal evento da cafeicultura nacional. Realizado no Hotel Pestana Bahia, em Salvador, o evento teve como tema central a questão da Sustentabilidade Econômica da Cafeicultura – É viável a produção de café no Brasil?

Durante a solenidade de abertura, o presidente Sílvio Leite, convocou todos os participantes a definir as linhas para o futuro do setor. “A nossa realidade é a de preços bons e lucratividade péssima. Neste cenário, qual caminho nós temos? Onde queremos chegar? Então, vamos traçar nossas linhas de ação. Linhas que podem ser readequadas, mas que solidificam nossa busca”.

O superintendente da Secretaria de Agricultura do Estado da Bahia, Eujácio Simões, destacou os importantes avanços tecnológicos do setor, ressaltando os investimentos programados pelo Governo do Estado para elevar a produtividade e a qualidade do café baiano. “Este é um momento marcante para que possamos traçar os melhores caminhos para avançar no mercado internacional. Já estamos avaliando as necessidades de infra-estrutura e de logística para reduzir os preços da produção e aumentar a produtividade dos cafeicultores”, revelou.

Representando o Governador Jaques Wagner, o secretário de Desenvolvimento Regional, Edmon Lucas, avaliou o 9º Agrocafé como um importante fórum, por meio do qual os técnicos e produtores de café possam expor as necessidades do setor para o governo. “Queremos saber de tudo que vai ser discutido aqui para fazermos nossas propostas. Precisamos conhecer as demandas do setor para assegurarmos melhores condições a todos, principalmente, possibilitando melhorias nas condições de vida dos pequenos produtores”.

Rubens Barbosa vê o Brasil preparado para as turbulências

Para o embaixador Rubens Barbosa, que durante cinco anos foi presidente da APPC – Associação dos Países Produtores de Café (1994-1999), em Londres, a atual crise financeira mundial, gerada há cerca de dois anos pela ‘bolha’ imobiliária nos Estados Unidos, gerou uma desaceleração da economia, e não uma recessão. “Acredito numa desaceleração rápida da economia norte-americana e este ano o crescimento deve ficar entre 1% e 2%. Mas o Brasil está melhor preparado para enfrentar esta turbulência”, disse, acrescentando que o País vive uma situação muito melhor que a vivida nos anos 90.

Barbosa analisou o tema “O Brasil e o Mercado Internacional do Café” sobre quatro aspectos: tendências da economia do mercado agrícola mundial; mercado global e Brasil; a questão da sustentabilidade; e a questão da renda do produtor. Ao seu ver, o grande desafio do cafeicultor é manter a venda estável, as vantagens competitivas, e focar mais os custos do que os preços.

“Como é que o produtor vai reduzir seu custo além do que já está fazendo com aumento da produtividade, tecnologia?” questionou, respondendo que a redução do custo do produtor vem da maior racionalização da infra-estrutura, do transportes, da parte fiscal, da legislação, da melhor maneira de tributação social, pelo preço dos fertilizantes e, também, no caso dos produtores, de uma redução das taxas de juros e pela mudança na questão do câmbio.

Rubens Barbosa lembrou diversas conquistas dos produtores e da cadeia café nos últimos anos, citando entre os exemplos o fato do produtor brasileiro ter criado condições para capturar uma grande parte, cerca de 90%, do preço FOB das exportações. “Nenhum outro país do mundo, do setor cafeeiro, conseguiu isso. O Brasil fez grandes avanços na comercialização: foi criada a Cédula do Produtor Rural, a CPR, que tem permitido aos cafeicultores diversificar suas estratégias de vendas e financiamento, pois antes eram ‘prisioneiros’ do preço spot”.

Lideranças discutem cenário externo e alternativas

Discussões sobre a cotação do dólar, a adoção de subsídios governamentais e alternativas para melhorar a renda do produtor dominaram a o painel de abertura do 9º Agrocafé. O economista Fábio Knijnik, do banco Espírito Santo, iniciou os trabalhos chamando atenção para o fato de que a moeda norte-americana dificilmente voltará ao patamar de R$ 2, apesar da previsão de acréscimo na taxa básica de juros da economia brasileira já sinalizada pelo Banco Central (BC). “O BC tem se mostrado preocupado com a perspectiva de inflação. Os ciclos anteriores de aumento por conta da crise cambial fizeram a Selic crescer nove pontos percentuais. Em 2004, a taxa subiu quatro pontos percentuais. Os juros subirão no primeiro semestre, mas não deve ser nada desta magnitude”, prevê Knijnik, que afirmou também “que o produtor não deve se preocupar com um cenário onde o dólar deve flutuar entre R$ 1,75 a R$ 1,80. Uma das maneiras de se lidar com os riscos cambiais, é buscar a proteção dos instrumentos derivativos do mercado financeiro. “Não pensar nisto é uma atitude de especulação. Câmbio é algo extremamente importante, mas muito difícil de prever”.

QUEIXAS – O cafeicultor Gilson Ximenes, presidente do Conselho Nacional do Café (CNC), mostrou-se profundamente preocupado com a política cambial brasileira, apontada por ele como uma das principais ameaças à sustentabilidade do negócio. Ele atribui a manutenção do preço atual do café, ao redor de US$ 1,60 por libra peso na Bolsa de New York, ao cenário de escassez do produto. De 1980 a 2007, o faturamento do agronegócio mundial saltou de US$ 30 bilhões para US$ 80 bilhões, mas a fatia que fica com os produtores encolheu de US$ 9 bilhões para US$ 7,5 bilhões no mesmo período.

O presidente do CNC criticou também o fato de que todo o investimento tecnológico para aumento da produção, apesar da extinção dos marcos regulatórios do negócio na década de 1990, só beneficiou o consumidor. “O resultado disto é o maior nível de endividamento e inadimplência da cafeicultura brasileira. Um levantamento recente feito a pedido do governo federal indica que em Minas Gerais o volume de dívidas soma R$ 2 bilhões”, contabiliza Ximenes. Dentre as soluções apontadas por ele está o aumento do limite do crédito do custeio, limitado atualmente em R$ 200 mil por CPF. Em outras culturas, a exemplo do milho, o teto é de R$ 450 mil.

Para Guilherme Braga, diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), o desafio da sustentabilidade não envolve apenas a atenção ao produtor, mas a todos os segmentos da cadeia, que cumprem funções específicas e interdependentes. Em relação ao mercado internacional, destacou que os preços atuais do mercado, que resultam das altas expressivas nos últimos dias, com forte atuação dos Fundos, não obstante os fundamentos do café sejam positivos, na verdade, são decorrentes de fatores econômicos estranhos ao café, que estão ocorrendo simultaneamente em várias commodities, e podem trazer grande instabilidade ao mercado, inclusive com oscilações de baixas.

Braga também defendeu a adoção de mecanismos de natureza compensatória para atenuar os impactos da valorização cambial, como forma de evitar perdas de competitividade e de renda interna do setor.

VALOR – O empresário Mauro Malta, diretor executivo da Abics (Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel) chamou atenção do público participante do 9º Agrocafé para o fato de que o Brasil vem perdendo competitividade frente a outros países exportadores de café que mantém legislações menos rígidas no campo ambiental e trabalhista.

“A solução para reverter este quadro é agregar valor. Quanto mais tecnologia se utiliza para a produção de um bem, maior será o seu valor e maior será o número de pessoas empregadas na geração de renda”, detalha Malta.Como um exemplo bem sucedido desta estratégia ele cita uma marca de café solúvel lançado recentemente no Brasil pela multinacional Nestlé. “O Nespresso não é vendido em supermercados. A empresa fez isso para fugir dos supermercadistas, que sempre exigem preços mais baixos”, diz.

Natan Herszkowicz, diretor da Abic (Associação Brasileira da Indústria do Café), mostrou ao público as estratégias desenvolvidas pela instituição para estimular o consumo interno baseado em campanhas de qualidade e de sofisticação do produto café. “Nossa intenção é continuar estimulando a produção de cafés de melhor qualidade”, afirma Herszkowicz, que defende este alternativa como um vetor de geração de benefícios para toda a cadeia produtiva.

OTIMISMO - Otimista em relação à atualidade da cafeicultura brasileira, o pesquisador Celso Vegro, do Instituto de Economia Agrícola – IEA, apontou uma situação de custos de produção remuneradores nas últimas safras e melhoria da relação de trocas da cafeicultura como indicadores econômicos do fortalecimento do setor e de sua organização. “Hoje, temos um incremento de uma saca de café a cada três safras. Um índice que nenhum outro país do mundo consegue repetir. E isso se deve a fatores como produtividade casada com inovação, melhor uso da tecnologia de manejo, como adensamento, poda, colheita mecânica e irrigação”. Mencionou também “a queda da oscilação entre o maior e o menor preço oferecido por saca do produto como um dos fatores que podem elevar a rentabilidade dos produtores. “Dessa forma, o cafeicultor já não precisa mais ficar temeroso em relação ao melhor momento para vender sua safra. E isso é muito bom para a cafeicultura”.

Sem tanto entusiasmo em relação a este quadro, o presidente da Frente Parlamentar do Café, deputado Carlos Melles, apontou a limitação da oferta de café como possível saída para estabilizar a rentabilidade da cafeicultura no país. “Pela primeira vez na história o país não tem um estoque de café. E esta recomposição de estoque pode elevar a rentabilidade dos produtores”. Ele disse que o governo administra mal os estoques de café, por exemplo, vendendo os estoques antigos a preços em torno de US$ 30.00 a US$ 40.00. Elevando o tom do discurso, o deputado teceu duras críticas pela ausência de uma política efetiva para o setor cafeeiro. Para Carlos Melles, o Brasil precisa aderir à moda mundial de subsidiar o agronegócio. “E o Brasil vem brincando com a política agrícola”.

Também preocupado com a situação atual da cafeicultura brasileira, o consultor e produtor Luiz Hafers falou sobre “Soluções de Negócios para a Crise do Café”. Com declarações provocativas, Hafers considera a união entre todos os envolvidos na cadeia produtiva como uma das vias para elevar a rentabilidade do setor. “Precisamos trabalhar juntos com os torradores, com os exportadores, para chegarmos a soluções dos nossos problemas”. Segundo Hafers, o setor precisa estar atualizado com o cenário mundial, atendendo a demanda pelo produto brasileiro.

Cultura de café Conillon é promissora no Brasil

Coordenada pelo técnico Frederico Daher, do Cetcaf (Centro de Desenvolvimento Tecnológico do Café), o painel que abriu o último dia de atividades do Congresso debateu a produção do café conillon e contou com a participação de Dário Martinelli, também do Cetcaf, Aymberé Fonseca, do Incaper (Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural) e Carlos Brando, da P&A Marketing.

Responsável pelas primeiras produções de Conillon em escala comercial no país, Dário Martinelli apresentou as perspectivas para a espécie. O foco de sua palestra foi a produção no Espírito Santo, estado responsável pela maior fatia do produto no Brasil. Como informou o produtor, o estado saltou de uma produção de cerca de 2,5 milhões de sacas em 1999, para 7,5 milhões em 2007. “E o grande responsável por esta virada histórica no Espírito Santo foi o Incaper, que vem possibilitando novas tecnologias e adequando o planejamento da produção”, comentou. Estima-se que em 2010 a produção de Conillon, apenas no Espírito Santo, atinja o patamar de 10 milhões de sacas. Outros estados do Brasil devem responder por uma produção de mais cinco milhões de sacas. Convocando os presentes a refletir sobre a viabilidade de se produzir Conillon no Brasil, Martinelli fez um alerta: “Foi um grande esforço elevar o Espírito Santo ao patamar atual de produção. Diferente do que muitos pensam, não é nada fácil trabalhar com o Conillon, principalmente com o custo de produção por saca girando em torno de R$ 140,00”.

Um dos principais responsáveis pelas pesquisas que garantem destaque ao Conilon no Espírito Santo, Aymberé Fonseca disse que a opção pela espécie, que ocorreu na década de 1970, deve-se principalmente ao fato da planta se adaptar facilmente às áreas mais quentes e secas, além de apresentar maior resistência a doenças, como a ferrugem, por exemplo.

Contando atualmente com uma área plantada de 300 mil hectares, a produção cafeeira capixaba é responsável pela renda de 78 mil famílias em todo estado. Nos últimos 14 anos a produtividade no Espírito Santo cresceu 188% e a produção 213%, saltando de nove para 26 sacas por hectare, e de 2,5 milhões para 7,5 milhões de sacas produzidas, respectivamente. De acordo com Fonseca, os investimentos em ciência e tecnologia foram os fatores que mais contribuíram para este avanço. Apenas o governo do estado investiu R$ 120 milhões, desde 1985, em estudos sobre plantio em linha, manejo de podas, irrigação e nutrição, por exemplo. “Soma-se a isto, a capacidade empreendedora dos cafeicultores, que, além de serem multiplicadores, acreditam, adotam e respondem aos conhecimentos gerados”, complementa Fonseca.

 

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