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Março 2008 - Ano 87 - Nº 825

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Quem conta é Nelson Carvalhaes, diretor - junto com seu irmão Eduardo - do Escritório Carvalhaes e sócio da exportadora Porto de Santos. Carvalhaes foi a pessoa que mais conviveu com dr. Ernesto no Brasil. Foram dezessete anos de convivência constante.

Hoje, diante da extraordinária mudança de mentalidade observada no setor, com produtores preocupados em utilizar variedades genéticas que garantam alta produtividade e qualidade superior e torradores patrocinando pesquisas sobre os gostos do consumidor, Carvalhaes admite que “o planeta” de onde tinha vindo dr. Illy não era outro senão o futuro. “Era um homem que pensava à frente, um revolucionário, um espírito de vanguarda”, entusiasma-se. Carvalhaes afirma que Ernesto Illy foi o primeiro grande torrador a confiar na capacidade do Brasil em produzir cafés de qualidade superior. “Sem dúvida, ele foi fundamental para ajudar o produtor brasileiro a melhorar sua auto-estima. Ele reconheceu o valor do café brasileiro”.

O apoio de Ernesto Illy ao produtor brasileiro, no entanto, não foi apenas moral, mas sobretudo financeiro, pois a sua empresa foi uma das primeiras torradoras a fechar contratos de longo prazo, pagando preços bem acima do mercado tradicional. Numa época em que milhares de cafeicultores viam o futuro com desesperança, a mão estendida de Ernesto seguramente colaborou para que continuassem a apostar na atividade.

Este foi o caso dos irmãos Dutra, Walter e Edmilson, tradicionais produtores de café na Zona da Mata, que afirmam que “o Dr. Ernesto Illy ajudou muito, motivou todo mundo, valorizou o café da região”. Waltim lembra que conheceu a Illycaffè através de um cartaz fixado numa parede da agência do Banco do Brasil de Manhuaçu, convidando produtores a enviarem amostras para a empresa.

Ele o fez e, em 1999, realizou a primeira venda para a Illycaffè. A partir daí, o futuro, que, em vista das sucessivas crises de preço que o café atravessava, se delineava sombrio para os irmãos Dutra, passou a sorrir o sorriso discreto, inteligente e generoso do dr. Illy, que os convidou a ir à Itália, onde o conheceram pessoalmente.

“Simplicidade, humildade, respeito pelo produtor”, essas foram as qualidades de Ernesto Illy que impressionaram Waltim, ao conhecê-lo pela primeira vez, em Trieste, sede da empresa. Waltim ressalta, todavia, que o trabalho de Ernesto Illy está sendo exemplarmente continuado por seus filhos Andrea e Anna. “Acredito que eles estão seguindo os mesmos passos e podem fazer um trabalho similar e até melhor”, diz Waltim, produtor de 17 mil sacas/ano e rotineiro vencedor de prêmios de qualidade.

Recolhemos ainda um belo depoimento de Luis Norberto Pascoal, diretor da Daterra, uma das maiores fazendas de café arábica do país: “O Dr. Ernesto Illy foi o maior incentivador de um café de qualidade e mostrou que o Brasil poderia ser, como de fato se tornou, um dos melhores produtores de grãos de café para expressos maravilhosos. Foi e será sempre exemplo para nós da Daterra. A pesquisa conjunta que nos propôs, até hoje é fundamental para a evolução e desenvolvimento de cafés cada vez melhores, e se tornou pedra de toque do nosso desenvolvimento. Sua visão de investir em pesquisa de qualidade abriu muitos caminhos para nós. Esses caminhos jamais serão fechados. Para que sua mensagem nunca morra, vamos destacar uma área da fazenda em Patrocínio (MG), onde há uma cachoeira, e nominá-la Reserva Ambiental Dr. Ernesto Illy. Esta área será doada ao patrimônio histórico da humanidade em nome da Fundação Illy e da Fundação Educar-Daterra.”

Ernesto Illy faleceu no dia 3 de fevereiro de 2008, aos 83 anos. Sua história com o café começa com a fundação da Illycaffè, por seu pai, Francesco, em 1933. Em 1963, assume a presidência do grupo que, sob sua gestão, torna-se proprietário de uma das mais vendidas e valorizadas marcas do mundo cafeeiro. Formado em química pela Universidade de Bolonha, Ernesto aplicaria seus conhecimentos na elaboração de blends que se tornaram famosos e foi um dos maiores incentivadores, no Brasil, de pesquisas genéticas voltadas para a melhoria da bebida.

O empresário também atuou na política cafeeira internacional, apoiando a abertura da Organização Internacional do Café (OIC) ao setor privado, através da criação de uma Junta composta por representantes das grandes torradoras, uma medida extremamente sagaz que ajudou a dar consistência política à OIC, entidade cuja existência chegou inclusive a ser questionada, após o fim das cláusulas econômicas que ordenavam a oferta mundial. Por alguns anos, Ernesto, além de membro da Junta do setor privado, foi também presidente do Comitê de Promoção do Café da OIC.

Por seu trabalho notável em prol da cafeicultura, Ernesto acumulou prêmios honorários em diversos países, presidiu diversas associações de pesquisa de qualidade, sempre se destacando por uma visão moderna, sempre antevendo as tendências futuras de produtores e consumidores, seguindo à risco o conselho de Ovídio, um italiano dos tempos antigos: Qui non est hodie cras minus aptus erit. Quem não está preparado hoje, estará ainda menos amanhã.

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