Governos,
em economia, às vezes adotam a máxima
do “assim é se me parece.” No momento,
ao governo brasileiro “lhe parece” que
o Real tem apreciado devido à ação
dos especuladores. Por isso, adotaram medidas para
conter a valorização do Real.
Além do mais, o Brasil acaba de se tornar credor
externo, o que lhe daria licença para gastar
mais. Infelizmente, não é bem assim
(ou não me parece assim). O grande fenômeno
mundial não é a apreciação
do Real, mas a fraqueza do dólar, em função
da recessão e do déficit externo americano.
Para esse fenômeno, as medidas anunciadas não
funcionam. O mais adequado seria um limite no crescimento
dos gastos públicos, liberando recursos para
exportação e investimento. Até
porque o governo não é credor, mas um
grande devedor aqui no Brasil. E, para ser exato,
também no exterior, já que as obrigações
do país somam mais de US$400 bilhões,
no conceito amplo e correto (chamado “passivo
externo líquido”), mesmo descontando
os seus ativos, como as reservas internacionais.
Certamente, há aspectos domésticos positivos
responsáveis pela melhora nas contas externas,
como a adoção de uma raridade no Brasil:
a implementação por vários governos
distintos de um mesmo regime cambial/monetário
consistente - metas de inflação e flexibilidade
cambial - o que permitiu ao Brasil internalizar da
melhor forma os choques externos favoráveis
e, ao mesmo tempo, promover a estabilidade - que incentiva
as empresas a investir no futuro, na ampliação
da sua capacidade de produção.
Muitos neste governo ainda acreditam que o Brasil
poderia segurar o câmbio e, com isso, influenciar
a trajetória de crescimento. A idéia
é que um país com câmbio mais
depreciado poderia exportar mais, crescer ainda mais
e gerar mais emprego. Mas há dois potenciais
obstáculos a essa prescrição
de política econômica. Em primeiro lugar,
a teoria econômica nos ensina que câmbio
(real) mais depreciado significa salários reais
mais baixos (de fato, é difícil encontrar
países com salários altos que tenham
moedas muito fracas). Ter salários baixos não
parece ser o objetivo. Em segundo lugar, governos
que tentam depreciar suas moedas, sem querer aceitar
salários reais mais baixos, acabam gerando
apenas mais inflação, o que acaba frustrando
o desejo de se tornarem mais competitivos.
Veja o caso da Argentina que, alguns acreditam, estaria
promovendo o crescimento através de um câmbio
mantido mais depreciado. Na realidade, o câmbio
depreciado tem levado a uma inflação
que está acima dos 25% ao ano, mas cuja publicação
oficial está sendo manipulada. Ninguém
acredita no número oficial, nem na vontade/capacidade
de o governo controlar a inflação.
Olha-se alternativamente para regimes asiáticos
como a solução. Mas a política
econômica asiática não é
apenas câmbio depreciado, também se baseia
em altas taxas de poupança. No Brasil, poupança
maior significaria aumentar a poupança pública,
ou seja, controle do crescimento dos gastos públicos.
De fato, uma queda dos gastos tende a depreciar a
taxa de câmbio real e reduzir os juros. É
a forma como a economia se equilibra: menores gastos
do governo abrem espaço para expandir as exportações
líquidas, via depreciação, e
aumentar o investimento, via queda dos juros.
Nesse caso, há uma consistência. Queda
de juros e/ou depreciação real seriam
o resultado natural da redução dos gastos.
Infelizmente, o controle do crescimento dos gastos
públicos também não parece ser
o objetivo do governo. Afinal, assim que foi divulgado
que o Brasil tinha se tornado “credor”
externo, o governo interpretou como sinal para voltar
a se endividar e a gastar mais.
Mas o fato é que o governo não é
um credor propriamente dito. No Brasil, o governo
tem uma dívida pública acima de 40%
do PIB. E, no exterior, o Brasil tem ainda um passivo
grande. Mas como o Brasil virou um “credor”
externo, ao mesmo tempo, com um passivo grande?
Explico. É uma questão de história
e nomenclatura. O Brasil, recentemente, virou “credor”
externo no sentido que suas reservas superaram a sua
“dívida externa”.
Após anos de calotes nessa dívida e
problemas nas nossas contas externas é, de
fato, uma marca histórica.
Mas o mundo mudou e a “dívida externa”
se tornou um indicador incompleto. A “dívida
externa” não inclui as obrigações
do país com os investidores diretos (aqueles
que adquirem ou montam empresas) ou os investidores
em bolsa. E, mais relevante, não considera
as aplicações dos estrangeiros em renda
fixa no Brasil em reais. Como o investidor estrangeiro
tem crescentemente vindo ao Brasil investir seus recursos
em reais, essa é uma dívida crescente.
Se somarmos todas as obrigações líquidas
do país com o resto do mundo (tanto captadas
no exterior, quanto no Brasil), tecnicamente, calculando
o passivo externo líquido, a conta chega a
US$422 bilhões, ou 40,2% do PIB (último
dado divulgado até junho de 2007), já
descontados as reservas, o investimento de brasileiros
no exterior e outros ativos do Brasil. Paradoxalmente,
as obrigações nesse conceito mais amplo
aumentaram em US$166 bilhões nos últimos
quatro anos (em outro artigo, explico como aumentamos
nosso passivo, apesar do superávit comercial
e na conta corrente).
Em suma, o governo continua um devedor interno, e
o Brasil um devedor com o resto do mundo. As medidas
cambiais adotadas não são apropriadas
para lidar com a situação atual, que
deriva de um fenômeno global como a depreciação
do dólar - devido à recessão,
crise financeira e déficit externo - e a força
das commodities. Se a preocupação é
com os exportadores, o governo poderia reduzir o crescimento
dos seus gastos, o que liberaria recursos para exportações
e investimentos através de juros menores e
câmbio menos pressionado, que viriam a reboque
de um alívio na pressão sobre a inflação.
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