Como
os leitores desta Revista estão cansados de
saber, o Brasil é o maior produtor de café
do mundo. De acordo com a Organização
Internacional do Café (OIC), a safra global
este ano (2007/08) será de 117,03 milhões
de sacas, queda de 7% sobre o ano anterior e abaixo
da média de 118,95 milhões de sacas
registrada nos últimos cinco anos.
A produção brasileira em 2007/08, segundo
a estimativa oficial usada pela OIC, foi de 33,74
milhões de sacas, perfazendo, com isso, uma
média de 39,39 milhões de sacas nos
últimos cinco anos, volume que corresponde
a 33,1% da produção mundial.
Em virtude de seus problemas climáticos, da
idade de suas lavouras, do tamanho gigantesco de seu
parque cafeeiro, e principalmente dos efeitos do cultivo
dos cafeeiros a pleno sol, a produção
brasileira tem uma bianualidade mais acentuada que
a de seus concorrentes. Como a produção
de outros países é mais estável,
a safra brasileira constitui, portanto, o fator mais
imponderável do mercado de café.
Nestor Osorio, diretor da OIC, estima a safra mundial
2008/09 em 123 a 126 milhões de sacas. Como
o Brasil entra no ano bom do ciclo bianual, com safra
estimada oficialmente em até 44 milhões
de sacas, a participação brasileira
na produção mundial deverá subir
para 35% ou 36%. Considerando as centenas de milhões
de dólares em jogo nas bolsas de futuro, uma
avaliação correta da safra brasileira
pode corresponder a lucros ou prejuízos incalculáveis.
Nada mais natural, num cenário em que a informação
alcança um valor tão alto, que muitas
empresas estrangeiras e nacionais resolvam elaborar
as suas próprias projeções, visando
oferecer metas comerciais para si e seus clientes.
TRISTÃO
PREVÊ SAFRA DE 53 MILHÕES DE SACAS
O exportador Sérgio Tristão, presidente
da empresa que leva seu sobrenome, participou de uma
conferência, na primeira semana de março,
na qual divulgou uma estimativa de 53 milhões
de sacas para o Brasil em 2008/09, um volume quase
10 milhões de sacas acima da produção
estimada pela Conab, a agência federal responsável
pelo levantamento oficial da safra brasileira de café.
Segundo a Conab, a safra brasileira 2008/09 ficará
entre 41,28 e 44,17 milhões de sacas.
| Os
números da Comexim |
| A
Comexim também realiza projeções
de safra e de carryover. Segundo a Comexim,
o Brasil deverá produzir 49,05 milhões
de sacas em 2008/09, contra 36,05 milhões
de sacas em 2007/08. O relatório
da exportadora santista é assinado
por John Wolthers e Sérgio Hazan,
e traz também uma estimativa para
o carryover (estoques remanescentes) no
início do ano, de 19,04 milhões
de sacas em mãos do setor privado.
Wolthers observa que esse nível de
estoque é muito baixo e que, provavelmente,
terá que atualizá-lo para
cima. “Se exportarmos 12 milhões
de sacas no primeiro semestre e consumirmos
internamente mais 8 milhões de sacas,
faltará café”, diz o
executivo. Os números da Comexim,
de qualquer forma, apontam para uma realidade
inevitável, também mostrada
nos números de Tristão e Conab:
a oferta ficará apertada este ano,
antes da entrada da safra nova. |
|
|
|
|
Na
mesma palestra, Tristão revisita os levantamentos
feitos por sua empresa nos últimos anos, comparando
o desaparecimento de café (exportação
mais consumo) nos últimos anos com suas estimativas
de safra. Aproveitamos a idéia do exportador,
e também algumas de suas estimativas (safra
e estoques iniciais), e elaboramos uma tabela comparativa
de oferta e demanda do café brasileiro nos
últimos anos. Nesta tabela, os dados referentes
às exportações foram obtidos
junto ao relatório do Cecafé de fevereiro
de 2008. Para o consumo e leilões do governo,
usamos os números da Conab. Para os estoques
privados iniciais, usamos os números da Tristão
e da Conab. Os estoques finais foram calculados subtraindo-se
o desaparecimento da oferta total (produção
+ estoques). O resultado foi o seguinte: nos 9 nove
anos de 1998/99 a 2006/07, o desaparecimento acumulado
total de café foi de 348,038 milhões
de sacas, contra uma oferta de 361,00 milhões
de sacas, segundo a Tristão, e de 347,64 milhões
de sacas, segundo a Conab.

O método sugerido por Tristão permite
avaliar a coerência das estimativas de safra
em relação às estimativas de
demanda, sendo que estas últimas têm
uma vantagem estatística: as exportações
são contabilizadas com precisão, devido
à necessidade do registro alfandegário
para exportar. Na verdade, o volume de exportação
é o único dado sobre o qual se tem controle
total, fator que deve ser sempre considerado quando
os estimadores de safra fizerem as devidas atualizações
dos números passados.
CONAB
ASSUME A PREVISÃO DAS SAFRAS DE CAFÉ
Nesse ponto de nosso raciocínio, vale fazer
alguns comentários pertinentes. Durante algum
tempo, particularmente após o fim do IBC, a
partir de 1991, quando o país ficou de 1991
a 1995 sem previsão oficial de safra, os debates
em torno da estimativa de safra tornaram-se bastante
agressivos. A crise de preços, naturalmente,
ajudou a criar uma atmosfera de desconfiança
entre os diferentes setores do agronegócio,
o que prejudicava o debate livre sobre a melhor forma
de avaliar o tamanho das safras brasileiras passadas
e projetar as futuras. A transferência da responsabilidade
pela produção da estimativa oficial
da safra brasileira de café do Ministério
da Agricultura / Embrapa, que realizou este trabalho
de 1996 a 2000, para Companhia Nacional de Abastecimento,
a partir de 2001, trouxe mais credibilidade às
previsões oficiais, em função
da maior blindagem da Conab a pressões políticas,
reduzindo a desconfiança que o setor privado
alimentava contra os números do governo.
| As
divergências, no entanto, continuam ocorrendo,
o que é normal e salutar. Jorge Queiroz,
analista de mercado da Conab, afirma que a instituição
respeita as opiniões de todos os agentes
do setor sobre a safra brasileira e que a Conab
está aberta, inclusive, a críticas
sobre sua metodologia e sobre seus números.
|
|
Queiroz
admite, por exemplo, que o ponto-fraco das estimativas
oficiais é uma justa avaliação
do volume de café estocado em mãos do
setor privado. Como não há lei que obrigue
o setor privado a informar o governo sobre os estoques,
a Conab fica refém da boa vontade e sinceridade
dos agentes do mercado. A instituição
faz o levantamento dos estoques através de
envio de 1.500 questionários a serem preenchidos
por produtores, exportadores, cooperativas e indústrias.
De fato, é nos estoques que encontramos as
maiores divergências entre os números
do setor privado e os do governo. Embora as estimativas
de carryover (estoques remanescentes) para o início
do ano-safra 2008/09 de Tristão e Conab sejam
próximas – 9,70 milhões para a
Tristão e 7,82 milhões para a Conab
–, as diferenças são profundas
quando se olha a série histórica desde
1998.

No acumulado de 11 anos de 98/99 a 08/09, a produção
brasileira totalizou, segundo a Conab, 400,84 milhões
de sacas. No mesmo período, a demanda acumulada,
ou desaparecimento, também segundo a Conab,
atingiu 439,13 milhões de sacas. Para entender
essa disparidade brutal, de 39 milhões de sacas,
deve-se considerar o uso de 26,21 milhões de
sacas de estoques privados e 10,88 milhões
de sacas de estoques públicos, perfazendo uma
oferta total de 437,94 milhões de sacas, que
mesmo assim é inferior ao desaparecimento registrado
nesses 11 anos. A Conab informa que os estoques privados
ao início do ano-safra 98/99 estavam em 34,04
milhões de sacas, caindo para 7,82 milhões
de sacas no início de 08/09.
O volume dos estoques estimado pela Conab para 98/99,
porém, é pouco crível se confrontado
com os estoques nas cooperativas (monitorados à
época pelo Conselho Nacional do Café),
que chegavam somente a 712 mil sacas em 1998/99. Vale
lembrar que a cafeicultura brasileira vinha sofrendo
problemas climáticos desde 1986, quando uma
seca derrubou a produção para 13,5 milhões
de sacas no mesmo ano, e que se somaram à terrível
crise de preços do início da década
de 90, que produziu abandono de lavouras e redução
dos tratos culturais. Em 1994, ocorreu uma severa
geada, que derrubou a safra para 16,8 milhões
de sacas em 1995/06 e, em 1998, outra geada quebrou
a produção, que ficou abaixo de 19 milhões
de sacas em 1998/99. Esses fatos explicam porque os
estoques nas cooperativas e no setor privado, de forma
geral, iniciaram o ano de 1998 em patamares tão
baixos.
A conclusão, em face dos números apresentados,
é que cumpre aos estimadores de safra realizarem
revisões constantes dos números passados,
valorizando mais o único dado cem por cento
confiável, que é a exportação.
Somente uma revisão franca e corajosa permitirá
que se façam projeções mais acertadas
no futuro.
|