Quem
conta é Nelson Carvalhaes, diretor - junto
com seu irmão Eduardo - do Escritório
Carvalhaes e sócio da exportadora Porto de
Santos. Carvalhaes foi a pessoa que mais conviveu
com dr. Ernesto no Brasil. Foram dezessete anos de
convivência constante.
Hoje, diante da extraordinária mudança
de mentalidade observada no setor, com produtores
preocupados em utilizar variedades genéticas
que garantam alta produtividade e qualidade superior
e torradores patrocinando pesquisas sobre os gostos
do consumidor, Carvalhaes admite que “o planeta”
de onde tinha vindo dr. Illy não era outro
senão o futuro. “Era um homem que pensava
à frente, um revolucionário, um espírito
de vanguarda”, entusiasma-se. Carvalhaes afirma
que Ernesto Illy foi o primeiro grande torrador a
confiar na capacidade do Brasil em produzir cafés
de qualidade superior. “Sem dúvida, ele
foi fundamental para ajudar o produtor brasileiro
a melhorar sua auto-estima. Ele reconheceu o valor
do café brasileiro”.
O apoio de Ernesto Illy ao produtor brasileiro, no
entanto, não foi apenas moral, mas sobretudo
financeiro, pois a sua empresa foi uma das primeiras
torradoras a fechar contratos de longo prazo, pagando
preços bem acima do mercado tradicional. Numa
época em que milhares de cafeicultores viam
o futuro com desesperança, a mão estendida
de Ernesto seguramente colaborou para que continuassem
a apostar na atividade.
| Este
foi o caso dos irmãos Dutra, Walter e Edmilson,
tradicionais produtores de café na Zona
da Mata, que afirmam que “o Dr. Ernesto
Illy ajudou muito, motivou todo mundo, valorizou
o café da região”. Waltim
lembra que conheceu a Illycaffè através
de um cartaz fixado numa parede da agência
do Banco do Brasil de Manhuaçu, convidando
produtores a enviarem amostras para a empresa.
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Ele
o fez e, em 1999, realizou a primeira venda para a
Illycaffè. A partir daí, o futuro, que,
em vista das sucessivas crises de preço que
o café atravessava, se delineava sombrio para
os irmãos Dutra, passou a sorrir o sorriso
discreto, inteligente e generoso do dr. Illy, que
os convidou a ir à Itália, onde o conheceram
pessoalmente.
“Simplicidade, humildade, respeito pelo produtor”,
essas foram as qualidades de Ernesto Illy que impressionaram
Waltim, ao conhecê-lo pela primeira vez, em
Trieste, sede da empresa. Waltim ressalta, todavia,
que o trabalho de Ernesto Illy está sendo exemplarmente
continuado por seus filhos Andrea e Anna. “Acredito
que eles estão seguindo os mesmos passos e
podem fazer um trabalho similar e até melhor”,
diz Waltim, produtor de 17 mil sacas/ano e rotineiro
vencedor de prêmios de qualidade.
Recolhemos ainda um belo depoimento de Luis Norberto
Pascoal, diretor da Daterra, uma das maiores fazendas
de café arábica do país: “O
Dr. Ernesto Illy foi o maior incentivador de um café
de qualidade e mostrou que o Brasil poderia ser, como
de fato se tornou, um dos melhores produtores de grãos
de café para expressos maravilhosos. Foi e
será sempre exemplo para nós da Daterra.
A pesquisa conjunta que nos propôs, até
hoje é fundamental para a evolução
e desenvolvimento de cafés cada vez melhores,
e se tornou pedra de toque do nosso desenvolvimento.
Sua visão de investir em pesquisa de qualidade
abriu muitos caminhos para nós. Esses caminhos
jamais serão fechados. Para que sua mensagem
nunca morra, vamos destacar uma área da fazenda
em Patrocínio (MG), onde há uma cachoeira,
e nominá-la Reserva Ambiental Dr. Ernesto Illy.
Esta área será doada ao patrimônio
histórico da humanidade em nome da Fundação
Illy e da Fundação Educar-Daterra.”
Ernesto Illy faleceu no dia 3 de fevereiro de 2008,
aos 83 anos. Sua história com o café
começa com a fundação da Illycaffè,
por seu pai, Francesco, em 1933. Em 1963, assume a
presidência do grupo que, sob sua gestão,
torna-se proprietário de uma das mais vendidas
e valorizadas marcas do mundo cafeeiro. Formado em
química pela Universidade de Bolonha, Ernesto
aplicaria seus conhecimentos na elaboração
de blends que se tornaram famosos e foi um dos maiores
incentivadores, no Brasil, de pesquisas genéticas
voltadas para a melhoria da bebida.
O empresário também atuou na política
cafeeira internacional, apoiando a abertura da Organização
Internacional do Café (OIC) ao setor privado,
através da criação de uma Junta
composta por representantes das grandes torradoras,
uma medida extremamente sagaz que ajudou a dar consistência
política à OIC, entidade cuja existência
chegou inclusive a ser questionada, após o
fim das cláusulas econômicas que ordenavam
a oferta mundial. Por alguns anos, Ernesto, além
de membro da Junta do setor privado, foi também
presidente do Comitê de Promoção
do Café da OIC.
Por seu trabalho notável em prol da cafeicultura,
Ernesto acumulou prêmios honorários em
diversos países, presidiu diversas associações
de pesquisa de qualidade, sempre se destacando por
uma visão moderna, sempre antevendo as tendências
futuras de produtores e consumidores, seguindo à
risco o conselho de Ovídio, um italiano dos
tempos antigos: Qui non est hodie cras minus aptus
erit. Quem não está preparado hoje,
estará ainda menos amanhã. |