O
9º Simpósio Nacional do Agronegócio
Café – Agrocafé, iniciativa da
Associação de Produtores de Café
da Bahia, foi aberto pelo presidente da entidade Silvio
Leite, com a participação de mais de
500 pessoas, entre produtores, pesquisadores, técnicos
e representantes dos exportadores, das indústrias
e de políticos envolvidos com o setor, confirmando
a sua condição de principal evento da
cafeicultura nacional. Realizado no Hotel Pestana
Bahia, em Salvador, o evento teve como tema central
a questão da Sustentabilidade Econômica
da Cafeicultura – É viável a produção
de café no Brasil?
| Durante
a solenidade de abertura, o presidente Sílvio
Leite, convocou todos os participantes a definir
as linhas para o futuro do setor. “A nossa
realidade é a de preços bons e lucratividade
péssima. Neste cenário, qual caminho
nós temos? Onde queremos chegar? Então,
vamos traçar nossas linhas de ação.
Linhas que podem ser readequadas, mas que solidificam
nossa busca”. |
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O superintendente da Secretaria de Agricultura do
Estado da Bahia, Eujácio Simões, destacou
os importantes avanços tecnológicos
do setor, ressaltando os investimentos programados
pelo Governo do Estado para elevar a produtividade
e a qualidade do café baiano. “Este é
um momento marcante para que possamos traçar
os melhores caminhos para avançar no mercado
internacional. Já estamos avaliando as necessidades
de infra-estrutura e de logística para reduzir
os preços da produção e aumentar
a produtividade dos cafeicultores”, revelou.
Representando o Governador Jaques Wagner, o secretário
de Desenvolvimento Regional, Edmon Lucas, avaliou
o 9º Agrocafé como um importante fórum,
por meio do qual os técnicos e produtores de
café possam expor as necessidades do setor
para o governo. “Queremos saber de tudo que
vai ser discutido aqui para fazermos nossas propostas.
Precisamos conhecer as demandas do setor para assegurarmos
melhores condições a todos, principalmente,
possibilitando melhorias nas condições
de vida dos pequenos produtores”.
Rubens
Barbosa vê o Brasil preparado para as turbulências
Para o embaixador Rubens Barbosa, que durante cinco
anos foi presidente da APPC – Associação
dos Países Produtores de Café (1994-1999),
em Londres, a atual crise financeira mundial, gerada
há cerca de dois anos pela ‘bolha’
imobiliária nos Estados Unidos, gerou uma desaceleração
da economia, e não uma recessão. “Acredito
numa desaceleração rápida da
economia norte-americana e este ano o crescimento
deve ficar entre 1% e 2%. Mas o Brasil está
melhor preparado para enfrentar esta turbulência”,
disse, acrescentando que o País vive uma situação
muito melhor que a vivida nos anos 90.
| Barbosa
analisou o tema “O Brasil e o Mercado Internacional
do Café” sobre quatro aspectos: tendências
da economia do mercado agrícola mundial;
mercado global e Brasil; a questão da sustentabilidade;
e a questão da renda do produtor. Ao seu
ver, o grande desafio do cafeicultor é
manter a venda estável, as vantagens competitivas,
e focar mais os custos do que os preços.
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“Como
é que o produtor vai reduzir seu custo além
do que já está fazendo com aumento da
produtividade, tecnologia?” questionou, respondendo
que a redução do custo do produtor vem
da maior racionalização da infra-estrutura,
do transportes, da parte fiscal, da legislação,
da melhor maneira de tributação social,
pelo preço dos fertilizantes e, também,
no caso dos produtores, de uma redução
das taxas de juros e pela mudança na questão
do câmbio.
Rubens Barbosa lembrou diversas conquistas dos produtores
e da cadeia café nos últimos anos, citando
entre os exemplos o fato do produtor brasileiro ter
criado condições para capturar uma grande
parte, cerca de 90%, do preço FOB das exportações.
“Nenhum outro país do mundo, do setor
cafeeiro, conseguiu isso. O Brasil fez grandes avanços
na comercialização: foi criada a Cédula
do Produtor Rural, a CPR, que tem permitido aos cafeicultores
diversificar suas estratégias de vendas e financiamento,
pois antes eram ‘prisioneiros’ do preço
spot”.
Lideranças
discutem cenário externo e alternativas
Discussões sobre a cotação do
dólar, a adoção de subsídios
governamentais e alternativas para melhorar a renda
do produtor dominaram a o painel de abertura do 9º
Agrocafé. O economista Fábio Knijnik,
do banco Espírito Santo, iniciou os trabalhos
chamando atenção para o fato de que
a moeda norte-americana dificilmente voltará
ao patamar de R$ 2, apesar da previsão de acréscimo
na taxa básica de juros da economia brasileira
já sinalizada pelo Banco Central (BC). “O
BC tem se mostrado preocupado com a perspectiva de
inflação. Os ciclos anteriores de aumento
por conta da crise cambial fizeram a Selic crescer
nove pontos percentuais. Em 2004, a taxa subiu quatro
pontos percentuais. Os juros subirão no primeiro
semestre, mas não deve ser nada desta magnitude”,
prevê Knijnik, que afirmou também “que
o produtor não deve se preocupar com um cenário
onde o dólar deve flutuar entre R$ 1,75 a R$
1,80. Uma das maneiras de se lidar com os riscos cambiais,
é buscar a proteção dos instrumentos
derivativos do mercado financeiro. “Não
pensar nisto é uma atitude de especulação.
Câmbio é algo extremamente importante,
mas muito difícil de prever”.
QUEIXAS
– O cafeicultor Gilson Ximenes,
presidente do Conselho Nacional do Café (CNC),
mostrou-se profundamente preocupado com a política
cambial brasileira, apontada por ele como uma das
principais ameaças à sustentabilidade
do negócio. Ele atribui a manutenção
do preço atual do café, ao redor de
US$ 1,60 por libra peso na Bolsa de New York, ao cenário
de escassez do produto. De 1980 a 2007, o faturamento
do agronegócio mundial saltou de US$ 30 bilhões
para US$ 80 bilhões, mas a fatia que fica com
os produtores encolheu de US$ 9 bilhões para
US$ 7,5 bilhões no mesmo período.
O presidente do CNC criticou também o fato
de que todo o investimento tecnológico para
aumento da produção, apesar da extinção
dos marcos regulatórios do negócio na
década de 1990, só beneficiou o consumidor.
“O resultado disto é o maior nível
de endividamento e inadimplência da cafeicultura
brasileira. Um levantamento recente feito a pedido
do governo federal indica que em Minas Gerais o volume
de dívidas soma R$ 2 bilhões”,
contabiliza Ximenes. Dentre as soluções
apontadas por ele está o aumento do limite
do crédito do custeio, limitado atualmente
em R$ 200 mil por CPF. Em outras culturas, a exemplo
do milho, o teto é de R$ 450 mil.
| Para
Guilherme Braga, diretor-geral do Conselho dos
Exportadores de Café do Brasil (Cecafé),
o desafio da sustentabilidade não envolve
apenas a atenção ao produtor, mas
a todos os segmentos da cadeia, que cumprem funções
específicas e interdependentes. Em relação
ao mercado internacional, destacou que os preços
atuais do mercado, que resultam das altas expressivas
nos últimos dias, com forte atuação
dos Fundos, não obstante os fundamentos
do café sejam positivos, na verdade, são
decorrentes de fatores econômicos estranhos
ao café, que estão ocorrendo simultaneamente
em várias commodities, e podem trazer grande
instabilidade ao mercado, inclusive com oscilações
de baixas. |
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Braga também defendeu a adoção
de mecanismos de natureza compensatória para
atenuar os impactos da valorização cambial,
como forma de evitar perdas de competitividade e de
renda interna do setor.
VALOR –
O empresário Mauro Malta, diretor executivo
da Abics (Associação Brasileira da Indústria
de Café Solúvel) chamou atenção
do público participante do 9º Agrocafé
para o fato de que o Brasil vem perdendo competitividade
frente a outros países exportadores de café
que mantém legislações menos
rígidas no campo ambiental e trabalhista.
“A solução para reverter este
quadro é agregar valor. Quanto mais tecnologia
se utiliza para a produção de um bem,
maior será o seu valor e maior será
o número de pessoas empregadas na geração
de renda”, detalha Malta.Como um exemplo bem
sucedido desta estratégia ele cita uma marca
de café solúvel lançado recentemente
no Brasil pela multinacional Nestlé. “O
Nespresso não é vendido em supermercados.
A empresa fez isso para fugir dos supermercadistas,
que sempre exigem preços mais baixos”,
diz.
Natan Herszkowicz, diretor da Abic (Associação
Brasileira da Indústria do Café), mostrou
ao público as estratégias desenvolvidas
pela instituição para estimular o consumo
interno baseado em campanhas de qualidade e de sofisticação
do produto café. “Nossa intenção
é continuar estimulando a produção
de cafés de melhor qualidade”, afirma
Herszkowicz, que defende este alternativa como um
vetor de geração de benefícios
para toda a cadeia produtiva.
OTIMISMO
- Otimista em relação
à atualidade da cafeicultura brasileira, o
pesquisador Celso Vegro, do Instituto de Economia
Agrícola – IEA, apontou uma situação
de custos de produção remuneradores
nas últimas safras e melhoria da relação
de trocas da cafeicultura como indicadores econômicos
do fortalecimento do setor e de sua organização.
“Hoje, temos um incremento de uma saca de café
a cada três safras. Um índice que nenhum
outro país do mundo consegue repetir. E isso
se deve a fatores como produtividade casada com inovação,
melhor uso da tecnologia de manejo, como adensamento,
poda, colheita mecânica e irrigação”.
Mencionou também “a queda da oscilação
entre o maior e o menor preço oferecido por
saca do produto como um dos fatores que podem elevar
a rentabilidade dos produtores. “Dessa forma,
o cafeicultor já não precisa mais ficar
temeroso em relação ao melhor momento
para vender sua safra. E isso é muito bom para
a cafeicultura”.
Sem tanto entusiasmo em relação a este
quadro, o presidente da Frente Parlamentar do Café,
deputado Carlos Melles, apontou a limitação
da oferta de café como possível saída
para estabilizar a rentabilidade da cafeicultura no
país. “Pela primeira vez na história
o país não tem um estoque de café.
E esta recomposição de estoque pode
elevar a rentabilidade dos produtores”. Ele
disse que o governo administra mal os estoques de
café, por exemplo, vendendo os estoques antigos
a preços em torno de US$ 30.00 a US$ 40.00.
Elevando o tom do discurso, o deputado teceu duras
críticas pela ausência de uma política
efetiva para o setor cafeeiro. Para Carlos Melles,
o Brasil precisa aderir à moda mundial de subsidiar
o agronegócio. “E o Brasil vem brincando
com a política agrícola”.
Também preocupado com a situação
atual da cafeicultura brasileira, o consultor e produtor
Luiz Hafers falou sobre “Soluções
de Negócios para a Crise do Café”.
Com declarações provocativas, Hafers
considera a união entre todos os envolvidos
na cadeia produtiva como uma das vias para elevar
a rentabilidade do setor. “Precisamos trabalhar
juntos com os torradores, com os exportadores, para
chegarmos a soluções dos nossos problemas”.
Segundo Hafers, o setor precisa estar atualizado com
o cenário mundial, atendendo a demanda pelo
produto brasileiro.
Cultura
de café Conillon é promissora no Brasil
Coordenada pelo técnico Frederico Daher, do
Cetcaf (Centro de Desenvolvimento Tecnológico
do Café), o painel que abriu o último
dia de atividades do Congresso debateu a produção
do café conillon e contou com a participação
de Dário Martinelli, também do Cetcaf,
Aymberé Fonseca, do Incaper (Instituto Capixaba
de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão
Rural) e Carlos Brando, da P&A Marketing.
Responsável pelas primeiras produções
de Conillon em escala comercial no país, Dário
Martinelli apresentou as perspectivas para a espécie.
O foco de sua palestra foi a produção
no Espírito Santo, estado responsável
pela maior fatia do produto no Brasil. Como informou
o produtor, o estado saltou de uma produção
de cerca de 2,5 milhões de sacas em 1999, para
7,5 milhões em 2007. “E o grande responsável
por esta virada histórica no Espírito
Santo foi o Incaper, que vem possibilitando novas
tecnologias e adequando o planejamento da produção”,
comentou. Estima-se que em 2010 a produção
de Conillon, apenas no Espírito Santo, atinja
o patamar de 10 milhões de sacas. Outros estados
do Brasil devem responder por uma produção
de mais cinco milhões de sacas. Convocando
os presentes a refletir sobre a viabilidade de se
produzir Conillon no Brasil, Martinelli fez um alerta:
“Foi um grande esforço elevar o Espírito
Santo ao patamar atual de produção.
Diferente do que muitos pensam, não é
nada fácil trabalhar com o Conillon, principalmente
com o custo de produção por saca girando
em torno de R$ 140,00”.
Um dos principais responsáveis pelas pesquisas
que garantem destaque ao Conilon no Espírito
Santo, Aymberé Fonseca disse que a opção
pela espécie, que ocorreu na década
de 1970, deve-se principalmente ao fato da planta
se adaptar facilmente às áreas mais
quentes e secas, além de apresentar maior resistência
a doenças, como a ferrugem, por exemplo.
Contando atualmente com uma área plantada de
300 mil hectares, a produção cafeeira
capixaba é responsável pela renda de
78 mil famílias em todo estado. Nos últimos
14 anos a produtividade no Espírito Santo cresceu
188% e a produção 213%, saltando de
nove para 26 sacas por hectare, e de 2,5 milhões
para 7,5 milhões de sacas produzidas, respectivamente.
De acordo com Fonseca, os investimentos em ciência
e tecnologia foram os fatores que mais contribuíram
para este avanço. Apenas o governo do estado
investiu R$ 120 milhões, desde 1985, em estudos
sobre plantio em linha, manejo de podas, irrigação
e nutrição, por exemplo. “Soma-se
a isto, a capacidade empreendedora dos cafeicultores,
que, além de serem multiplicadores, acreditam,
adotam e respondem aos conhecimentos gerados”,
complementa Fonseca.
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